Nem todo sobrenome italiano termina em Ferrari, Bianchi ou Bellini. Alguns parecem tão familiares aos brasileiros que dificilmente despertam uma suspeita de origem italiana.
Costa é um deles. Bruno também. Greco, Romano e Marino completam uma lista de sobrenomes plenamente presentes na tradição italiana, embora nenhum deles, isoladamente, prove que uma família tenha vindo da Itália.
A explicação está na própria história dos nomes de família. Um sobrenome pode existir em mais de um país e ter origens diferentes. E, no caso dos milhões de italianos que emigraram, a história ganhou uma complicação adicional: muitos nomes chegaram ao Brasil com uma grafia e reapareceram nos documentos com outra.
Às vezes, a mudança foi tão grande que o sobrenome italiano praticamente desapareceu.
Costa também é sobrenome italiano
Para um brasileiro, Costa costuma remeter imediatamente a Portugal. E há boas razões para isso. O sobrenome é fortemente associado à tradição portuguesa.
Mas Costa também pertence ao repertório histórico dos sobrenomes italianos.
O linguista Enzo Caffarelli, um dos principais especialistas italianos em onomástica, inclui Costa entre os sobrenomes formados a partir de lugares de residência ou de trabalho, ao lado de nomes como Fontana e Villa. Caffarelli é fundador da Rivista Italiana di Onomastica e coautor, com Carla Marcato, do I cognomi d’Italia. Dizionario storico ed etimologico.
Isso não significa que todo Costa brasileiro tenha origem italiana. O sobrenome sozinho não permite determinar a nacionalidade de uma linhagem. A resposta depende da documentação de cada família.
É justamente aí que mora a surpresa.
Bruno, Marino e Romano estão entre os mais frequentes
Outros sobrenomes que podem passar despercebidos no Brasil ocupam posições importantes na Itália.
Em estudo publicado pela Treccani, Caffarelli coloca Romano na 5ª posição entre os sobrenomes italianos, Marino na 7ª e Bruno na 10ª.
E os significados nem sempre são tão simples quanto parecem.
Romano pode estar relacionado a Roma, mas também deriva de nome pessoal. Marino pode ter origem no nome próprio ou em um adjetivo ligado ao mar. Bruno pode derivar tanto do adjetivo associado à cor escura quanto do nome pessoal que se formou a partir dele.
Em outras palavras, dois portadores do mesmo sobrenome não necessariamente compartilham exatamente a mesma origem etimológica.
Essa é uma das características que tornam a pesquisa genealógica mais complexa.
E Greco não significa necessariamente “veio da Grécia”
Greco é outro caso emblemático.
A palavra significa “grego”, mas transformar isso automaticamente em uma origem familiar na Grécia seria um erro.
Ao analisar os sobrenomes da Calabria, Caffarelli observa que Greco está, ao lado de Romeo e Russo, entre os sobrenomes de maior difusão na região. Historicamente, o nome podia indicar proveniência grega, mas também ligação com a Igreja de rito bizantino.
Em outro estudo, o pesquisador ressalta que sobrenomes derivados de povos ou regiões nem sempre indicavam literalmente a procedência de quem os recebeu. Greco e Lombardo, por exemplo, também adquiriram outros sentidos e usos ao longo dos séculos.
É uma regra importante para quem pesquisa antepassados: sobrenome é pista, não certidão de origem.
Quando o sobrenome italiano mudou no Brasil
Há ainda um segundo grupo, muito mais difícil de reconhecer: os sobrenomes italianos cuja grafia foi alterada no Brasil.
O Arquivo Público do Estado do Espírito Santo, responsável por uma extensa base de dados sobre imigração, alerta que muitos sobrenomes aparecem nos documentos brasileiros com grafias diferentes das formas registradas no país de origem.
O próprio órgão orienta os pesquisadores a procurar variantes porque, ao longo de mais de um século, nomes foram registrados de maneiras diferentes nos documentos.
Os exemplos são impressionantes.
- Cecchetto → Cequeto ou Quequeto
- Falchetto → Falqueto
- Bacchini → Baquini
- Giardini → Jardini
- Compagnone → Companhone
No caso de Cecchetto e Falchetto, a combinação italiana “che” passou a ser representada por “que”, mais intuitivo para reproduzir aquele som em português.
Giardini virou Jardini porque o som inicial de “gi” foi adaptado ao “j” português.
Compagnone tornou-se Companhone pela aproximação entre o grupo italiano “gn” e o “nh” do português.
O banco de dados capixaba registra muitas outras transformações do tipo.
Até a primeira letra podia desaparecer
Algumas mudanças foram ainda mais profundas.
O Arquivo Público do Espírito Santo cita o sobrenome italiano Zoppelletto, registrado posteriormente como Supeleto. Nesse caso, até a inicial mudou.
Há também exemplos como:
- D’Agostini → Dagostini ou Deagostini
- D’Aiello → Daielo
- De Lazzari → Delazari
- Da Dalt → Dadalto
São diferenças aparentemente pequenas, mas suficientes para fazer um pesquisador acreditar que determinada pessoa simplesmente não existe nos arquivos.
Bianco pode virar Branco?
A tradução completa do sobrenome também aparece em materiais de genealogia.
O FamilySearch cita Bianco → Branco como exemplo de adaptação ocorrida com famílias italianas no Brasil. Também menciona outros casos de aportuguesamento.
A cautela, mais uma vez, é essencial.
Encontrar uma família Branco não significa que o sobrenome original fosse Bianco. Branco já existe como sobrenome em outras tradições familiares.
Para afirmar que houve uma tradução é necessário encontrar documentos que permitam acompanhar a mesma pessoa ou linhagem antes e depois da mudança.
Giuseppe virou José e Giovanni, João
Os prenomes também sofreram adaptações.
A própria base oficial do Espírito Santo orienta o pesquisador a considerar equivalências entre nomes italianos e portugueses.
- Giuseppe → José
- Giovanni → João
- Francesco → Francisco
- Domenico → Domingos
- Pietro → Pedro
- Vincenzo → Vicente
- Luigi → Luis
Para quem procura um antepassado nos registros italianos, essa informação pode ser decisiva. Um homem que aparece como José em documentos brasileiros pode ter sido registrado como Giuseppe na Itália.
Um sobrenome não conta a história inteira
Caffarelli chama atenção para outro aspecto importante da onomástica: o significado original de um sobrenome nem sempre descreve a pessoa que o carrega hoje.
Os sobrenomes nasceram de nomes de antepassados, lugares de origem, locais de residência, profissões, características físicas e apelidos. Com o passar dos séculos, porém, essa relação direta se perdeu.
Por isso, olhar apenas para a aparência do nome é insuficiente.
Um Costa pode ter ascendência portuguesa, italiana ou outra trajetória familiar. Um Greco não necessariamente descende de alguém nascido na Grécia. E um Cequeto encontrado numa certidão brasileira pode levar a um Cecchetto nos registros italianos.
Como descobrir a verdadeira origem
O caminho mais seguro é reconstruir a família geração por geração.
Certidões de nascimento, casamento e óbito, registros paroquiais, listas de passageiros e documentos de imigração permitem acompanhar as alterações do nome ao longo do tempo.
Também é recomendável pesquisar variações fonéticas e ortográficas. O Arquivo Público do Espírito Santo, por exemplo, orienta expressamente que uma busca genealógica considere diferentes formas do mesmo sobrenome.
O sobrenome pode ser a primeira pista.
Mas são os documentos que contam a história.
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