Na Itália medieval, o nome de um recém-nascido podia funcionar como um recado da família ao mundo. Alguns celebravam a chegada da criança. Outros expressavam esperança, gratidão ou prosperidade. E havia também nomes que revelavam cansaço, contrariedade e até rejeição.
Entre aproximadamente 1150 e 1300, sobretudo na Toscana e na Itália central, surgiram nomes tão diretos que hoje parecem quase inacreditáveis. Um deles foi Perquezivenisti, literalmente “por que você veio?”, registrado em um documento toscano do século XIII.
Mas havia uma razão histórica para tamanha criatividade.
Quando as famílias começaram a inventar nomes
Depois do ano 1000, especialmente a partir do século XII, o repertório de nomes disponíveis às famílias havia diminuído consideravelmente.
A Suprema Corte reafirmou: a cidadania nasce com a pessoa.
- Nova frente jurídica aberta
- Processos ainda podem ser apresentados
- Avaliação individual antes de qualquer decisão
Muitos nomes da Antiguidade romana tinham caído no esquecimento. O número de santos amplamente venerados ainda era relativamente pequeno. Giovanni já ocupava lugar de destaque entre os homens e Maria entre as mulheres, mas Francesco e Antonio, que mais tarde se tornariam nomes extremamente populares, ainda nem haviam nascido.
Os antigos nomes germânicos também começavam a perder o prestígio que tiveram em outros períodos.
Foi nesse cenário que surgiram verdadeiras invenções populares: nomes formados a partir de palavras comuns e capazes de transmitir desejos, expectativas e até a reação da família diante da chegada da criança.
Segundo Enzo Caffarelli, especialista em onomástica e diretor da Rivista Italiana di Onomastica, eram nomes descritivos, de agradecimento ou de bom augúrio.
Apareciam formas como Amadeo, Crescimbene, Diotifeci, Graziadei, Ognibene e Salimbene.
Outros descreviam qualidades desejadas ou a própria beleza da criança: Allegro, Altobella, Caradonna, Cortese, Fiore, Gemma e Grazia.
Benvenuto não era apenas uma saudação
Uma parte desses nomes dizia claramente que a chegada da criança era vista de forma positiva.
Apareciam Benarrivo, Benenato, Benincasa, Benvenuto, Bonaccorso, Bonagiunta, Bonaiuto, Boncompagno e Buonvicino.
Outros celebravam o próprio momento do nascimento: Bonora, Buontempo, Buonanno, Buonasera e Bongiorno.
Até o benefício econômico representado pela chegada de um novo integrante da família podia aparecer no nome. Avanzo, por exemplo, tinha naquele período sentidos ligados a aquisição, proveito e vantagem.
“O nascimento de um filho era, em suma, um acontecimento afetivo, social e até econômico”, resume Caffarelli.
Muitos desses antigos nomes desapareceram como nomes próprios, mas sobreviveram justamente como sobrenomes.
É o caso de formas como Accorsi, Corsi, Venuti, Amici, Avanzini, Giunti, Aiuti, Compagni, Bonanni, Vicini, Giorni, Sera e Tempo.
Quando uma criança “substituía” outra
A decisão da Corte Constitucional mudou o cenário. A nova lei da cidadania agora será analisada pela Justiça da União Europeia.
Há ainda um grupo de nomes que carrega uma história mais dolorosa.
Na Idade Média, a mortalidade infantil era muito elevada. Condições sanitárias precárias, limitações da medicina, epidemias, guerras e períodos de fome faziam com que muitas crianças morressem ainda pequenas.
Quando um segundo, terceiro ou quarto filho nascia depois da morte de um irmão ou irmã, a nova criança podia ser vista simbolicamente como uma restituição daquela que havia sido perdida.
O nome registrava essa ideia.
Apareciam Rifatto, Ritrovato, Ritorno e Rinato.
Outros nomes ligados a esse universo eram Recupero, Ristori, Conforti e Rimedio.
Em alguns casos, a família chegava a indicar no próprio nome a qualidade dessa “substituição”: Paribono, Paribello, Tornabene, Buoncambio, Guadagno, Migliore e Migliorato.
Dessa tradição surgiram sobrenomes como Cambi, Parboni, Paribelli, Guadagnini, Migliorini e Migliorati.
Vista com os olhos de hoje, a ideia pode parecer dura. Dentro da realidade medieval, porém, o nome podia representar a perda de uma criança, o consolo pela chegada de outra e o recomeço da família.
Os nomes do desgosto
“Nem sempre, porém, o recém-nascido era bem-vindo”, escreve Caffarelli.
O especialista chama esse grupo de “nomi del disappunto”, os “nomes do desgosto” ou do descontentamento.
