O mapa do referendo judicial de 2026 desenha uma divisão geográfica e ideológica sem precedentes. Na Itália, a premiê Giorgia Meloni sofreu sua pior derrota. Na América do Sul, ela obteve uma vitória esmagadora. Como explicar que países como Venezuela (87,3%), Equador (81,8%) e Brasil (71,5%) tenham abraçado uma reforma que os próprios italianos rejeitaram?
A resposta não está em Roma, mas no sentimento de “crise de confiança no Judiciário” que domina o solo sul-americano.

O Judiciário como “casta”
Para os especialistas ouvidos pelo Italianismo, o voto dos italianos no Brasil foi um voto de espelhamento. Como aponta o sociólogo Daniel Taddone, há um claro viés de confirmação: o eleitor identifica o Judiciário como uma “casta” e projeta na reforma italiana o desejo de “enquadrar” juízes, um reflexo direto do embate político entre direita e Judiciário no Brasil (STF).
“O brasileiro identifica o “Sim” como algo da direita e votou para regular os juízes, transportando a interpretação do caso brasileiro para o italiano”, analisa Taddone.
Segundo ele, há um efeito de interpretação baseado na realidade local. “As pessoas com pouco contato com o tema veem que alguma coisa vai regular os juízes e já fazem essa passagem da interpretação do caso brasileiro para o italiano”.
Ele também menciona a atuação de influenciadores. “A pessoa não sabe nada da política italiana, mas identifica o “Sim” como sendo algo da direita, então vai lá e joga pelo sim”.
Democracias frágeis e o desejo de mudança
Os números da Venezuela (87,3%) e Equador (81,8%) são os mais sintomáticos. Em países onde a percepção de justiça é marcada por reticência e instabilidade, qualquer proposta de “reforma” é lida como um sopro de esperança contra o status quo.
O advogado Cristiano Girardello reforça que o “voto ideológico” na América do Sul é alimentado por um discurso de rompimento. Além disso, ele levanta uma questão técnica crucial: a falta de transparência no sistema de votação por correios.
“Temos um sistema eleitoral com pouca transparência e uma efetividade duvidosa. Infelizmente, votos no exterior podem ser manipulados facilmente por patronatos e associações”, disse.
Outro elemento citado é o perfil etário. “Na Itália o não foi majoritário nas faixas mais jovens e na faixa dos mais velhos e nosso eleitorado participativo é formado exatamente por pessoas da faixa etária que votaram maioritariamente pelo sim”, completou Girardello.
O “tapa na cara”
O empresário Marcelo de Carvalho Fragali, ex-proprietário da RedeTV! e postulante ao Senado italiano, atribui ao resultado um componente político relevante. Segundo ele, o voto favorável ao “Sim” expressou a posição da comunidade ítalo-brasileira diante do cenário atual.
De acordo com Carvalho, mesmo diante da insatisfação com as restrições à cidadania, como as previstas no chamado Decreto Tajani, o eleitorado demonstrou alinhamento ideológico.
“Nós soubemos votar pelo que é justo. Foi um tapa na cara do governo italiano. Se fôssemos tratados com respeito, seríamos os maiores aliados da Itália no mundo”, afirmou Carvalho em vídeo publicado em suas redes sociais.




























































