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Cotidiano

Três frentes, três problemas: o momento mais desconfortável de Meloni em 2026

Reforma da Justiça rejeitada, aliança com Washington rompida e a bandeira migratória do governo agora sob exame do tribunal de Luxemburgo.

Em quatro meses, governo italiano acumulou revés nas urnas, crise com os EUA e o envio da Lei Tajani ao Tribunal de Justiça da União Europeia
Em quatro meses, governo italiano acumulou revés nas urnas, crise com os EUA e o envio da Lei Tajani ao Tribunal de Justiça da União Europeia

Em quatro meses, o governo de Giorgia Meloni perdeu um referendo constitucional, entrou em choque público com Donald Trump e viu uma das mudanças mais controversas de sua gestão na cidadania italiana ser colocada sob exame do Tribunal de Justiça da União Europeia.

Três reveses em frentes completamente diferentes: as urnas, a principal aliança externa e agora a Justiça europeia.

A derrota nas urnas

Em março, os italianos rejeitaram a reforma constitucional da Justiça defendida pelo governo. O “não” venceu com 53,2% dos votos, contra 46,8% do “sim”. A participação chegou a 58,9% no território italiano, acima das eleições europeias de 2024 e muito superior aos referendos de 2025.

A proposta separava as carreiras de juízes e promotores, dividia o Conselho Superior da Magistratura em dois órgãos e criava uma nova corte disciplinar.

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Foi a terceira vez na história da República que uma reforma constitucional aprovada pelo Parlamento acabou rejeitada pelos eleitores. Isso já havia ocorrido em 2006, com a chamada devolution, e em 2016, com a reforma Renzi-Boschi.

“Os cidadãos decidiram e nós, como sempre, respeitamos a decisão deles”, afirmou Meloni em vídeo após o resultado. A premiê admitiu ainda o “pesar por uma oportunidade perdida de modernizar a Itália”.

O choque com Washington

Durante boa parte do segundo mandato de Donald Trump, Meloni construiu sua projeção internacional como uma das líderes europeias com maior acesso ao presidente americano. Foi inclusive uma das poucas chefes de governo europeias presentes à posse de Trump, em Washington, em janeiro de 2025.

Em junho de 2026, porém, essa relação entrou em crise aberta.

Trump acusou Meloni de tentar se reaproximar dele para melhorar sua popularidade na Itália. A premiê respondeu publicamente e mandou um recado direto ao presidente americano: sua popularidade não era assunto dele.

Meloni foi além e afirmou que ser amiga de Trump “certamente não ajudou” sua imagem.

O episódio marcou uma mudança importante para uma premiê que havia apostado parte de seu capital diplomático na capacidade de funcionar como ponte entre Washington e a Europa.

Há também um pano de fundo econômico. As exportações de vinho italiano para os Estados Unidos recuaram mais de 20% no primeiro trimestre de 2026, em meio à instabilidade comercial e às tarifas americanas.

A cidadania chega a Luxemburgo

O terceiro capítulo veio nesta quinta-feira, 23 de julho.

Com a ordinanza 147/2026, a Corte Constitucional italiana decidiu enviar ao Tribunal de Justiça da União Europeia uma questão central envolvendo o artigo 3-bis da Lei 91/1992, introduzido pela chamada Lei Tajani.

A norma estabelece, em essência, que determinados descendentes de italianos nascidos no exterior e possuidores de outra cidadania sejam considerados como não tendo adquirido a cidadania italiana, inclusive quando nasceram antes da entrada em vigor da reforma.

A Corte quer saber se essa regra é compatível com o direito da União Europeia. O processo constitucional italiano ficará suspenso enquanto Luxemburgo responde.

Ainda não é uma derrota do governo.

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Cidadania italiana e Justiça Europeia
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A decisão da Corte Constitucional mudou o cenário. A nova lei da cidadania agora será analisada pela Justiça da União Europeia.

