Em 17 de junho de 1893, circulou pela primeira vez em São Paulo um pequeno semanário humorístico escrito em italiano. Chamava-se Fanfulla, tinha quatro páginas e nasceu com a pretensão modesta de divertir os leitores.
Poucos poderiam imaginar que aquela folha se tornaria o jornal mais influente da colônia italiana no Brasil.
Com interrupções, mudanças de formato e fases muito distintas, o Fanfulla atravessou mais de um século de história. Saiu do humor, entrou na política, tornou-se diário, defendeu imigrantes, ajudou a fundar símbolos da italianidade em São Paulo e, mais tarde, carregou também uma página incômoda: a adesão ao fascismo.
A história do jornal é, em boa medida, a história da própria imigração italiana no Brasil.
Um nome de guerra para um jornal de piada
O nome Fanfulla vinha de Fanfulla da Lodi, personagem lendário da história italiana. Segundo o historiador Franco Cenni, uma referência fundamental nos estudos sobre a imigração italiana no Brasil, tratava-se de um frade guerreiro do século XV, ligado ao imaginário das batalhas, dos torneios e da bravura popular.
A escolha combinava com o espírito inicial da publicação. O Fanfulla nasceu como jornal humorístico, satírico, leve, voltado a uma comunidade que crescia rapidamente em São Paulo.
Mas o tom de brincadeira durou pouco.
Seu fundador era Vitaliano Rotellini, jornalista italiano que já havia passado por redações como o Messaggero e L’Aquila Latina antes de cruzar o Atlântico. Sob sua direção, de 1893 a 1910, o Fanfulla deixou de ser apenas uma folha de humor e assumiu uma função muito mais ambiciosa.
Passou a falar em nome dos italianos.
A voz não oficial da colônia
A partir de 1894, o Fanfulla tornou-se diário. Publicava política brasileira, notícias da Itália, cultura, variedades, esportes, anúncios, debates públicos e assuntos cotidianos da colônia.
Não era apenas um jornal para italianos. Era um espaço onde os italianos no Brasil passaram a se enxergar como grupo.

Angelo Trento, um dos principais estudiosos da imprensa italiana no país, definiu o Fanfulla como “o verdadeiro órgão não oficial da comunidade peninsular em solo brasileiro”.
A frase resume o peso do jornal.
Num tempo em que os imigrantes ainda eram vistos como mão de obra estrangeira e muitas vezes tratados com desconfiança, o Fanfulla funcionava como porta-voz, tribuna, mural comunitário e instrumento de pressão.
Defendia interesses dos imigrantes, cobrava participação na vida pública brasileira e acompanhava de perto os problemas de uma população que crescia em ritmo acelerado.
Antes de serem italianos, eram vênetos, calabreses e piemonteses
O papel do Fanfulla ia além da informação.
No fim do século XIX, muitos recém-chegados da península não se viam exatamente como italianos. A Itália havia sido unificada poucas décadas antes, e a identidade nacional ainda era frágil, especialmente entre camponeses, trabalhadores pobres e famílias vindas de regiões muito distintas.
A Biblioteca Nacional resume esse ponto de forma direta: muitos imigrantes “não se reconheciam ainda como italianos no século XIX”.
Eles se identificavam como vênetos, calabreses, piemonteses, toscanos, trentinos, sardos ou lombardos. Falavam dialetos diferentes, traziam costumes diferentes e carregavam memórias locais muito mais fortes do que a ideia abstrata de uma pátria italiana.
Foi nesse vazio que a imprensa em língua italiana ganhou força.
Ao escrever em italiano para todos, o Fanfulla ajudava a costurar uma identidade comum. O jornal transformava fragmentos regionais em comunidade. Criava referências compartilhadas. Dava aos imigrantes uma língua pública, uma agenda comum e uma narrativa de pertencimento.
Não é exagero dizer que o Fanfulla ajudou muitos italianos no Brasil a se sentirem italianos.
Cinco diários italianos em uma só cidade
O Fanfulla não estava sozinho. São Paulo chegou a ter cinco diários em língua italiana em 1907, entre eles Fanfulla, La Tribuna Italiana, Il Secolo, Avanti! e Corriere d’Italia.
Era um ecossistema de imprensa étnica raro, vigoroso e altamente politizado.
O fenômeno acompanhava o tamanho da imigração. Entre o fim do século XIX e o começo do século XX, São Paulo tornou-se o principal destino dos italianos no Brasil. A cidade e o interior paulista receberam centenas de milhares de imigrantes, e os jornais em língua italiana passaram a circular em cafés, armazéns, associações, sociedades de socorro mútuo, oficinas e casas de família.
