O vice-premiê e ministro das Relações Exteriores da Itália, Antonio Tajani, fez nesta quinta-feira (10), durante sua passagem pelo Brasil, uma das declarações mais duras desde a aprovação da reforma que restringiu o reconhecimento da cidadania italiana por descendência.
Questionado por Diego Mezzogiorno, correspondente do Times Brasil e Class CNBC Itália, sobre a possibilidade de rever as restrições impostas aos descendentes, Tajani descartou qualquer abertura.
“Se alguém se sentia italiano, poderia ter feito antes”, afirmou.
A pergunta tocou justamente em um tema que havia sido evitado durante a missão oficial.
Segundo apuração do Italianismo, havia orientação aos jornalistas presentes para que a questão da cidadania italiana não fosse abordada durante os compromissos de Tajani no Brasil. Mezzogiorno, no entanto, decidiu colocar o assunto diretamente ao vice-premiê.
O questionamento expôs o contraste entre o discurso de aproximação com a comunidade ítalo-brasileira e a reforma que limitou o acesso à cidadania por descendência. A pergunta trouxe incômodo ao vice-primeiro-ministro, que respondeu em tom duro e passou a defender a nova legislação.
De “embaixadores” a “poderia ter feito antes”
O episódio ocorreu apenas um dia depois de Tajani exaltar, em São Paulo, o papel dos italianos e ítalo-descendentes que vivem no Brasil.
Na quarta-feira (9), durante encontro com a comunidade italiana, o ministro afirmou que quem possui dupla cidadania atua como representante da Itália no exterior.
“Cada um que tem dupla cidadania é embaixador do país”, disse Tajani.
Menos de 24 horas depois, Mezzogiorno questionou diretamente o ministro sobre a aparente incoerência entre chamar os ítalo-descendentes de “embaixadores” e ter promovido uma legislação que restringiu o reconhecimento da cidadania.
O jornalista perguntou ainda se, diante da realidade encontrada no Brasil, o governo poderia elaborar outra lei, com critérios mais rigorosos, mas capaz de permitir o reconhecimento daqueles que demonstrassem vínculo efetivo com a Itália.
Tajani rejeitou a possibilidade.
“A nossa lei é uma lei que busca defender a italianidade, busca defender a seriedade de ser cidadão italiano. Ser cidadão italiano significa acreditar na nossa língua, acreditar nos valores, acreditar na identidade italiana”, respondeu.
Em seguida, o ministro voltou a associar parte da procura pela cidadania ao interesse pelas vantagens proporcionadas pelo passaporte europeu.
“Se o passaporte italiano deve servir apenas para ir passar férias em Miami e fazer compras em Miami, não é um bom sinal que nós damos.”
“Ame a própria pátria e não o business em Miami”
Tajani prosseguiu dizendo que o governo pretende assegurar que os novos cidadãos tenham um vínculo concreto com o país.
“Nós queremos que quem obtém a cidadania italiana se sinta italiano, ame a própria pátria e não ame o business em Miami.”
Mezzogiorno insistiu e perguntou se poderia haver uma nova lei destinada justamente às pessoas que desejam ser “efetivamente italianas”.
“Para quem quer ser efetivamente italiano existe a lei, que é uma lei análoga às que existem em todos os países do mundo”, respondeu Tajani.
O jornalista então levantou o caso dos descendentes que ficaram além do limite imposto pela reforma, como os bisnetos de italianos.
Foi nesse momento que Tajani deu a declaração mais contundente.
“Se alguém se sentia italiano, poderia ter feito antes, porque a italianidade foi abandonada por gerações, então significa que não havia interesse em ser italiano.”
A afirmação atinge diretamente descendentes que, apesar de manterem vínculos familiares e culturais com a Itália, não haviam solicitado formalmente o reconhecimento da cidadania antes da mudança da lei.
Tajani volta a atacar “Black Friday” da cidadania
O vice-premiê retomou ainda um argumento que vem utilizando desde que o governo apresentou a reforma, em março de 2025: a existência de empresas que transformaram processos de cidadania em atividade comercial.
“Esse interesse explodiu quando houve as Black Fridays destinadas à aquisição da cidadania italiana”, declarou.
A referência é a campanhas promocionais realizadas por empresas que oferecem serviços relacionados ao reconhecimento da cidadania. O governo italiano utiliza esses casos para sustentar que o sistema anterior teria favorecido uma espécie de mercado de cidadanias.
Tajani encerrou a resposta sem deixar margem para uma possível revisão da posição do governo.
“A cidadania italiana é uma coisa séria, ser italiano é uma coisa séria, e isso demonstram todos os italianos que trabalham aqui. A questão está encerrada.”
Reforma restringiu o iure sanguinis
As novas restrições começaram com o Decreto-Lei nº 36, de 28 de março de 2025, posteriormente convertido, com modificações, na Lei nº 74, de 23 de maio de 2025.
A reforma alterou profundamente o reconhecimento da cidadania italiana iure sanguinis para pessoas nascidas no exterior e que possuem outra nacionalidade.
Antes da mudança, não existia um limite geracional geral para a transmissão da cidadania por descendência, desde que fosse possível demonstrar a continuidade jurídica da transmissão ao longo da linha familiar.
Com as novas regras, a existência de um antepassado italiano distante já não é suficiente, por si só, para garantir o reconhecimento.
Entre as hipóteses previstas na legislação estão situações envolvendo pai, mãe, avô ou avó que possuíam exclusivamente a cidadania italiana, além de determinados casos relacionados à residência dos pais na Itália.
A reforma atingiu especialmente países como Brasil e Argentina, onde milhões de pessoas descendem da imigração italiana ocorrida principalmente entre o fim do século 19 e as primeiras décadas do século 20.
32 milhões de descendentes no Brasil
A dureza das declarações também contrasta com o discurso institucional adotado pelo próprio governo italiano durante a viagem.
A Farnesina estima que cerca de 32 milhões de brasileiros tenham origem italiana, formando a maior comunidade de descendentes de italianos do mundo.
Na visita, Tajani destacou repetidamente esses vínculos históricos, familiares, culturais e econômicos como um patrimônio para as relações entre Brasil e Itália.
Mas, quando questionado diretamente sobre a possibilidade de transformar esse vínculo em uma nova oportunidade jurídica para os descendentes excluídos pela reforma, a resposta foi categórica.
Para Tajani, quem desejava ser reconhecido como italiano “poderia ter feito antes”.
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