“Hoje, muito mais do que ontem, faz sentido começar um processo.” Disse um dos advogados da causa
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O reenvio prejudicial não declara a Lei Tajani incompatível com o direito europeu e tampouco antecipa qual será a resposta do Tribunal de Justiça.

Mas muda radicalmente o terreno da disputa.

A validade de um dos pontos mais controversos da reforma deixou de ser uma questão exclusivamente italiana. Agora, parte essencial da discussão depende de um tribunal europeu cujo entendimento poderá produzir consequências muito além dos processos que deram origem ao caso.

E há uma coincidência particularmente incômoda para o governo.

Em 2024, antes mesmo de existir o Decreto Tajani, o jurista Marco Mellone publicou na revista Eurojus um estudo sobre os limites que o direito da União Europeia poderia impor a uma futura restrição ao ius sanguinis italiano.

O trabalho analisava uma proposta legislativa diferente daquela que seria aprovada em 2025, mas já apontava para a possibilidade de a discussão acabar diante da Justiça europeia.

Quase dois anos depois, foi exatamente o que aconteceu.

Apesar da semelhança entre os sobrenomes, Marco Mellone não tem qualquer relação com Giorgia Meloni. A coincidência, no entanto, tornou a previsão quase profética.

O outro lado da conta

Seria exagerado concluir que Meloni entrou em colapso político.

Depois da derrota no referendo, 54% dos italianos ainda diziam que ela deveria continuar no comando do governo.

Os números posteriores, porém, mostram desgaste. Em levantamento da YouTrend para a Sky TG24 divulgado neste mês de julho, 35% avaliavam positivamente o trabalho do governo, enquanto 55% faziam uma avaliação negativa.

São perguntas diferentes. Uma mede se Meloni deve permanecer no cargo; a outra, a avaliação sobre o desempenho do Executivo. Portanto, os números não podem ser comparados como se medissem exatamente a mesma coisa.

Também seria incorreto afirmar que a Lei Tajani já foi derrotada pela Corte Constitucional.

Na sentença 63/2026, a Corte rejeitou algumas das questões levantadas contra o artigo 3-bis e considerou outras inadmissíveis. A decisão representou uma vitória importante para o governo, mas dentro dos limites específicos das questões examinadas naquele processo.

É justamente por isso que a ordinanza 147/2026 chama tanta atenção.

Poucos meses depois daquela decisão, a própria Corte Constitucional concluiu que existe uma questão europeia suficientemente relevante para justificar a intervenção do Tribunal de Justiça da União Europeia.

O terreno mudou

Meloni continua governando. Sua coalizão permanece competitiva e o Fratelli d’Italia segue como a principal força política do país.

Mas alguma coisa mudou em 2026.

Primeiro vieram as urnas. Depois, o confronto com o presidente americano que durante anos foi apresentado como um ativo diplomático. Agora, uma das reformas mais sensíveis do governo saiu das mãos exclusivas das instituições italianas e chegou a Luxemburgo.

A Lei Tajani continua em vigor.

Mas sua defesa será feita também diante de um tribunal que o governo italiano não escolheu, que tem uma linha ideologica totalmente diferente, e dentro de um calendário que Roma não controla.

Para milhões de descendentes de italianos espalhados pelo mundo, inclusive no Brasil, é nesse novo tabuleiro que uma parte decisiva do futuro do ius sanguinis começará a ser jogada.

2 Comentários

1 Comentário

  1. Romario

    25 de julho de 2026 at 18:22

    Eu vejo um pouco diferente o cenário. Para mim a derrota de verdade foi o referendo da reforma da Justiça; já a questão com o Trump foi reflexo do distanciamento político da Itália com Washington e a cidadania italiana é nota de rodapé na Itália, longe de ter peso para derrubar um governo

  2. Wesley Gusatti

    31 de julho de 2026 at 00:47

    Eu acho é pouco, por mim ela já estava fora do governo italiano….. e espero que assim seja, e tomara que seja o último mandato de Meloni.

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