Siga o Italianismo

Olá, o que deseja procurar?

Euro Hoje R$ 5,82

Opinião

A Itália que Tajani teme não existe, os jovens estão indo embora

Ninguém quer ir para a Itália, nem os próprios italianos.

Jovem exibe cartaz onde se lê "Non è un paese per giovani" (não é um país para jovens), em ato de rua na Itália, símbolo do descontentamento que empurra a nova geração para o exterior.
Jovem exibe cartaz onde se lê "Non è un paese per giovani" (não é um país para jovens), em ato de rua na Itália, símbolo do descontentamento que empurra a nova geração para o exterior.

Por Italianismo

Antonio Tajani olhou para a Espanha, viu meio milhão de migrantes prestes a serem regularizados e enxergou uma ameaça: eles “poderão ir para a Itália“. O vice-premiê chegou a acrescentar que, para quem fala espanhol, “aprender italiano é mais fácil”. A frase diz mais sobre a ansiedade do governo italiano do que sobre a política de Madrid.

Porque há um problema com o roteiro. Os números do próprio Estado italiano contam a história ao contrário.

Quem está saindo é o italiano

Entre 2013 e 2023, cerca de 560.000 jovens de 18 a 34 anos deixaram a Itália, segundo o ISTAT, com base nos registros do AIRE. Entre eles, quase 100 mil eram graduados de 25 a 34 anos. Só em 2023, o país perdeu 53.000 residentes no saldo entre quem saiu e quem voltou.

A conta não é apenas demográfica. A Fondazione Nord Est estima que a fuga de mão de obra qualificada custou à Itália 134 bilhões de euros entre 2011 e 2023, algo perto de 10 bilhões por ano.

O medo de Tajani, portanto, se apoia numa premissa frágil. A Itália não é o destino cobiçado que a fala sugere. É um país que não consegue segurar os próprios filhos, com desemprego juvenil de 18,7% no início de 2025 e salários abaixo da média europeia.

O espelho espanhol

Enquanto Roma teme uma imigração que talvez nem chegue, Madrid fez o movimento oposto. Flexibilizou a residência, ampliou caminhos de reconhecimento e passou a atrair gente que se fixa, trabalha e contribui. A mesma proximidade linguística que Tajani citou como risco é, do outro lado dos Pirineus, um argumento de integração.

Há ainda a ironia de fundo. A imigração virou a vaca sagrada de uma direita inconsequente que, décadas atrás, falava em portas abertas para quem quisesse ajudar a construir o país. Hoje, o mesmo campo trata a chegada do outro como problema, mesmo quando esse outro se parece cultural e economicamente com o europeu que a Itália diz querer.

Existe liberdade de circulação na União Europeia, é verdade. Tajani tem razão nesse ponto. Só que essa liberdade vale nos dois sentidos. E, na década que passou, ela funcionou sobretudo como porta de saída para o jovem italiano, não como porta de entrada para o migrante que ainda nem partiu da Espanha.

Se a Itália quer decidir quem entra, talvez precise primeiro responder por que tanta gente insiste em sair.

1 Comentário

1 Comentário

  1. Fernando Antonio Barreiros de Araujo

    21 de julho de 2026 at 20:28

    Excelente reportagem.
    Tenho vizinhos italianos aqui na praia do sonho verde ( Porto di Mare).
    Essa é a versão que ouço.

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

PUBLICIDADE
Cidadania italiana
Cidadania italiana
Saiba quem tem direito e como iniciar o processo.
• Busca de documentos na Itália
• Serviços consulares
• AIRE e atualização cadastral
• Suporte para emissão de passaporte
Falar com especialista

Confira também:

Morar na Europa

Vice-premiê italiano diz que proposta de Madri é problema europeu e defende que a União debata o tema em bloco.

Esportes

Reportagem italiana mostra a Pampa Gringa, o retorno dos jovens e o chocolate que a Espanha deixou em Turim antes da decisão do Mundial.

Esporte

Um nasceu em Roma; o outro traz um sobrenome vindo das Marche. Veja o elo com a Azzurra dos protagonistas do domingo.

Imigração

Parlamento fez a votação final; texto segue ao presidente. Na península, dois partidos já propõem restringir o véu integral.