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História

Como se chamavam as ruas de Roma há mais de 150 anos

Em 1871, nomes ligados a ladrões, açougues e peixarias deram lugar a referências políticas, artísticas e monumentos da Antiguidade

De nomes populares a referências clássicas: conheça como a capital italiana reorganizou sua identidade urbana no final do século XIX | Foto: Despositphotos
De nomes populares a referências clássicas: conheça como a capital italiana reorganizou sua identidade urbana no final do século XIX | Foto: Despositphotos

Quem percorresse Roma em 1871 poderia passar pela Via dei Tre Ladroni (a rua dos Três Ladrões), pelo Vicolo Calabraga (rua “abaixe as calças”) ou pela Piazza di Pescheria. Esses nomes desapareceram durante uma reorganização que atingiu dezenas de ruas e becos da cidade, então recém-transformada em capital do Reino da Itália.

A mudança não foi motivada apenas por questões políticas ou urbanísticas. A Giunta comunale di statistica, comissão municipal responsável pelas estatísticas, precisava eliminar nomes repetidos e endereços imprecisos antes do recenseamento da população.

Bendita Cidadania, analise de cidadania italiana

O relatório oficial do censo de 1871 registra que a comissão trabalhou para retirar duplicidades e corrigir a nomenclatura das vias.

Roma havia sido declarada capital pela Lei nº 33, de 3 de fevereiro de 1871. Em novembro daquele ano, a comissão enviou à administração municipal uma relação de mudanças e propostas para as ruas do novo quartiere delle Terme, também conhecido como De Merode.

A discussão no conselho municipal foi agitada. Parte dos conselheiros questionou quem tinha autoridade para escolher os nomes e reclamou de não ter recebido a relação com antecedência. Uma proposta de adiamento foi rejeitada por 15 votos a 13, pois o recenseamento tinha prazo legal.

O bairro De Merode recebeu nomes ainda conhecidos pelos romanos, como Via Nazionale, Via Torino, Via Firenze, Via Napoli, Via Genova, Via Modena e Via Parma.

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Os nomes aprovados em 1871

A reforma alcançou áreas como Monti, Trevi, Colonna, Campo Marzio, Ponte, Regola, Sant’Eustachio, Pigna, Campitelli, Sant’Angelo e Trastevere.

Nome anteriorNome aprovado
Via Porta PiaVia Venti Settembre
Via delle FratteVia delle Frasche
Via dell’OlmoVia dell’Olmata
Via dei Tre LadroniVia dell’Umiltà
Via del SoleVia del Pantheon
Via di S. IsidoroVia degli Artisti
Via di S. Maria in CampomarzioVia Metastasio
Via dei SediariVia della Seggiola
Via delle PosteVia della Dogana Vecchia
Via del GesùVia del Plebiscito
Via dei FieniliVia dei Foraggi
Via della Catena di PescheriaVia del Teatro di Marcello
Piazza di PescheriaPortico d’Ottavia
Via di PescheriaVia del Portico d’Ottavia
Vicolo del PozzoVicolo della Cisterna
Vicolo del LeoncinoVicolo del Leopardo
Vicolo dei FieniliVicolo della Paglia
Vicolo AlibertVicolo della Farnesina

Boa parte das alterações resolvia casos de ruas com nomes iguais ou identificava trechos diferentes de uma mesma via. Para manter alguma relação entre as denominações, a comissão recorria a palavras com sentidos próximos.

Foi assim que o poço de Vicolo del Pozzo deu lugar à cisterna de Vicolo della Cisterna. Em Trastevere, Vicolo dei Fienili, referência aos depósitos de feno, tornou-se Vicolo della Paglia, a rua da palha. Vicolo del Leoncino passou a se chamar Vicolo del Leopardo.

Bendita Cidadania, analise de cidadania italiana

A preocupação com o decoro também pesou. Via dei Tre Ladroni, a rua dos Três Ladrões, foi rebatizada como Via dell’Umiltà. O nome Vicolo Calabraga foi considerado indecente e substituído por Vicolo Cellini, em referência a Benvenuto Cellini.

Nem mesmo um beco sem denominação escapou. A solução aprovada foi chamá-lo de Vicolo Anonimo.

Política e Roma antiga nos endereços

A substituição de Via Porta Pia por Via Venti Settembre teve caráter político. O novo nome recordava 20 de setembro de 1870, data da entrada das tropas italianas em Roma pela brecha de Porta Pia.

Via del Giardino Papale perdeu a referência ao papa e passou a ser Via dei Giardini. A justificativa registrada era que o pontífice já não residia no Quirinale, transformado em palácio da monarquia italiana.

Outras mudanças trocaram nomes populares, ligados a lojas, mercados e locais de trabalho, por referências à Roma antiga. Um trecho da Via Macel dei Corvi tornou-se Via del Foro Trajano. A Via della Catena di Pescheria recebeu o nome de Via del Teatro di Marcello, enquanto a praça e a rua da peixaria foram rebatizadas como Portico d’Ottavia e Via del Portico d’Ottavia.

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O conselho também discutiu como homenagear Angelo Brunetti, personagem popular de Roma conhecido como Ciceruacchio. A proposta inicial era criar o Vicolo Ciceruacchio, mas um conselheiro defendeu o uso do sobrenome. Por 19 votos a nove, venceu Vicolo Brunetti, hoje Via Angelo Brunetti.

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