“Mia cara Urania.”
Foi assim que Diletto Manzini começou algumas das cartas enviadas do Brasil para a filha que havia ficado na Itália.
Descubra se existe um caminho para o seu caso.
QUERO ANALISAR MEU CASOQuando atravessou o Atlântico, em 1889, Urania tinha 12 anos. Pai e filha não voltariam a se encontrar.
Diletto morreu no Brasil cerca de dez anos depois, sem realizar um projeto que reaparece em suas correspondências: trazer Urania para viver com ele.
A história abre neste domingo “Cartas da América”, nova série do Italianismo dedicada às cartas enviadas por imigrantes italianos que viviam no Brasil a familiares que permaneceram na Itália.
As correspondências de Diletto Manzini e de sua segunda mulher, Albina Biondi, integram o acervo da Fondazione Archivio Diaristico Nazionale, em Pieve Santo Stefano, na Toscana. O conjunto reúne 24 cartas escritas entre 1889 e 1899.
Uma menina ficou na Toscana
Diletto nasceu em Pelago, na província de Florença, em 1850.
Era agrônomo, administrador rural e criador. Casou-se primeiro com Urania Toti, que morreu ao dar à luz uma menina. A filha recebeu o mesmo nome da mãe.
A decisão da Corte Constitucional mudou o cenário. A nova lei da cidadania agora será analisada pela Justiça da União Europeia.
Mais tarde, Diletto se casou com Albina Biondi.
Em janeiro de 1889, os dois partiram para o Brasil.
Urania ficou na Toscana, sob os cuidados da família materna.
Diletto não viajava apenas como passageiro. Era coordenador de um grupo de 287 colonos destinado a uma grande fazenda na região de Valença, no Rio de Janeiro.
O plano era construir uma vida no Brasil e, depois, reunir a família.

Quase 1.900 pessoas no navio
A primeira carta preservada da viagem foi escrita em 6 de fevereiro de 1889, durante uma escala próxima a São Vicente, em Cabo Verde.
O navio havia deixado Gênova em 25 de janeiro.
Diletto contou ao cunhado Ugo que havia cerca de 1.900 pessoas a bordo.
Segundo seu relato, a travessia quase terminou em tragédia.
Ao passar pelo golfo de Leão, no Mediterrâneo, o navio enfrentou uma tempestade por cerca de 22 horas. Ondas atingiam o convés, passageiros rezavam e havia o temor de que a embarcação afundasse.
Diletto escreveu que chegou a acreditar que não sobreviveria para mandar a carta. Sobreviveu. E seguiu para o Brasil.
Doenças logo na chegada
O primeiro contato com o novo país esteve longe da imagem de prosperidade associada à propaganda migratória da época.
Em carta de 6 de abril de 1889, já na região de Valença, Diletto contou ao sogro, Celso, o que ocorrera depois do desembarque.
Os recém-chegados haviam sido levados para uma ilha próxima ao Rio de Janeiro, onde, segundo ele, havia grande concentração de imigrantes e circulavam febre amarela e varíola.
Diletto e Albina preferiram permanecer em uma área mais elevada e dormir no chão, ao ar livre, em vez de ficar no alojamento usado pelos demais recém-chegados.
Alguns colonos adoeceram. Sete morreram, de acordo com a carta.
Diletto relatou que passou a ajudar os enfermos e chegou a desempenhar funções de médico e farmacêutico, apesar de não ter formação nessas áreas.
A atuação teria contribuído para conquistar a confiança do proprietário da fazenda.
Café até onde a vista alcançava
As cartas também funcionavam como uma janela para um país difícil de imaginar para quem permanecia na Itália.
Diletto descrevia montanhas cobertas por pés de café, além de laranjeiras, limoeiros e bananeiras.
Em dezembro de 1890, já em posição de confiança na fazenda, escreveu ao sogro sobre grandes extensões de cafezais e estoques de milhares de quintais do produto.
Há uma ironia em seu relato.
Mesmo vivendo cercado de café, disse que praticamente havia deixado de bebê-lo.
Também reclamava do vinho disponível no Brasil. Era caro e, segundo ele, ruim.
Mas a principal preocupação daquela correspondência era Urania.
O pai queria que a filha tivesse uma profissão
Na carta de 29 de dezembro de 1890, Diletto informou ao sogro que enviaria 205 liras para a Itália.
O dinheiro tinha destino definido. Queria que Urania estudasse francês e aprendesse uma profissão. Sua escolha era a costura.