No Rio Grande do Sul, o primeiro semanário italiano foi L’Italiano, de Cesare Pelli, publicado em 1890. Em Porto Alegre, o pioneiro foi Il Corriere Cattolico, de 1891.
O levantamento de Angelo Trento dimensiona a força desse universo: entre 1854 e 1975, circularam no Brasil 834 títulos italianos. Mais de dois terços surgiram entre 1880 e 1920, no auge da imigração, e pouco mais de 70% circularam no estado de São Paulo.
Era jornal demais para ser apenas nostalgia.
A imprensa italiana no Brasil era política, comunitária, identitária e, muitas vezes, combativa.
O reconhecimento que virou tiragem
A força do Fanfulla apareceu nos números.
A tiragem chegou a cerca de 20 mil exemplares em 1915 e a 40 mil em 1934. Naquele momento, o jornal era apontado como o segundo maior de São Paulo, atrás apenas de O Estado de S. Paulo.
Para um periódico em língua estrangeira, era um feito extraordinário.
A explicação está no lugar que o Fanfulla ocupava na vida dos imigrantes. Ele não era apenas lido. Era usado. Servia para procurar trabalho, anunciar serviços, acompanhar decisões políticas, divulgar eventos, defender causas, convocar reuniões e organizar a vida comunitária.
Foi nas páginas do Fanfulla que, em 1914, um grupo de italianos convocou interessados em criar um clube de futebol que representasse a colônia.
O jornalista Vincenzo Ragognetti publicou o chamado para formar uma agremiação esportiva com “a representatividade que a imensa comunidade merecia”.
Nascia ali o Palestra Italia, fundado oficialmente em 26 de agosto de 1914. Décadas depois, por imposição do contexto político da Segunda Guerra Mundial, o clube mudaria de nome e passaria a se chamar Palmeiras.
A página incômoda: o fascismo
A trajetória do Fanfulla não cabe em versão romantizada.
Nas décadas de 1920 e 1930, sob nova direção e em um contexto de forte influência do regime de Benito Mussolini sobre comunidades italianas no exterior, o jornal tornou-se um dos principais veículos de propaganda fascista no Brasil.
A historiadora Teresa Malatian é direta ao afirmar que o Fanfulla passou a apoiar o fascismo e se tornou “um dos principais divulgadores no Brasil” dessa ideologia, favorecido por sua ampla circulação na capital paulista e no interior do estado.
Esse ponto é fundamental.
O mesmo jornal que ajudou a organizar a vida dos imigrantes e a construir uma identidade italiana comum também foi usado, em outro momento, como instrumento de propaganda política autoritária.
A história do Fanfulla é grande, mas não é limpa. E justamente por isso é historicamente relevante.
O silêncio da guerra e o retorno
Em janeiro de 1942, o Fanfulla deixou de circular. Naquele mês, o Brasil rompeu relações diplomáticas com os países do Eixo, em plena Segunda Guerra Mundial. A partir dali, a imprensa em língua italiana enfrentou censura, restrições e um ambiente político hostil.
O jornal voltou às bancas em 1947, já em outro mundo.
A Itália era uma república. O fascismo havia caído. A comunidade italiana no Brasil já não era a mesma. Muitos descendentes falavam português como primeira língua, estavam integrados à sociedade brasileira e viam a Itália mais como memória familiar do que como referência política cotidiana.
Mesmo assim, o Fanfulla sobreviveu.
Mudou de formato, tornou-se semanal, depois quinzenal, ganhou cores e presença digital. Ao longo dessa trajetória, passou a reivindicar a continuidade de uma história centenária sob a fórmula “o jornal dos italianos no Brasil desde 1893”.
Uma comunidade impressa em papel
O Fanfulla começou como brincadeira, virou tribuna e terminou como memória.
Seu legado não está apenas nas edições antigas, nas manchetes, nas polêmicas ou nos anúncios. Está no papel que desempenhou na formação de uma comunidade.
Para milhares de imigrantes, o jornal foi uma ponte entre a terra de origem e o país de chegada. Para seus filhos e netos, tornou-se vestígio de um tempo em que ser italiano no Brasil ainda era uma construção diária.
O Fanfulla não apenas registrou a colônia italiana.
Também ajudou a fabricá-la.





































Maria Alice FURLAN
28 de junho de 2026 at 11:53
Goatei muito desse informativo todo!
Como não sou dessa época, eu nada sabia pois como sou o último ramo da minha árvore genealógica, era muito criança na época… sou de 1945.
Parece-me que meus avós vieram nas primeiras imigrações!