Segundo ele, alguns desses nomes indicavam “rejeição ou aceitação a contragosto do recém-nascido”.
O exemplo mais impressionante é Perquezivenisti, expressão que significa “por que você veio?”. O nome aparece em um documento toscano do século XIII e, nas palavras de Caffarelli, corresponde a uma fórmula “decisamente antigratulatória”, isto é, claramente contrária à celebração pelo nascimento.
Havia outros igualmente diretos: Aggravio, Malavolta, Maldonato, Malfatto, Maltempo, Malgioglio, Nontivoglio, Soverchia, Orcibasta e Ultimo.
Nontivoglio, por exemplo, significa literalmente “não te quero”.
“Vamos parar por aqui”
Um dos casos mais curiosos é Finimola.
Segundo Caffarelli, esse foi o único dos “nomes do desgosto” a sobreviver até o século XX, quase exclusivamente na Toscana.
Seu significado pode ser traduzido aproximadamente como:
“Vamos parar por aqui, você será a última.”
O especialista ainda brinca que, ao encontrar o filho ou a filha de uma mulher chamada Finimola, vale perguntar quantos tios essa pessoa tem.
Mas um nome ruim podia desejar algo bom
Há, porém, uma ressalva importante.
Nem todo nome aparentemente negativo deve ser interpretado literalmente como rejeição.
Caffarelli explica que alguns podiam assumir “valore apotropaico, ossia di scongiuro e dunque, ancora una volta, di augurio”, isto é, valor apotropaico, de esconjuro e, portanto, novamente de bom augúrio.
Na prática, um nome negativo podia funcionar como uma espécie de proteção simbólica contra o azar.
Essa possibilidade não elimina a existência de nomes ligados ao descontentamento. A própria fonte afirma que alguns indicavam rejeição ou aceitação a contragosto. Apenas mostra que nem todos podem ser lidos literalmente oito séculos depois.
Dos nomes medievais aos sobrenomes italianos
Talvez a parte mais curiosa dessa história esteja no que aconteceu depois.
Muitos desses nomes desapareceram completamente dos registros de nascimento, mas continuaram circulando como sobrenomes.
Por isso, palavras e formas que hoje parecem sobrenomes italianos perfeitamente comuns podem guardar a memória de um nome pessoal usado por algum ancestral medieval.
Benvenuto, Bonanni, Guadagnini, Migliorini, Cambi, Giunti e Aiuti fazem parte desse processo.
O sobrenome acabou congelando uma palavra que, séculos antes, podia ter sido uma mensagem dos pais no momento do nascimento de uma criança.
Então chegaram novamente os santos
Essa fase de intensa criatividade popular não durou para sempre.
A partir do fim do século XIII, grandes figuras religiosas ampliaram novamente o repertório de nomes disponíveis.
Francesco, Elia, Bonaventura, Chiara, Domenico e Caterina passaram a fornecer novos modelos às famílias.
A literatura também começou a influenciar os registros. Personagens das narrativas cavaleirescas popularizaram nomes como Angelica, Fiordiligi, Medoro, Morgante, Orlando, Rodomonte, Ruggero e Rinaldo.
Mais tarde, o Humanismo e o Renascimento recuperariam nomes da Antiguidade, enquanto a Igreja, especialmente no período da Contrarreforma e do Concílio de Trento, reforçaria nomes ligados ao calendário religioso, às peregrinações e à tradição cristã.
A época de Buoncambio, Rifatto e Perquezivenisti chegava ao fim.
Os nomes desapareceram. Muitos sobrenomes, não.
E é justamente por isso que, ao investigar um sobrenome italiano hoje, às vezes encontramos algo muito mais íntimo do que uma origem geográfica ou uma antiga profissão.
Podemos encontrar a alegria, a esperança, a perda e, em alguns casos, até o desgosto de uma família que viveu há oito séculos.
O humor dos pais no nome
Alegria e boas-vindas: Benvenuto, Benenato, Buontempo, Bongiorno
Recomeço depois de uma perda: Rinato, Ritrovato, Rifatto, Ritorno
A “troca” era boa: Buoncambio, Guadagno, Migliore, Migliorato
Desgosto: Malavolta, Nontivoglio, Soverchia, Perquezivenisti
“Chega de filhos”: Finimola, aproximadamente “vamos parar por aqui, você será a última”
Viraram sobrenomes: Cambi, Guadagnini, Migliorini, Migliorati, Bonanni, Giunti, Aiuti
Curiosidade: alguns nomes negativos também podiam funcionar como proteção simbólica contra o azar.
(Com informações da Treccani)







































