Por Italianismo
Antonio Tajani olhou para a Espanha, viu meio milhão de migrantes prestes a serem regularizados e enxergou uma ameaça: eles “poderão ir para a Itália“. O vice-premiê chegou a acrescentar que, para quem fala espanhol, “aprender italiano é mais fácil”. A frase diz mais sobre a ansiedade do governo italiano do que sobre a política de Madrid.
Porque há um problema com o roteiro. Os números do próprio Estado italiano contam a história ao contrário.
Quem está saindo é o italiano
Entre 2013 e 2023, cerca de 560.000 jovens de 18 a 34 anos deixaram a Itália, segundo o ISTAT, com base nos registros do AIRE. Entre eles, quase 100 mil eram graduados de 25 a 34 anos. Só em 2023, o país perdeu 53.000 residentes no saldo entre quem saiu e quem voltou.
A conta não é apenas demográfica. A Fondazione Nord Est estima que a fuga de mão de obra qualificada custou à Itália 134 bilhões de euros entre 2011 e 2023, algo perto de 10 bilhões por ano.
O medo de Tajani, portanto, se apoia numa premissa frágil. A Itália não é o destino cobiçado que a fala sugere. É um país que não consegue segurar os próprios filhos, com desemprego juvenil de 18,7% no início de 2025 e salários abaixo da média europeia.
O espelho espanhol
Enquanto Roma teme uma imigração que talvez nem chegue, Madrid fez o movimento oposto. Flexibilizou a residência, ampliou caminhos de reconhecimento e passou a atrair gente que se fixa, trabalha e contribui. A mesma proximidade linguística que Tajani citou como risco é, do outro lado dos Pirineus, um argumento de integração.
Há ainda a ironia de fundo. A imigração virou a vaca sagrada de uma direita inconsequente que, décadas atrás, falava em portas abertas para quem quisesse ajudar a construir o país. Hoje, o mesmo campo trata a chegada do outro como problema, mesmo quando esse outro se parece cultural e economicamente com o europeu que a Itália diz querer.
Existe liberdade de circulação na União Europeia, é verdade. Tajani tem razão nesse ponto. Só que essa liberdade vale nos dois sentidos. E, na década que passou, ela funcionou sobretudo como porta de saída para o jovem italiano, não como porta de entrada para o migrante que ainda nem partiu da Espanha.
Se a Itália quer decidir quem entra, talvez precise primeiro responder por que tanta gente insiste em sair.






































Fernando Antonio Barreiros de Araujo
21 de julho de 2026 at 20:28
Excelente reportagem.
Tenho vizinhos italianos aqui na praia do sonho verde ( Porto di Mare).
Essa é a versão que ouço.