Antonio Tajani encontrou as palavras certas para desembarcar em Buenos Aires nesta terça-feira (8). Itália e Argentina, escreveu o vice-premiê e ministro das Relações Exteriores, estão unidas por uma amizade “sem igual” e por “raízes comuns”.
Havia números para deixar a frase ainda mais bonita: mais de 1 milhão de cidadãos italianos e cerca de 20 milhões de descendentes de italianos vivem na Argentina. “É impossível não me sentir imediatamente em casa”, afirmou Tajani em artigo publicado no jornal La Nación.
Nesta quarta-feira (9), o chanceler troca Buenos Aires por São Paulo. E fica a pergunta: qual será a frase escolhida para os brasileiros?
Material não falta.
O Brasil tem mais de 32 milhões de ítalo-descendentes, segundo dados divulgados pelo próprio sistema diplomático italiano. Só na circunscrição do Consulado Geral da Itália em São Paulo eram estimados cerca de 20 milhões de descendentes.
“Povo irmão”? “Laços indissolúveis”? “Uma segunda Itália”? “Sinto-me em casa”?
O repertório diplomático permite criatividade.
As raízes e a tesoura
Há apenas um detalhe capaz de tornar o discurso um pouco mais trabalhoso.
Tajani foi um dos integrantes do governo que apresentou, em março de 2025, o decreto que mudou profundamente as regras da cidadania italiana iure sanguinis. A medida virou a Lei nº 74/2025, aprovada pelo Parlamento e em vigor desde 24 de maio daquele ano. O texto foi apresentado por Giorgia Meloni, Tajani e pelo ministro do Interior, Matteo Piantedosi.
Com a nova legislação, quem nasce no exterior e possui outra cidadania deixou, em regra, de ser considerado automaticamente cidadão italiano por uma linha de descendência sem limite de gerações. Entre as exceções estão os casos em que um pai ou avô possuía exclusivamente a cidadania italiana ou em que um dos pais viveu na Itália por pelo menos dois anos consecutivos nas condições previstas pela lei.
Em resumo, para a diplomacia comercial, a árvore genealógica continua frondosa. Para a cidadania, passou por uma boa poda.
A contradição fica ainda mais evidente porque o próprio Ministério das Relações Exteriores italiano afirma que a visita de Tajani ao Brasil terá momentos de encontro com a comunidade italiana e servirá para valorizar os “profundos laços históricos, culturais e humanos” entre os dois países, reforçados pela presença de milhões de cidadãos italianos e descendentes.
Descendentes, portanto, seguem muito bem-vindos quando o assunto é cultura, comércio, investimento e diplomacia.
A discussão fica um pouco mais complicada quando a raiz familiar bate à porta do consulado.
Negócios em São Paulo
Ironias à parte, a viagem tem um objetivo econômico claro.
Tajani estará em São Paulo nos dias 9 e 10 de setembro, acompanhado de uma delegação de mais de 100 empresas italianas. Será sua terceira visita ao Brasil desde o início do mandato. A programação prevê encontros institucionais e um fórum empresarial.
Segundo a Farnesina, o comércio bilateral entre Itália e Brasil superou € 11 bilhões em 2025, e cerca de 1.100 empresas com participação italiana operam no mercado brasileiro. Brasil e Argentina respondem juntos por mais de 92% das exportações italianas destinadas ao Mercosul.
São números suficientes para garantir muitos elogios à amizade ítalo-brasileira.
Agora resta esperar a quarta-feira. E descobrir qual será a frase bonita da vez.
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