Siga o Italianismo

Olá, o que deseja procurar?

Euro Hoje R$ 5,93

Cidadania

No Brasil, Tajani faz nova afronta aos ítalo-descendentes: ‘Se alguém se sentia italiano, poderia ter feito antes’

Um dia depois de chamar cidadãos de dupla nacionalidade de “embaixadores” da Itália, vice-premiê rejeita ampliar acesso à cidadania e diz que italianidade foi “abandonada por gerações”

Antonio Tajani durante missão oficial no Brasil. Vice-premiê rejeitou a possibilidade de ampliar novamente o acesso à cidadania italiana por descendência | Times Brasil e Class CNBC Italia
Antonio Tajani durante missão oficial no Brasil. Vice-premiê rejeitou a possibilidade de ampliar novamente o acesso à cidadania italiana por descendência.

O vice-premiê e ministro das Relações Exteriores da Itália, Antonio Tajani, fez nesta quinta-feira (10), durante sua passagem pelo Brasil, uma das declarações mais duras desde a aprovação da reforma que restringiu o reconhecimento da cidadania italiana por descendência.

Questionado por Diego Mezzogiorno, correspondente do Times Brasil e Class CNBC Itália, sobre a possibilidade de rever as restrições impostas aos descendentes, Tajani descartou qualquer abertura.

Bendita Cidadania, analise de cidadania italiana

“Se alguém se sentia italiano, poderia ter feito antes”, afirmou.

A pergunta tocou justamente em um tema que havia sido evitado durante a missão oficial.

Segundo apuração do Italianismo, havia orientação aos jornalistas presentes para que a questão da cidadania italiana não fosse abordada durante os compromissos de Tajani no Brasil. Mezzogiorno, no entanto, decidiu colocar o assunto diretamente ao vice-premiê.

O questionamento expôs o contraste entre o discurso de aproximação com a comunidade ítalo-brasileira e a reforma que limitou o acesso à cidadania por descendência. A pergunta trouxe incômodo ao vice-primeiro-ministro, que respondeu em tom duro e passou a defender a nova legislação.

Publicidade

De “embaixadores” a “poderia ter feito antes”

O episódio ocorreu apenas um dia depois de Tajani exaltar, em São Paulo, o papel dos italianos e ítalo-descendentes que vivem no Brasil.

Na quarta-feira (9), durante encontro com a comunidade italiana, o ministro afirmou que quem possui dupla cidadania atua como representante da Itália no exterior.

“Cada um que tem dupla cidadania é embaixador do país”, disse Tajani.

Bendita Cidadania, analise de cidadania italiana

Menos de 24 horas depois, Mezzogiorno questionou diretamente o ministro sobre a aparente incoerência entre chamar os ítalo-descendentes de “embaixadores” e ter promovido uma legislação que restringiu o reconhecimento da cidadania.

O jornalista perguntou ainda se, diante da realidade encontrada no Brasil, o governo poderia elaborar outra lei, com critérios mais rigorosos, mas capaz de permitir o reconhecimento daqueles que demonstrassem vínculo efetivo com a Itália.

Tajani rejeitou a possibilidade.

“A nossa lei é uma lei que busca defender a italianidade, busca defender a seriedade de ser cidadão italiano. Ser cidadão italiano significa acreditar na nossa língua, acreditar nos valores, acreditar na identidade italiana”, respondeu.

Em seguida, o ministro voltou a associar parte da procura pela cidadania ao interesse pelas vantagens proporcionadas pelo passaporte europeu.

Publicidade

“Se o passaporte italiano deve servir apenas para ir passar férias em Miami e fazer compras em Miami, não é um bom sinal que nós damos.”

“Ame a própria pátria e não o business em Miami”

Tajani prosseguiu dizendo que o governo pretende assegurar que os novos cidadãos tenham um vínculo concreto com o país.

“Nós queremos que quem obtém a cidadania italiana se sinta italiano, ame a própria pátria e não ame o business em Miami.”

Mezzogiorno insistiu e perguntou se poderia haver uma nova lei destinada justamente às pessoas que desejam ser “efetivamente italianas”.

“Para quem quer ser efetivamente italiano existe a lei, que é uma lei análoga às que existem em todos os países do mundo”, respondeu Tajani.