Diletto acreditava que dominar um ofício poderia proteger a filha em momentos difíceis. Ele próprio associava sua capacidade profissional às oportunidades que havia encontrado no Brasil.
Era uma forma de cuidar da menina a milhares de quilômetros de distância.
Mas não queria que a distância fosse definitiva.
“Será preciso que você venha”
Em 27 de fevereiro de 1891, Urania tinha 14 anos.
Dessa vez, Diletto escreveu diretamente para ela.
A jovem havia dito ao pai que não estava muito disposta a ir para o Brasil.
Ele respondeu que não exigia uma viagem imediata, mas deixou claro qual era seu projeto:
“Bisognerà che tu venga.”
“Será preciso que você venha.”
Diletto dizia não ter intenção de voltar à Itália e, por isso, esperava que a filha fosse até ele.
O obstáculo era encontrar uma pessoa de confiança que pudesse acompanhar Urania na travessia. O reencontro continuou sendo adiado.
O Brasil contado para uma adolescente
Na mesma carta, Diletto descreveu à filha um país politicamente agitado.
A monarquia havia terminado em novembro de 1889 e o Brasil vivia os primeiros anos da República.
Ele escreveu sobre desvalorização da moeda, conflitos políticos, violência no Rio de Janeiro e febre amarela.
Também criticou a imprensa brasileira, que, em sua avaliação, não mostrava tudo o que estava acontecendo.
Enquanto explicava à filha os problemas daquele país distante, continuava trabalhando como administrador.
Passava boa parte do dia a cavalo, acompanhando os serviços da propriedade.
No fim da carta, voltava a ser apenas pai.
Pedia que Urania respondesse rapidamente e contasse o que estava fazendo. Assinava: “Babbo Diletto.”

O sonho de trabalhar por conta própria
Os anos passaram. Diletto deixou a condição de empregado e tentou abrir seu próprio negócio.
Criou uma pequena atividade de produção e venda de conservas e carnes enlatadas. No início, funcionou.
Uma primeira produção de mais de mil latas foi vendida e chegaram novos pedidos.
Parecia ser a oportunidade de conquistar a estabilidade que buscava desde a saída da Toscana. Então surgiu um problema nas embalagens.
Diletto ficou sem latas e encomendou mil unidades a um fabricante de Valença.
Segundo seu relato, elas estavam mal soldadas.
Durante o transporte, parte das embalagens se abriu. A carne entrou em contato com o ar e estragou. O prejuízo foi grande. A notícia se espalhou e os pedidos desapareceram.
Diletto perdeu dinheiro e clientes.
“Mia cara Uranina”
Em 9 de fevereiro de 1898, voltou a escrever à filha.
A forma de tratamento havia mudado: “Mia cara Uranina.”
Diletto contou ter atravessado dias difíceis depois do fracasso comercial e disse que chegou a temer adoecer.
Estava praticamente sem dinheiro. Mesmo assim, decidiu tentar de novo.
Contraiu dívidas, retomou a produção e começou a procurar novos clientes.
Escreveu à filha que não pretendia perder a coragem. Urania continuava na Itália.
O reencontro nunca aconteceu
A correspondência entre Brasil e Itália se estendeu por cerca de dez anos.
Diletto nunca voltou à Toscana. Urania não chegou ao Brasil para viver com o pai.
Segundo a reconstrução do Archivio Diaristico Nazionale, Diletto morreu depois de aproximadamente uma década longe da Itália, desgastado pelo trabalho e pelo fracasso do pequeno empreendimento que havia construído.
Morreu sem rever a única filha.
Restaram as cartas.
São páginas sobre café, dinheiro, doenças, tempestades, trabalho e política.
Mas também registram uma história familiar atravessada pela imigração.
Um pai partiu acreditando que a separação seria temporária.
Durante anos, tentou organizar a vida para que a filha cruzasse o oceano. O reencontro não aconteceu.
Cartas da América
“Cartas da América” é a série dominical do Italianismo que recupera correspondências enviadas por imigrantes italianos no Brasil a familiares que permaneceram na Itália.
As histórias serão apresentadas com cartas, traduções, documentos e informações preservadas em arquivos históricos.
No próximo domingo, a série contará a história de Antonio Ghinato, que deixou a mulher grávida na Itália, passou oito anos sem dar notícias e, em 1916, escreveu de São Paulo pedindo uma fotografia do filho que nunca havia visto.
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