Muito se fala das músicas italianas “clássicas”. Mas as canções que os imigrantes trouxeram na mala eram outras. Eram mais cruas, cheias de dialetos como o vêneto, o lombardo e o piemontês. Não tinham arranjos de orquestra. Tinham saudade de verdade. Algumas até ganharam novas versões no Brasil, compostas ou adaptadas por quem chegou aqui e precisou transformar em música aquilo que tinha acabado de viver.
Mèrica Mèrica
É frequentemente considerada a canção mais emblemática da imigração italiana no Brasil. Foi associada ao imigrante trentino Angelo Giusti, que se estabeleceu no Rio Grande do Sul, na região que hoje pertence a Flores da Cunha. Camponês, e não músico profissional, ele transformou em versos a experiência dura da travessia e da chegada ao Brasil.
“Dalla Italia noi siamo partiti, siamo partiti col nostro onore. Trentasei giorni di macchina e vapore, e nella Merica noi siamo arriva’…”
Trinta e seis dias de navio. Ao chegar, muitos encontraram mata fechada, chão bruto e condições precárias. A letra não romantiza nada. Os imigrantes dormem no chão, “come le bestie” (“como os bichos”). E ainda assim o refrão pergunta, quase encantado: “Merica, Merica, Merica, cossa saralo ’sta Merica?” (“O que será essa América?”). É a dúvida de quem não sabe se fez a escolha certa, mas já não pode voltar.
Curiosidade histórica: antes de morrer, Angelo Giusti escreveu o próprio epitáfio: “Qui giace Angelo Giusti, fu poeta di poco valore” (“Aqui jaz Angelo Giusti, poeta de pouco valor”). Em 2005, “Mèrica Mèrica” foi oficializada como hino da imigração italiana no Rio Grande do Sul.
La bella polenta
“Quando si pianta la bela polenta, la bela polenta si pianta così…”
Simples, ritmada, quase infantil. Mas carregava um mundo inteiro: a lavoura, o milho, o cheiro da cozinha e a vida camponesa do norte da Itália.
Para muitos imigrantes, a polenta não era apenas comida. Era identidade, sobrevivência e memória familiar. Cantar essa música no Brasil era uma maneira de afirmar que ainda existia uma ligação com a terra que haviam deixado para trás.
Quel mazzolin di fiori
No papel, a música fala de uma jovem que colhe flores da montanha para entregar ao homem que ama.
“Quel mazzolin di fiori che vien dalla montagna…”
Mas entre os imigrantes o sentido era outro. A palavra “montagna” bastava para despertar a lembrança das paisagens do norte da Itália. Pouco importava a história amorosa da letra. O que importava era a memória da terra natal.
Curiosidade: a canção também ficou conhecida entre soldados alpinos italianos durante a Primeira Guerra Mundial, quando passou a ser cantada em marchas e deslocamentos militares.
Mamma mia dammi cento lire
A canção da partida.
“Mamma mia dammi cento lire che in America voglio andar.”
As “cem liras” simbolizavam o custo alto e quase inacessível da viagem para famílias pobres da época. Na música, a mãe tenta impedir a partida. Os irmãos dizem para deixá-la ir. Depois, o navio afunda no oceano.
“Le parole della mia mamma son venute alla verità.” (“As palavras da minha mãe se tornaram verdade.”)
Era uma canção de medo e mau presságio. Ainda assim, milhares de italianos atravessaram o Atlântico em busca de uma vida melhor.
Santa Lucia
Uma tradicional barcarola napolitana do século XIX, ligada aos barqueiros da região de Nápoles.
“Sul mare luccica l’astro d’argento…” (“Sobre o mar brilha a estrela de prata.”)
É difícil não imaginar quantos imigrantes ouviram ou cantaram essa melodia olhando o Mediterrâneo pela última vez antes da travessia.
No início do século XX, gravações de Enrico Caruso ajudaram a espalhar a canção pelo mundo. Nas comunidades ítalo-brasileiras que tinham gramofone, “Santa Lucia” passou das gravações para a memória oral das famílias.
Décadas depois, a música continuaria viva em interpretações de artistas como Elvis Presley e Andrea Bocelli.
Funiculì Funiculà
Composta em 1880 para celebrar a inauguração do funicular do Vesúvio, era uma música completamente diferente das canções melancólicas da imigração.
Era alegre, acelerada e feita para cantar em grupo. Nas festas das colônias italianas do sul e sudeste do Brasil, bastavam os primeiros acordes para todo mundo começar a dançar, mesmo carregando saudade e incerteza.
O sole mio
Lançada em 1898, chegou ao Brasil junto dos últimos grandes fluxos da imigração italiana.
Mais do que uma música sobre o sol de Nápoles, virou um símbolo afetivo da terra deixada para trás. Em muitas famílias ítalo-brasileiras, era a música que os avós cantavam espontaneamente, sem cerimônia, às vezes de olhos fechados.
“Minha avó não sabia a letra completa. Sabia apenas o refrão. E cantava feliz”, lembra o nosso editor-chefe Reginaldo Maia, neto de Ferdinando e Antonia Paganin.






































