Foi de uma catedral na Calábria que tudo começou. No início do século XX, imigrantes de Rossano desembarcaram em São Paulo trazendo na bagagem pouco mais que a fé em Nossa Senhora Achiropita. Instalaram-se no Bixiga e, ali, ergueram uma das comunidades italianas mais vivas das Américas.
Cem anos depois, esse laço caminha para o papel. Um projeto de gemellaggio (cidades-irmãs) ganha novo impulso entre Corigliano-Rossano, no sul da Itália, e o bairro paulistano. O gemellaggio, ou acordo de irmanação, firma cooperação cultural, educacional, esportiva e econômica de forma permanente entre dois territórios.
A ideia de aproximar oficialmente as duas comunidades foi proposta em 2016 pelo senador Ernesto Rapani e ganhou contornos institucionais em janeiro de 2025. Agora, o projeto avança de forma concreta nos dois lados do Atlântico.
O momento é simbólico. Em 2026 a Festa de Nossa Senhora Achiropita completa cem anos. A maior festa italiana do Brasil foi reconhecida pelo governo federal como Manifestação da Cultura Nacional pela Lei 14.829/2024.
A devoção tem origem na Catedral de Rossano, na Calábria, de onde os calabreses trouxeram sua fé. Hoje, a festa recebe entre 250.000 e 300.000 pessoas ao longo de agosto, com mais de 1.200 voluntários, e toda a renda vai para projetos sociais da paróquia.
O movimento em curso
Do lado italiano, o gemelágio é coordenado pelo sindaco Flavio Stasi e pelo dirigente Giovanni Soda, apoiados pelo servidor do comune Serafino Caruso e equipe. O processo amadureceu por anos e hoje tem apoio da comunidade nos dois territórios.
O projeto já está em fase organizativa para a ida de oito jovens paulistanos a Corigliano-Rossano, ainda no segundo semestre de 2026. Eles visitarão a Catedral de Nossa Senhora Achiropita em Rossano, o Codex Purpureus Rossanensis, o Castello di Corigliano, os centros históricos das duas cidades, a produção de azeite e a histórica fábrica de liquirizia (alcaçuz) Amarelli. Também terão aulas de italiano e conhecerão a gastronomia local.
Quem está construindo essa ponte
Em Rossano, o projeto conta com brasileiros que desenvolvem trabalho junto à população local. Adelmo Pereira, ex-jogador de futebol, conduz formação com crianças e ações de integração com a comunidade ítalo-brasileira. Priscila Pereira atua com mulheres e com a comunidade local.
Andrea Pirillo, paulistana de origem rossanese, trabalha como mediadora cultural entre os dois países. Ativa entre as mulheres brasileiras na Itália, auxilia o projeto com língua e cultura e aproxima pessoas e instituições interessadas em fortalecer o laço entre Rossano e o Bixiga.
Um século no mesmo abraço
O gemelágio entre Corigliano-Rossano e o Bixiga não nasce do zero. Nasce do trabalho de quem manteve a festa de pé por cem anos: os mais de 1.200 voluntários que se revezam a cada agosto, as famílias que passaram a devoção de geração em geração, a renda que volta inteira para os projetos sociais da paróquia.
É essa comunidade, construída no dialeto, na cozinha e na rua, que agora vê o próprio bairro reconhecido do outro lado do Atlântico. Formalizar o laço no ano do centenário da Achiropita devolve a Rossano parte do que partiu de lá faz um século.




































