Antonio Tajani voltou ao Brasil com uma prioridade clara: ampliar a presença econômica italiana.
O vice-primeiro-ministro e ministro das Relações Exteriores da Itália desembarcou em São Paulo à frente de uma delegação com mais de 100 empresas. O governo italiano classificou o Brasil como um dos mercados prioritários de sua estratégia de exportações e colocou no centro da visita temas como investimentos, comércio, indústria e expansão do Made in Italy.
Para a comunidade italiana, porém, os anúncios concretos foram bem mais escassos.
Tajani exaltou os italianos e descendentes no Brasil, chamou São Paulo de “a maior cidade italiana do mundo” e afirmou que a tarefa do governo é não deixar os cidadãos no exterior se sentirem sozinhos.
Mas sua passagem por São Paulo não trouxe, até agora, medidas novas para problemas que afetam diretamente milhares de famílias: dificuldade para conseguir agendamento de passaporte, alta demanda diante da estrutura dos consulados e incertezas provocadas pelas mudanças recentes nas regras de cidadania, incluindo os procedimentos relativos a filhos menores.
Negócios no centro da visita
A ênfase econômica não é novidade.
Esta é a terceira visita de Tajani ao Brasil desde o início de seu mandato. A própria Farnesina afirma que a viagem faz parte da estratégia do governo para fortalecer a presença econômica italiana em mercados considerados de alto potencial.
A missão desta semana foi organizada com Confindustria, ICE, SACE e SIMEST e tem como objetivo declarado aumentar o intercâmbio comercial e as exportações italianas, aproveitando também as perspectivas abertas pelo acordo entre União Europeia e Mercosul.
Em São Paulo, Tajani anunciou ainda a criação de um grupo de trabalho entre Itália e Brasil para facilitar negócios, investimentos e relações entre empresas dos dois países.
Os números ajudam a explicar o interesse.
Segundo estimativas apresentadas durante a missão, as exportações italianas adicionais ao Mercosul poderiam alcançar cerca de € 14 bilhões na próxima década. A delegação que passou pelo Brasil reúne empresários de setores como energia, farmacêutico, agroindústria e indústria de transformação.
O Brasil aparece, assim, não apenas como parceiro diplomático, mas como um grande mercado consumidor para produtos e empresas italianas.
Um milhão de cidadãos, 32 milhões de descendentes
Ao falar da relação bilateral, Tajani costuma recorrer ao peso da presença italiana no Brasil.
Em artigo publicado no O Globo antes da visita, lembrou que cerca de 1 milhão de cidadãos italianos vivem no país e que aproximadamente 32 milhões de brasileiros têm origem italiana.
É justamente aí que surge o contraste.
A mesma comunidade apresentada como patrimônio estratégico nas relações entre os dois países convive com serviços consulares pressionados por uma demanda muito superior à capacidade de atendimento.
Em São Paulo, conseguir um horário para determinados serviços continua sendo uma das principais reclamações de cidadãos italianos. Passaporte, registros civis e procedimentos ligados à cidadania estão entre os temas mais sensíveis.
As mudanças na legislação sobre cidadania também ampliaram a insegurança de famílias com filhos menores, especialmente nos casos em que passou a ser necessário cumprir procedimentos específicos para aquisição por benefício de lei.
Carta com reclamações
Durante o encontro com representantes da comunidade, Tajani recebeu uma carta com críticas às mudanças na cidadania e pedidos de revisão das medidas adotadas pelo governo.
O documento foi entregue por integrantes do Comites de São Paulo, em caráter individual.
A carta levou diretamente ao chanceler a insatisfação de parte da comunidade ítalo-brasileira, justamente durante uma visita em que o governo italiano mobilizou uma grande estrutura para aproximar empresas e ampliar exportações. Tajani não teve reação.
“Não fazer vocês se sentirem sozinhos”
Em seu discurso à comunidade, Tajani afirmou que cada italiano ou descendente ligado às próprias raízes funciona como um embaixador da Itália.
Também declarou que cabe ao governo “não fazer vocês se sentirem sozinhos”.
A frase, porém, contrasta com a ausência de respostas concretas às demandas apresentadas durante a visita.
Enquanto o governo italiano levou ao Brasil uma delegação empresarial numerosa, instrumentos de crédito, promoção comercial e uma estratégia definida para aumentar a presença do Made in Italy, não apresentou pacote semelhante para enfrentar os gargalos consulares.
O padrão tampouco é novo. Nas visitas anteriores de Tajani ao país, a diplomacia econômica também ocupou posição central. O Brasil é tratado de forma recorrente como mercado estratégico para empresas italianas e como plataforma de expansão na América Latina.
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