O empresário e ex-editor Valter Lavitola, que já foi candidato da Forza Italia, partido atualmente comandado pelo vice-premiê e ministro das Relações Exteriores Antonio Tajani, foi preso nesta segunda-feira (10) sob acusação de ser o mandante do atentado a bomba contra o jornalista Sigfrido Ranucci, apresentador do programa investigativo Report, da Rai.
A prisão preventiva foi determinada pelo juiz de investigações preliminares de Roma a pedido da Procuradoria. Lavitola é investigado pelo ataque ocorrido em 16 de outubro de 2025, diante da casa de Ranucci em Pomezia, nos arredores de Roma. O artefato explosivo danificou os carros do jornalista. Lavitola nega ter encomendado o atentado.
Segundo a Procuradoria de Roma, ele teria planejado a ação com a ajuda de Gomes Clesio Tavares, cidadão camaronês apontado como intermediário entre o empresário e o grupo que teria colocado a bomba. Tavares está foragido e, segundo as autoridades italianas, pode estar na África.
Aos investigados também é atribuída a agravante de uso de método mafioso. Quatro pessoas apontadas como executoras materiais do atentado já haviam sido alvo de medidas cautelares no fim de junho.
Ataque teria objetivo político
A hipótese apresentada pelos investigadores para o atentado tornou o caso ainda mais incomum.
De acordo com a decisão judicial que determinou a prisão, Lavitola teria organizado o ataque não para ferir Ranucci, mas para aumentar a popularidade do jornalista e acelerar uma eventual entrada dele na política italiana.
O plano, segundo o juiz, seria fazer a explosão parecer uma intimidação provocada pelas investigações jornalísticas conduzidas pelo apresentador do Report. A repercussão poderia fortalecer a imagem pública de Ranucci e favorecer uma futura candidatura.
Lavitola, ainda segundo a investigação, pretendia conquistar para si uma posição de destaque nesse eventual projeto político.
O juiz ressalta que não há elementos indicando que Ranucci soubesse do plano. As informações reunidas até agora apontam o jornalista como vítima do atentado e de uma possível manipulação de Lavitola.
Lavitola foi candidato da Forza Italia
A trajetória de Lavitola passa há décadas pelos bastidores da política italiana e, principalmente, pelo ambiente político que cercava o ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi.
Em 2004, Lavitola foi candidato ao Parlamento Europeu pela Forza Italia, na circunscrição Sul. Recebeu cerca de 54.000 votos, mas não conseguiu se eleger.
Hoje, a Forza Italia é comandada por Antonio Tajani, que ocupa oficialmente o cargo de secretário nacional da legenda. A referência a Tajani é exclusivamente partidária.
Depois da passagem eleitoral pela Forza Italia, Lavitola continuou próximo ao ambiente de Berlusconi. Segundo a agência ANSA, frequentou o então primeiro-ministro e chegou a acompanhá-lo em algumas viagens oficiais ao exterior.
Seu nome também apareceu em uma série de processos que marcaram os últimos anos dos governos Berlusconi.
Lavitola esteve envolvido, por exemplo, no processo sobre a chamada “compravendita di senatori”, a suposta compra de apoio de parlamentares para enfraquecer o governo de Romano Prodi. Foi condenado em primeira instância por corrupção, mas o crime acabou posteriormente declarado prescrito pela Corte de Cassação.
Também recebeu condenação por tentativa de extorsão contra o próprio Berlusconi e cumpriu pena em outros processos relacionados à administração do jornal L’Avanti!.
Interrogatório será na prisão
Lavitola permanece preso em Rebibbia, em Roma. O interrogatório de garantia está marcado para a manhã desta quarta-feira (12).
Enquanto isso, a Procuradoria prepara os procedimentos para tentar obter a extradição de Gomes Clesio Tavares, considerado pelos investigadores o possível elo entre Lavitola e o grupo responsável pela execução do atentado.
As acusações contra Lavitola ainda serão examinadas pela Justiça italiana.
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