A maior parte dos imigrantes italianos que povoaram o Sul do Brasil veio do Norte da Itália, e muitos sobrenomes ainda carregam o sotaque exato da região de origem. No Vêneto, na Lombardia, no Trentino e no Friuli, a terminação do nome funciona como um mapa, segundo a onomástica, a ciência que estuda a origem dos nomes.
A pista está no final do sobrenome. Um “in” costuma ser vêneto, um “er” aponta para o Trentino de língua alemã, um “utti” remete ao Friuli. Não é regra absoluta, mas, somada ao histórico da família, ajuda a estreitar o cerco na busca pela comuna.
Vêneto: a terra do “n”
O Vêneto foi a maior fonte da imigração para São Paulo, Rio Grande do Sul e Santa Catarina, e seus sobrenomes são fáceis de reconhecer. A marca é a terminação em consoante. Como resume o onomasta Enzo Caffarelli, da Rivista Italiana di Onomastica, é “típica a terminação em consoante, sobretudo em ‘n'”.
Daí vêm Marangon (de “marangone”, carpinteiro), Ballarin (dançarino), Zanon, Zambon, Zanin e Marin, além dos étnicos Trevisan (de Treviso), Visentin (de Vicenza), Pavan (de Pádua) e Furlan (do Friuli). Outro traço bem vêneto é o sufixo “ato”, em Lovato, Volpato, Reginato e Simionato. Os sobrenomes do Vêneto, aliás, estão entre os que menos passaram pelo processo de italianização, o que ajudou a preservar essas formas.
Lombardia: o nome diz onde ficava a casa
Na Lombardia chamam atenção os sobrenomes de residência, que apontam o lugar exato onde a família morava no vilarejo. Para Caffarelli, eles “assinalam uma fixação, um enraizamento”, ligados a pontos do povoado como a porta, a estrada, a igreja ou a encosta. É o caso de Fontana, Villa, Sala, Porta e Chiesa.
A região também tem o sobrenome mais curioso da lista: Colombo, um dos mais frequentes da Lombardia, que em boa parte dos casos foi atribuído a enjeitados, a partir da pomba que era símbolo de uma instituição de acolhimento de Milão.
Trentino-Alto Adige: sobrenomes alemães
Quem tem ascendência trentina pode estranhar à primeira vista. A região “caracteriza-se pela presença de sobrenomes alemães”, com a marca da terminação “er”, como Moser e Pichler. Convivem com formas italianas como Tomasi, Pedrotti e Zeni, e com nomes locais como Degasperi, o mesmo do estadista Alcide De Gasperi.
Friuli: o cruzamento de três culturas
No Friuli, os sobrenomes misturam italiano, friulano, alemão e esloveno. A terminação típica é “utti” e “ussi”, em Bortolussi, Mattiussi e Colautti, além de Cargnelutti, literalmente “da Carnia”. Aparece Furlan, o sobrenome número 1 em Trieste, e curiosidades como Blasutig, que junta o friulano Blasùt (diminutivo de Biagio) ao sufixo esloveno “ig”.
Em todos os casos, vale o mesmo lembrete: a terminação aponta uma tendência, não uma certeza. Mas, para quem procura a cidade de origem, ela é um bom primeiro fio para puxar.




































