Portugal ganhou espaço na estratégia do Sebrae para levar micro e pequenas empresas brasileiras ao mercado europeu. A aposta combina preparação dos empreendedores ainda no Brasil, apoio da ApexBrasil no exterior e participação em eventos internacionais realizados em Lisboa, como o Web Summit.
O presidente do Sebrae Nacional, Rodrigo Soares, afirmou ao PÚBLICO Brasil que Portugal funciona como uma plataforma para empresas brasileiras que pretendem avançar sobre outros países europeus. Além da proximidade linguística e cultural, Lisboa consolidou-se como um polo de tecnologia, inovação e negócios internacionais.
A divisão de tarefas ocorre em parceria com a ApexBrasil. Segundo Soares, o Sebrae concentra a preparação e qualificação das empresas no Brasil, enquanto a agência atua na conexão com mercados externos, compradores, investidores e parceiros.
A ApexBrasil mantém escritório em Lisboa e inclui a capital portuguesa entre suas bases internacionais. A agência também organiza, em parceria com o Sebrae Startups, a missão brasileira ao Web Summit Lisboa 2026, marcado para ocorrer de 9 a 12 de novembro. A iniciativa busca aproximar startups e ambientes de inovação brasileiros de investidores e empresas estrangeiras.
Pequenos já são quase 40% dos exportadores
O avanço dos pequenos negócios no comércio exterior brasileiro ajuda a explicar a estratégia.
Dados divulgados pelo Sebrae mostram que, em 2025, o Brasil tinha 29.818 empresas exportadoras. Desse total, 11.822 eram micro e pequenos negócios, praticamente 40% das empresas que venderam produtos ao exterior. Juntas, elas movimentaram US$ 2,6 bilhões em exportações.
A proporção se refere ao número de empresas exportadoras, e não à participação dos pequenos negócios no valor total das exportações brasileiras.
Em 2015, os empreendimentos de pequeno porte representavam 30,1% das empresas exportadoras. A expansão ao longo da última década indica uma presença crescente das pequenas empresas brasileiras nas cadeias internacionais.
Na entrevista ao PÚBLICO Brasil, Soares disse que a entrada no mercado externo não ocorre apenas pela venda direta. Pequenas empresas também podem participar como fornecedoras de produtos, componentes e serviços para companhias maiores integradas às cadeias globais.
A preparação envolve temas como formação de preços, adequação às exigências do país de destino, logística e planejamento da exportação. Entre os instrumentos disponíveis está o Programa de Qualificação para Exportação, o PEIEX, oferecido pela ApexBrasil a empresas que pretendem começar a atuar no mercado internacional.
Portugal como ponte para outros mercados
A estratégia não considera Portugal apenas como destino final dos produtos brasileiros.
A intenção é aproveitar a presença em Lisboa para estabelecer contatos comerciais e posteriormente alcançar outros países da União Europeia. Tecnologia e inovação estão entre os setores mais visíveis dessa aproximação, mas as oportunidades também envolvem alimentos, moda, economia criativa, produtos sustentáveis e outros segmentos.
O Web Summit tornou-se uma das vitrines desse movimento. Para a edição de 2026, a ApexBrasil abriu espaço para ambientes de inovação brasileiros levarem startups ao Pavilhão Brasileiro do evento.
A presença física da ApexBrasil em Lisboa também permite que empresas tenham suporte depois da etapa de preparação realizada no Brasil.
Acordo Mercosul-UE amplia mercado
Outro fator que ganhou peso neste ano é o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia.
Os dois blocos assinaram, em 17 de janeiro de 2026, o Acordo de Parceria e um acordo comercial provisório. Segundo a Comissão Europeia, a parte comercial passou a ser aplicada provisoriamente em 1º de maio de 2026, enquanto o acordo de parceria mais amplo ainda depende da conclusão do processo de ratificação.
O mercado conjunto reúne cerca de 720 milhões de pessoas, segundo o governo brasileiro, e um PIB combinado superior a US$ 22 trilhões.
Alguns efeitos começaram a aparecer já nos primeiros meses. Em maio, uma carga de uvas do Vale do São Francisco, em Pernambuco, foi destinada ao mercado europeu com tarifa zero sob as novas regras. O Ministério da Agricultura informou que o embarque saiu de Petrolina com destino ao Porto de Suape antes de seguir para a Europa.
Para Sebrae e ApexBrasil, a redução de barreiras pode ampliar o espaço não apenas para grandes exportadores, mas também para produtores, cooperativas, startups e pequenas empresas capazes de cumprir as exigências do mercado europeu.
Nesse cenário, Portugal passa a ocupar uma posição dupla: mercado consumidor e, principalmente, base de entrada para negócios brasileiros interessados em ampliar sua presença na União Europeia.
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