A Itália construiu ao longo de décadas um conjunto de mecanismos legais para impedir que seus centros históricos se transformem em cenários turísticos esvaziados de identidade local. O processo não foi rápido nem linear, mas hoje serve de referência para países que chegam ao mesmo problema com anos de atraso.
O ponto de partida é um diagnóstico compartilhado por cidades como Roma, Florença e Veneza: quando oficinas tradicionais, cafés históricos, livrarias independentes e associações culturais cedem lugar a cadeias padronizadas e lojas de souvenirs, o centro histórico permanece fisicamente intacto, mas perde o que o tornava relevante. O turismo consome exatamente o que destrói.
O que Roma fez
Roma mantém desde 1997 o Albo delle Botteghe Storiche, registro oficial de estabelecimentos para os quais a vocação comercial histórica deve ser preservada. Em 2022, a Região do Lácio formalizou a proteção por meio da Lei Regional n.º 1, criando um sistema unificado de reconhecimento das botteghe storiche em todo o território regional.
O registro ativo, segundo documento oficial da prefeitura, reúne 204 negócios históricos reconhecidos, distribuídos entre oficinas artesanais, estabelecimentos comerciais e casas de alimentação e bebidas. A maioria está concentrada no centro histórico, o que a própria administração reconhece como um problema a resolver.
“Roma é uma cidade muito grande, tem 15 distritos, mas a quase totalidade deses negócios e lojas históricas está no centro histórico”, afirmou Monica Lucarelli, assessora de Comércio da prefeitura de Roma. “Precisamos ir buscar as lojas históricas nas áreas periféricas.”
Lucarelli também identificou dois vetores de pressão sobre o comércio histórico romano além da especulação imobiliária: o turismo de massa e o e-commerce. “Em 2022, Roma recebeu mais de 15 milhões de turistas, com impacto forte nas atividades de hospedagem e turismo, mas não tão forte para o comércio”, disse. Sobre o comércio eletrônico, foi direta: “Precisamos trabalhar para gerir a concorrência do e-commerce, que é algo positivo em geral, mas em relação aos negócios históricos pode se tornar desleal, com lógicas de tributação muito diferentes.”
O problema central, no entanto, persiste: os negócios históricos estão sendo gradualmente sufocadas pela concorrência das grandes cadeias e pelos estabelecimentos de baixo custo que ocupam cada vez mais o centro histórico. O reconhecimento simbólico não basta. Sem proteção contratual e urbanística efetiva, a placa comemorativa permanece enquanto o negócio fecha.
O que Florença decidiu
A resposta florentina foi mais direta e mais recente. Em novembro de 2024, o Conselho Municipal de Florença aprovou as “Medidas de tutela das características comerciais dentro e fora da área Unesco”, abrangendo 42 ruas e praças da cidade.
O plano reserva 19 ruas do centro histórico exclusivamente para atividades de prestígio, como livrarias, galerias de arte, antiquários, design e artesanato tradicional. Em outras 21 ruas, fica proibida a abertura de novos restaurantes e atividades de comércio alimentar, para preservar os estabelecimentos históricos e locais e evitar a concorrência de cadeias abertas principalmente para os turistas.
A medida se tornou possível com a Lei 214 de 2023, que modificou os critérios de concessão de licenças comerciais em espaços públicos e ampliou os poderes dos municípios para esse tipo de limitação.
A contradição que Florença tentou resolver por lei é conhecida em toda cidade que depende do turismo: quanto mais o centro histórico se especializa em atender visitantes, menos ele é o lugar autêntico que os visitantes procuravam.
Um modelo que outros países já observam
A experiência italiana não ficou restrita à Itália. Lisboa criou em 2015 o programa Lojas com História, pioneiro em Portugal, e inspirou iniciativas semelhantes em outras cidades portuguesas, como o Porto de Tradição e programas equivalentes no Funchal e em Braga.
Mais recentemente, Cascais iniciou a elaboração do regulamento “Cascais com História”, destinado a inventariar e reconhecer estabelecimentos e entidades de interesse histórico e cultural ou social local, incluindo lojas de comércio, restaurantes, bares e associações desportivas e culturais.
A lição que a Itália aprendeu antes, e que Portugal começa a assimilar, é que o reconhecimento simbólico raramente basta. Florença não apenas premiou suas botteghe: restringiu o que podia substituí-las. A diferença entre as duas abordagens é precisamente o que define se um centro histórico sobrevive como espaço vivo ou se converte em produto.
Fachadas preservadas não mantêm bairros vivos. Uma cidade continua existindo socialmente quando preserva seus vínculos cotidianos: padarias familiares, livrarias independentes, associações culturais, oficinas artesanais.
Quando isso desaparece, o centro histórico permanece de pé. Mas já não é mais uma cidade.









































