O governo de Giorgia Meloni tornou-se nesta sexta-feira, 4 de setembro, o mais longevo da história da República Italiana em uma única formação. São 1.413 dias consecutivos no poder, um a mais que o segundo governo de Silvio Berlusconi, que detinha o recorde desde 2005.
Meloni tomou posse em 22 de outubro de 2022, após prestar juramento diante do presidente Sergio Mattarella no Palácio do Quirinale. Primeira mulher a comandar o governo italiano, ela chegou ao cargo à frente de uma coalizão formada por Fratelli d’Italia, Liga e Forza Italia.
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QUERO ANALISAR MEU CASOA marca é especialmente significativa em um país conhecido pela alta rotatividade em Palazzo Chigi. Desde a criação da República, em 1946, a Itália teve 68 governos e 31 primeiros-ministros. A duração média de um gabinete ficou pouco acima de 14 meses.
O recorde se refere à permanência de um mesmo governo. Não significa que Meloni seja a primeira-ministra com mais tempo acumulado no cargo na história republicana. Berlusconi, por exemplo, comandou quatro governos diferentes.
Coalizão evitou crises que derrubaram governos anteriores
Um dos principais fatores por trás da longevidade de Meloni foi a capacidade de manter unida a maioria parlamentar.
Embora Liga e Forza Italia tenham divergido do Fratelli d’Italia em temas econômicos, internacionais e institucionais, nenhuma das disputas chegou ao ponto de provocar a retirada de um partido da coalizão.
É uma diferença importante em relação a diversos governos italianos anteriores, que terminaram não necessariamente por derrota eleitoral, mas pela ruptura entre aliados.
A oposição também chegou às eleições de 2022 fragmentada. Desde então, os principais partidos de centro-esquerda e o Movimento 5 Estrelas têm buscado formas de cooperação, mas ainda sem consolidar uma aliança nacional comparável à coalizão de direita. Analistas apontam essa divisão como um dos fatores que favoreceram a estabilidade do governo.
Meloni moderou posições após chegar ao poder
A decisão da Corte Constitucional mudou o cenário. A nova lei da cidadania agora será analisada pela Justiça da União Europeia.
Outro elemento foi a mudança de postura da própria primeira-ministra.
Antes de assumir Palazzo Chigi, Meloni havia construído parte de sua trajetória política com críticas à União Europeia e às regras fiscais do bloco. No governo, porém, adotou uma linha mais pragmática nas relações com Bruxelas e preservou a posição internacional da Itália dentro da União Europeia e da Otan.
Na economia, o ministro Giancarlo Giorgetti conduziu uma política fiscal relativamente cautelosa, evitando confrontos com os mercados e com as instituições europeias. A estratégia ajudou a afastar os temores que acompanharam a chegada da direita ao poder em 2022.
A economia, contudo, continua crescendo em ritmo moderado. O Istat informou que o PIB italiano avançou 0,2% no segundo trimestre de 2026 em relação aos três meses anteriores e 1% na comparação anual. A expansão já adquirida para o ano é de 0,8%.
No mercado de trabalho, o cenário é mais favorável. Em julho, a taxa de emprego chegou a 63,2%, enquanto o desemprego recuou para 5,8%, segundo os dados mais recentes do Istat.
Grandes reformas tiveram resultados limitados
A duração do governo não significou que Meloni tenha conseguido implementar toda a agenda prometida em 2022.
Algumas das principais reformas institucionais encontraram obstáculos. A proposta conhecida como premierato, destinada a ampliar a influência direta dos eleitores na escolha do chefe de governo, não concluiu sua tramitação. A autonomia diferenciada das regiões sofreu limitações na Corte Constitucional, enquanto mudanças na Justiça foram rejeitadas no referendo realizado em março de 2026.
Para alguns analistas, justamente a cautela diante de reformas capazes de provocar grandes rupturas políticas ajudou o governo a sobreviver.
O economista Tito Boeri, da Universidade Bocconi, resumiu à AFP, em declaração reproduzida pelo The Local, que o Executivo teria priorizado sua própria sobrevivência política. Já outros observadores destacam que a estabilidade, por si só, representa uma mudança relevante dentro do sistema político italiano.
Meloni celebra estabilidade, mas já olha para 2027
Ao comentar o recorde, Meloni afirmou que a estabilidade não deve ser tratada apenas como uma marca estatística, mas como condição para que o país possa planejar políticas e cumprir compromissos.
A primeira-ministra também deixou clara a intenção de disputar a continuidade do projeto político nas eleições previstas para 2027.
“Os resultados existem, mas sabemos muito bem quantas coisas ainda precisam ser feitas”, afirmou nesta sexta-feira.
O Fratelli d’Italia preparou uma celebração em Bari para marcar os 1.413 dias de governo, acompanhada de material político no qual apresenta resultados da administração nas áreas de emprego, impostos, segurança e políticas sociais.
O desafio agora muda de natureza. Depois de estabelecer o recorde de duração de um único governo da República, Meloni terá de mostrar se a estabilidade construída desde 2022 será suficiente para levá-la até o fim da legislatura e, depois, a um eventual segundo mandato.
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