O jornalista então levantou o caso dos descendentes que ficaram além do limite imposto pela reforma, como os bisnetos de italianos.

Publicidade

Foi nesse momento que Tajani deu a declaração mais contundente.

“Se alguém se sentia italiano, poderia ter feito antes, porque a italianidade foi abandonada por gerações, então significa que não havia interesse em ser italiano.”

A afirmação atinge diretamente descendentes que, apesar de manterem vínculos familiares e culturais com a Itália, não haviam solicitado formalmente o reconhecimento da cidadania antes da mudança da lei.

Tajani volta a atacar “Black Friday” da cidadania

O vice-premiê retomou ainda um argumento que vem utilizando desde que o governo apresentou a reforma, em março de 2025: a existência de empresas que transformaram processos de cidadania em atividade comercial.

“Esse interesse explodiu quando houve as Black Fridays destinadas à aquisição da cidadania italiana”, declarou.

A referência é a campanhas promocionais realizadas por empresas que oferecem serviços relacionados ao reconhecimento da cidadania. O governo italiano utiliza esses casos para sustentar que o sistema anterior teria favorecido uma espécie de mercado de cidadanias.

Tajani encerrou a resposta sem deixar margem para uma possível revisão da posição do governo.

“A cidadania italiana é uma coisa séria, ser italiano é uma coisa séria, e isso demonstram todos os italianos que trabalham aqui. A questão está encerrada.”

Reforma restringiu o iure sanguinis

As novas restrições começaram com o Decreto-Lei nº 36, de 28 de março de 2025, posteriormente convertido, com modificações, na Lei nº 74, de 23 de maio de 2025.

A reforma alterou profundamente o reconhecimento da cidadania italiana iure sanguinis para pessoas nascidas no exterior e que possuem outra nacionalidade.

Antes da mudança, não existia um limite geracional geral para a transmissão da cidadania por descendência, desde que fosse possível demonstrar a continuidade jurídica da transmissão ao longo da linha familiar.

Com as novas regras, a existência de um antepassado italiano distante já não é suficiente, por si só, para garantir o reconhecimento.

Entre as hipóteses previstas na legislação estão situações envolvendo pai, mãe, avô ou avó que possuíam exclusivamente a cidadania italiana, além de determinados casos relacionados à residência dos pais na Itália.

A reforma atingiu especialmente países como Brasil e Argentina, onde milhões de pessoas descendem da imigração italiana ocorrida principalmente entre o fim do século 19 e as primeiras décadas do século 20.

32 milhões de descendentes no Brasil

A dureza das declarações também contrasta com o discurso institucional adotado pelo próprio governo italiano durante a viagem.

A Farnesina estima que cerca de 32 milhões de brasileiros tenham origem italiana, formando a maior comunidade de descendentes de italianos do mundo.

Na visita, Tajani destacou repetidamente esses vínculos históricos, familiares, culturais e econômicos como um patrimônio para as relações entre Brasil e Itália.

Mas, quando questionado diretamente sobre a possibilidade de transformar esse vínculo em uma nova oportunidade jurídica para os descendentes excluídos pela reforma, a resposta foi categórica.

Para Tajani, quem desejava ser reconhecido como italiano “poderia ter feito antes”.

Newsletter

Últimas do Italianismo

Todo dia, às 18h, um resumo do que aconteceu na Itália direto no seu e-mail.

Newsletter — Últimas do Italianismo

É gratuito e você cancela quando quiser.

Clique para comentar

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Confira também:

Itália e Brasil

Vice-premiê lidera missão com mais de 100 empresas, reforça aposta no Made in Italy e no mercado brasileiro, enquanto italianos no país continuam cobrando...

Cidadania

Em Collio, Promotoria apura supostas residências fictícias e corrupção; em Agrigento, investigação semelhante envolve dezenas de suspeitos.

Itália e Brasil

Em artigo publicado pelo jornal brasileiro, chanceler italiano destaca laços históricos, acordo UE-Mercosul e potencial para ampliar comércio e investimentos entre os dois países

Política

Vice-premiê italiano desembarca em São Paulo nesta quarta-feira (9), depois de exaltar os milhões de descendentes na Argentina. O desafio agora será conciliar os...