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Todos os italianos são iguais, diz Tajani. Mas quais italianos, exatamente?

Em 2026, chanceler diz que a Farnesina atende todos os compatriotas da mesma forma. Em 2025, decreto apresentado por ele classificou o crescimento de cidadãos no exterior sem vínculos com a Itália como “risco sério e atual para a segurança nacional”.

Antonio Tajani, vice-premiê e ministro das Relações Exteriores da Itália, durante compromisso oficial da Farnesina | Foto: AP Photo
Antonio Tajani, vice-premiê e ministro das Relações Exteriores da Itália, durante compromisso oficial da Farnesina | Foto: AP Photo

Antonio Tajani garante que todos os italianos são iguais perante a Farnesina.

Nesta terça-feira, 1º de setembro, o vice-premiê e ministro das Relações Exteriores afirmou que todos os cidadãos italianos no exterior recebem assistência “com o mesmo espírito”, sejam eles figuras públicas ou pessoas desconhecidas.

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“Todos foram assistidos com o mesmo espírito, a mesma disponibilidade e a mesma vontade de auxiliar nossos compatriotas”, disse Tajani ao apresentar um balanço das operações realizadas pelo ministério durante o verão europeu.

A igualdade é um princípio reconfortante.

A dúvida é outra: quem, para Tajani, entra nessa categoria de italiano?

Porque, pouco mais de um ano antes, o mesmo governo, com o mesmo ministro das Relações Exteriores, apresentou um decreto emergencial para restringir drasticamente o reconhecimento da cidadania italiana por descendência.

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E a justificativa oficial não falava apenas em burocracia, filas nos consulados ou comércio de passaportes. Falava em segurança nacional.

De compatriotas a “risco sério e atual”

O Decreto-Lei nº 36, de 28 de março de 2025, foi apresentado pela premiê Giorgia Meloni, por Tajani e pelo ministro do Interior, Matteo Piantedosi, com participação dos ministros Carlo Nordio e Giancarlo Giorgetti.

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No preâmbulo, o governo argumentou que o modelo anterior provocava um crescimento “contínuo e exponencial” do número de potenciais cidadãos italianos residentes fora do país.

O texto acrescentava que essas pessoas, inclusive por possuírem outras nacionalidades, estariam “prevalentemente ligadas a outros Estados” por vínculos profundos de “cultura, identidade e fidelidade”.

Em seguida vinha a justificativa mais pesada.

Segundo o decreto, a possível ausência de vínculos efetivos com a Itália entre um número crescente de cidadãos, que poderia chegar a uma quantidade igual ou superior à população residente no país, constituía um “fator de risco sério e atual para a segurança nacional”.

Não é interpretação de opositor.

Não é frase de advogado especializado em cidadania.

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Não é manchete de jornal.

Está no decreto do governo.

E o próprio Comitê para a Legislação do Senado registrou posteriormente que o Executivo enquadrou a norma entre aquelas que afetavam diretamente “interesses fundamentais em matéria de segurança interna e externa do Estado”.

Todos iguais. Depois da triagem

É por isso que a declaração de Tajani em 2026 ganha um sabor particular.

Todos os italianos recebem o mesmo tratamento, diz ele.

Perfeito.

Mas antes é preciso passar pela pergunta que seu próprio decreto tornou muito mais difícil: quem é italiano?

O filho de italiano?

O neto?

O bisneto que fala italiano, mantém vínculos com o país e tem parentes na Itália?

O descendente cujo antepassado saiu da Itália há cem anos?

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Ou somente aqueles que o Estado considera suficientemente ligados à República para não representar o tal “risco sério e atual”?

Em outras palavras: existem italianos e italianos?

Ou, para usar uma provocação que o próprio contraste permite, estaríamos diante de italianos de “puro-sangue” administrativo?

A expressão não é de Tajani. É uma ironia.

Mas a classificação entre cidadãos desejáveis, cidadãos “efetivamente ligados” e potenciais cidadãos tratados pelo próprio Estado como questão de segurança foi criada pelo governo que ele integra.

Os “italianos de verdade”

Tajani já havia oferecido outra pista sobre essa divisão.

Em entrevista publicada logo após o decreto, ele afirmou que os cidadãos nascidos e residentes no exterior deveriam demonstrar periodicamente vínculos reais com a Itália. Para explicar a proposta, chegou a diferenciar aqueles que comprovariam ser italianos dos “finto-italiani”, os “italianos de mentira”.

Na mesma ofensiva política, o ministro dizia que era necessário impedir abusos e a “comercialização” dos passaportes e insistia que “a cidadania deve ser uma coisa séria”.

O combate a fraudes é legítimo.

O problema é quando milhões de descendentes passam, no texto oficial de uma medida emergencial, da condição de possíveis cidadãos à de variável de segurança nacional.

E a soberania?

O decreto também afirma que as restrições eram necessárias para realizar um “balanceamento” entre os princípios dos artigos 1º e 3º da Constituição italiana.

Não é um detalhe.

O artigo 1º determina que “a soberania pertence ao povo”. O artigo 3º estabelece a igualdade dos cidadãos perante a lei.

Assim, ainda que o decreto não escreva literalmente que os ítalo-descendentes são uma “ameaça à soberania”, ele coloca o tamanho da população potencial de cidadãos no exterior dentro de uma argumentação que envolve soberania popular, igualdade e segurança nacional.

Um ano depois, Tajani assegura que todos são simplesmente “nossos compatriotas”.

Talvez sejam.

Desde que tenham conseguido ultrapassar a definição de compatriota criada pelo próprio governo.

Porque, para a Farnesina de 2026, todos os italianos parecem iguais.

Para a Farnesina de 2025, alguns deles eram um “risco sério e atual para a segurança nacional”.

E aí permanece a pergunta incômoda: quando Tajani fala em “todos os italianos”, de quais italianos está falando?

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1 Comentário

1 Comentário

  1. João Roberto Di Napoli

    O Tajani é a personificação da contradição, da ambiguidade, seus comentários são esdrúxulos!

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