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Sobrenome italiano

Por que tantos italianos têm o sobrenome de uma criança abandonada

Esposito, Colombo e Innocenti: a marca dos enjeitados nos sobrenomes.

A roda dos expostos recebia bebês abandonados sem identificar quem os deixava. Por séculos, foi a porta de entrada de muitas crianças nas casas de acolhimento. Foto: Religion Unplugged
A roda dos expostos recebia bebês abandonados sem identificar quem os deixava. Por séculos, foi a porta de entrada de muitas crianças nas casas de acolhimento. Foto: Religion Unplugged

Esposito é um dos sobrenomes italianos mais comuns, e a origem dele é dura. Era o nome dado a recém-nascidos abandonados, registrados por funcionários do estado civil, párocos e instituições de acolhimento. A mesma história está por trás de Colombo, Innocenti e de dezenas de outros.

Não se trata de meia dúzia de sobrenomes. Segundo o onomasta Enzo Caffarelli, um dos principais estudiosos da onomástica na Itália, os sobrenomes atribuídos a crianças enjeitadas formam “um repertório vastíssimo, que varia de cidade em cidade”. Segundo o linguista, cada instituição adotava critérios próprios para a atribuição desses nomes.

Nomes que diziam quem a criança era

A primeira lógica marcava o estado do bebê. Daí Esposito, ligado a “esposto”, deixado à mostra, típico de Nápoles e da Campânia, com Esposto em Foggia e Degli Esposti em Bolonha. No mesmo grupo entram Proietti, no Lácio, Innocenti e Nocentini, na Toscana, e Trovato, na Sicília.

Muitos vinham da própria casa de acolhimento. Innocenti nasceu do Spedale degli Innocenti, o hospital florentino que recebia bebês desde o século XV. Há ainda registros diretos, como Orfanelli, nos Abruzos, e os napolitanos Madonna e Annunziata.

O símbolo da instituição virava sobrenome

A segunda lógica usava o nome ou o símbolo da instituição. O caso mais conhecido é Colombo, um dos sobrenomes mais frequentes da Lombardia. Boa parte dos Colombo de Milão recebeu o nome da pomba, símbolo do Instituto de Santa Caterina della Ruota, que abrigava enjeitados na cidade.

Outras vezes o nome invocava a proteção divina, em sobrenomes como Casadei e Casadio, na Romanha, ou Diotaiuti, na Campânia, uma forma de pedir que Deus cuidasse do recém-nascido.

De Umberto Eco a Zeffirelli

Dois nomes célebres carregam essa marca. O sobrenome do escritor Umberto Eco veio de uma sigla latina dada ao avô, Ex Coelis Oblatus, “doado pelo Céu”. Eco descobriu o significado por acaso, num arquivo.

O do cineasta Franco Zeffirelli foi escolhido pela mãe na instituição, onde naqueles dias era obrigatório dar às crianças um sobrenome começado por Z. Ele mesmo contou a história mais de uma vez. O nome vem de “zeffiro”, o vento ameno do oeste.

Muitos descendentes no Brasil, sobretudo em São Paulo, carregam esses sobrenomes sem saber que guardam uma história de abandono e de acolhimento. Mais do que uma marca antiga, são um registro de sobrevivência.

A roda dos enjeitados

A ruota era um cilindro giratório embutido na parede das instituições. A mãe deixava o bebê de um lado, girava e partia no anonimato. Do outro lado, freiras ou funcionários recolhiam a criança, registravam a entrada e atribuíam um sobrenome. O próprio nome do instituto milanês, Santa Caterina della Ruota, vem dessa roda.

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