“Me parece que não vejo vocês há 100 anos.”
Quem escreveu a frase estava longe da família havia apenas 16 meses.
Descubra se existe um caminho para o seu caso.
QUERO ANALISAR MEU CASOA passagem aparece em uma carta enviada do Brasil em 1910 por um imigrante italiano aos pais. Ele esperava ansiosamente receber uma fotografia da família e tentava explicar, no papel, o que a distância fazia com a percepção do tempo.
A carta sobreviveu.
Mais de um século depois, ainda permite ouvir a voz de alguém que atravessou o Atlântico numa época em que falar com quem havia ficado na Itália dependia de papel, tinta, navios e semanas de espera.
É a partir de documentos como esse que o Italianismo estreia “Cartas da América”, série dominical dedicada às correspondências enviadas por imigrantes italianos que viviam no Brasil a pais, mulheres, filhos, irmãos e amigos que permaneceram na Itália.
A primeira história será publicada neste domingo, 06 de setembro.
A imigração contada por quem estava vivendo
A história da imigração italiana para o Brasil costuma ser reconstruída por números, registros de desembarque, documentos de hospedarias, certidões e fotografias.
A decisão da Corte Constitucional mudou o cenário. A nova lei da cidadania agora será analisada pela Justiça da União Europeia.
As cartas mostram algo diferente: a experiência narrada por quem a vivia.
Nelas aparecem o trabalho, a dificuldade para encontrar emprego, a comida, as doenças, a saudade, os conflitos familiares, as notícias dos filhos, o medo da travessia e as expectativas de quem ainda pensava em trazer o restante da família para o Brasil.
Há também fracassos.
Nem todos os italianos encontraram a prosperidade que imaginavam antes de embarcar.
Alguns escreviam para convencer parentes a vir. Outros faziam exatamente o contrário e alertavam que a vida do outro lado do Atlântico não correspondia ao que se contava nos vilarejos italianos.
As cartas permitem acompanhar essas histórias enquanto elas aconteciam, sem o filtro da memória reconstruída décadas depois.
Mais de 10 mil cartas em uma única coleção
Uma das fontes utilizadas pela série será a Fondazione Paolo Cresci per la storia dell’emigrazione italiana, de Lucca.
Seu arquivo reúne epistolários, cartões-postais, fotografias, periódicos, documentos e objetos pessoais relacionados à emigração italiana, sobretudo entre os séculos 19 e 20.
Somente a coleção de correspondências reúne mais de 10 mil peças, ainda não totalmente transcritas. São cartas que abrangem um período entre meados do século 19 e a década de 1960 e chegaram de diferentes continentes, inclusive do Brasil.
Esses textos têm uma característica que o Italianismo pretende preservar.
Muitos de seus autores tiveram pouca escolaridade. Escreviam como falavam.
Misturavam italiano, dialeto e, depois de algum tempo no exterior, palavras e construções aprendidas no novo país. A ortografia e a pontuação frequentemente seguiam regras próprias.
Para aquelas pessoas, a preocupação principal não era escrever corretamente. Era fazer a mensagem chegar.
“Venham para o Brasil”
Entre as cartas preservadas pela coleção Cresci está a de um emigrante de Lucca que, em 1913, tentava convencer o próprio pai a atravessar o Atlântico.
O pai tinha medo do oceano.
O filho dizia que ele poderia ir ao Brasil depois da colheita das castanhas.
O mar aparecia na carta como “crande luciano”, forma escrita que remetia ao “grande oceano”, quase um obstáculo físico entre dois mundos.
Em outra correspondência, enviada do Brasil em 1897, um homem escrevia pela sexta vez à mulher por quem estava apaixonado.
Não sabia se as cartas anteriores tinham chegado. Também não sabia se ela ainda pensava nele.

São histórias pequenas quando comparadas aos grandes acontecimentos políticos e econômicos daquele período.
Para as famílias envolvidas, porém, eram a história inteira.
Documentos que permaneceram nas gavetas
Outro acervo fundamental para a série é o Archivio Diaristico Nazionale, de Pieve Santo Stefano, na Toscana.
Criado em 1984, o arquivo reúne diários, cartas e memórias de pessoas comuns.
O projeto digital “Italiani all’estero, I diari raccontano” selecionou, em sua primeira etapa, 200 histórias de vida entre mais de mil testemunhos relacionados à emigração.
Dessas histórias foram escolhidas, em média, cinco páginas de cada documento, dando origem a cerca de mil relatos na estreia da plataforma.
As páginas foram digitalizadas a partir dos documentos originais, transcritas, contextualizadas, datadas, geolocalizadas e indexadas. O projeto credita as fotografias a Luigi Burroni.
Há um detalhe especialmente importante para “Cartas da América”.
Sempre que o acervo e os direitos de reprodução permitirem, o leitor do Italianismo poderá ver não apenas o que estava escrito. Poderá ver a própria carta.

O papel, a caligrafia, as correções, as assinaturas e, em alguns casos, os envelopes que atravessaram o oceano.
Do Brasil para quem ficou na Itália
A primeira temporada de “Cartas da América” terá como foco as correspondências relacionadas à imigração italiana no Brasil.
Há cartas escritas em São Paulo, no interior paulista e em outras regiões brasileiras.
Algumas foram enviadas poucas semanas depois da chegada. Outras surgiram anos depois da separação.
Há pais que nunca conheceram os filhos. Maridos e mulheres separados pelo Atlântico. Filhos pedindo notícias dos pais.
Italianos descrevendo o trabalho nas fazendas de café. Imigrantes celebrando a nova vida.
E outros reconhecendo que o sonho americano não havia saído como imaginavam.
A intenção do Italianismo é recuperar essas correspondências sem transformar seus autores em personagens de ficção.
Quando houver transcrição integral disponível, ela será apresentada preservando as particularidades do documento original e acompanhada de tradução para o português.
A história de cada remetente também será reconstruída sempre que os arquivos permitirem descobrir quem escreveu, quem recebeu a carta e o que aconteceu depois.
A primeira carta
A primeira carta
A estreia será com Diletto Manzini.
Nascido em Pelago, na província de Florença, Diletto partiu para o Brasil em 1889 e deixou na Toscana a filha Urania, então com cerca de 12 anos.
Durante os anos seguintes, escreveu do Brasil contando sobre a travessia, o trabalho, as doenças, a vida nas fazendas e os planos de reunir novamente a família.
Em várias cartas, aparece a preocupação com o futuro da filha e o desejo de trazê-la para o Brasil.
O reencontro, porém, nunca aconteceu.
Diletto morreu no Brasil sem voltar a ver Urania.
No próximo domingo, a série traz Antonio Ghinato, que deixou a mulher grávida na Itália, passou oito anos sem dar notícias e reapareceu em 1916 com uma carta enviada de São Paulo.
Sobre Cartas da América
“Cartas da América” é uma série especial do Italianismo sobre as correspondências deixadas pelos protagonistas da imigração italiana no Brasil.
Novas histórias serão publicadas aos domingos, a partir de documentos preservados em arquivos históricos e coleções familiares no Brasil e na Itália.
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