A Itália descobriu que seus descendentes no exterior valem dinheiro. Muito dinheiro.
O próprio governo calcula em quase 80 milhões o número de italianos, ítalo-descendentes e oriundos espalhados pelo mundo. É um público maior que a própria população residente da Itália, hoje em torno de 59 milhões.
Para trazê-los de volta às cidades de onde partiram seus pais, avós e bisavós, Roma transformou o chamado “turismo das raízes” em política de Estado.
E colocou dinheiro nisso.
O primeiro grande programa recebeu €20 milhões do PNRR, o plano italiano financiado com recursos europeus do NextGenerationEU. O projeto “Turismo delle Radici” foi criado especificamente para desenvolver produtos, serviços e campanhas voltados aos descendentes de italianos no exterior.
Agora, a estratégia entrou em outra escala.
Em 2026, a Farnesina recebeu €200 milhões do Fundo de Desenvolvimento e Coesão (FSC) para uma nova fase de investimentos que o próprio Ministério das Relações Exteriores apresenta como ampliação da política de turismo das raízes.
Somados, os dois movimentos colocam €220 milhões em recursos públicos associados à estratégia. Aproximadamente R$ 1,3 bilhão.
Há uma ressalva importante: não significa que €220 milhões já tenham sido gastos diretamente em propaganda para ítalo-descendentes. Os €20 milhões correspondem ao programa original do PNRR. Os outros €200 milhões financiam uma etapa mais ampla, incluindo recuperação de vilarejos, rotas turísticas, infraestrutura, áreas naturais e equipamentos no centro-sul do país.
Mas o objetivo político apresentado pela própria Farnesina permanece o mesmo: transformar o vínculo dos descendentes com a Itália em desenvolvimento econômico.
80 milhões de potenciais clientes
O tamanho desse mercado explica o interesse.
A Farnesina estima que existam quase 80 milhões de italianos e ítalo-descendentes no mundo potencialmente interessados em reencontrar as localidades de origem da família.
Desde pelo menos 2018, o governo italiano declara abertamente que pretende transformar esse sentimento de pertencimento em viagens, consumo de produtos locais, preservação de imóveis e desenvolvimento das pequenas cidades.
Não é apenas nostalgia. É estratégia econômica.
6,6 milhões de turistas e €5 bilhões
Os números mostram por quê. Segundo dados divulgados pela própria Farnesina, 6,6 milhões de turistas das raízes viajaram para a Itália em 2024.
Eles deixaram aproximadamente: €5 bilhões na economia italiana em apenas um ano. O valor representou crescimento de 34,4% em relação ao ano anterior.
Para 2026, o governo estima mais de 7,4 milhões de turistas das raízes, com gastos superiores a €5,5 bilhões.
Em outras palavras, a Itália investiu €20 milhões no programa original para trabalhar um mercado que atualmente movimenta bilhões por ano.
Mais de 800 municípios envolvidos
A estratégia também chegou às pequenas cidades. Mais de 800 municípios italianos foram selecionados para receber recursos e desenvolver iniciativas destinadas aos italianos e descendentes residentes no exterior.
Essas cidades já organizaram cerca de 750 eventos, que, segundo a Farnesina, alcançaram um público estimado superior a 1 milhão de pessoas.
Outra frente do PNRR destinou €4 milhões apenas ao chamado “Bando delle Idee”, criado para estimular projetos, novos serviços e profissionais especializados no turismo das raízes.
Foi criada ainda a plataforma Italea, uma rede nacional destinada a conectar descendentes às regiões e municípios de origem.
A Italea Card já reúne mais de 760 parceiros, incluindo empresas locais, companhias de transporte, hotéis e grandes grupos nacionais.
A lógica é simples: fazer o descendente chegar à Itália e gastar.
E agora vêm mais €200 milhões
A primeira fase custou €20 milhões. Em 2026, o governo decidiu ampliar a aposta.
A Farnesina recebeu uma dotação de €200 milhões do Fundo de Desenvolvimento e Coesão 2021-2027 para intervenções ligadas à valorização turística de vilarejos, caminhos, reservas naturais e infraestrutura no centro-sul da Itália.
Entre os primeiros projetos estão €70 milhões para a província de Avellino, €20 milhões para Fiumicino e outros investimentos de dezenas de milhões de euros em Lazio e Roma.
Ao apresentar a nova fase, a própria Farnesina voltou a associá-la aos 80 milhões de italianos e ítalo-descendentes no exterior.
A Itália, portanto, não está desistindo de seus descendentes. Pelo contrário. Está colocando ainda mais dinheiro para atraí-los.
A incoerência aparece na cidadania
É justamente aí que os números encontram a política. Enquanto investe recursos públicos para convencer descendentes a reconstruir vínculos com os locais de origem de suas famílias, a Itália restringiu em 2025 o reconhecimento da cidadania iure sanguinis.
A Lei 74/2025 passou a impedir o reconhecimento em diversas situações que anteriormente permitiam a transmissão da cidadania entre gerações nascidas no exterior.
O mesmo Estado que calcula um universo de 80 milhões de pessoas como público estratégico para sua economia passou a sustentar que parte desse vínculo familiar não seria suficiente para o reconhecimento da cidadania.
A questão agora chegou também à Justiça europeia.
Em 23 de julho de 2026, a Corte Constitucional italiana decidiu enviar ao Tribunal de Justiça da União Europeia questões relacionadas ao artigo 3-bis da Lei 91/1992, introduzido pela reforma de 2025.
Descendente para gastar, distante para ser cidadão
Os números deixam a contradição mais evidente do que qualquer discurso.
- 80 milhões de italianos e descendentes são considerados um mercado estratégico.
- €20 milhões foram colocados no programa original.
- Mais de 800 municípios foram mobilizados.
- 6,6 milhões de turistas das raízes chegaram em 2024.
- €5 bilhões ficaram na economia italiana.
- 7,4 milhões são esperados em 2026.
- Mais de €5,5 bilhões podem ser gastos por eles neste ano.
E agora existem €200 milhões adicionais destinados à nova fase de investimentos apresentada pela Farnesina dentro da estratégia do turismo das raízes.
Do ponto de vista econômico, a Itália parece não ter qualquer dúvida sobre a existência do vínculo entre esses descendentes e o país.
A dúvida aparece quando esse vínculo deixa de ser turístico e passa a produzir um passaporte.






































