Siga o Italianismo

Olá, o que deseja procurar?

Italianismo – Notícias sobre a ItáliaItalianismo – Notícias sobre a Itália

Anita Mattes

A diplomacia cultural contemporânea e o ambivalente da diáspora italiana; artigo de Anita Mattes

Anita Mattes analisa a diplomacia cultural italiana e o impacto das novas políticas sobre a diáspora.

Reflexão de Anita Mattes sobre diplomacia cultural, cidadania italiana e o papel da diáspora.
Reflexão de Anita Mattes sobre diplomacia cultural, cidadania italiana e o papel da diáspora.

Em recente conferência em Roma, o Ministério das Relações Exteriores da Itália, em colaboração com a Organização Internacional Ítalo-Latino-Americana (IILA), promoveu e reafirmou a ideia da “Itália, América Latina e Caribe: juntos pelo crescimento”. 

O objetivo, de acordo com o governo italiano, seria de “valorizar as conexões históricas, culturais e econômicas” entre o país e a região por meio dos laços “fortalecidos com grande empenho nos últimos anos, entre a Itália e esses países, e de olhar juntos para o futuro”. Tal plano para fomentar vínculos e, principalmente, as exportações italianas, em países da América Latina, reflete facetas instigantes e, ao mesmo tempo, complexas da política italiana contemporânea.

Publicidade
⚠️ ITALIANOS NO EXTERIOR
Seu cadastro AIRE pode estar IRREGULAR.
Mudou endereço, casou, se divorciou ou teve filhos e não atualizou o AIRE?
Você pode ter serviços BLOQUEADOS ⚠️
VERIFICAR AGORA

De um lado, observa-se a ênfase da Diplomacia Cultural, entendida como o uso estratégico da cultura para reposicionar a Itália como ponte simbólica, econômica e política entre a Europa e a América Latina, fortalecendo vínculos históricos e projetando a imagem do país no cenário internacional. 

Os dados econômicos apresentados pelo Ministério são expressivos e justificam o encorajamento dessa “parceria crescente” na região. Em 2024, o comércio entre a Itália e os países latino-americanos atingiu 33 bilhões de euros, dos quais quase 21 bilhões correspondem a exportações italianas. Além disso, existem hoje mais de 3 mil empresas italianas ativas na região, empregando quase 20 mil pessoas e movimentando um faturamento de 70 bilhões de euros. [1]

Tal iniciativa demonstra uma estratégia geopolítica de soft power que faz da cultura italiana um instrumento de influência e capital simbólico, alavancando suas conexões históricas, culturais e, principalmente, econômicas. A cultura, que molda valores, comportamentos e narrativas coletivas, é representada no design, na moda, na gastronomia e no patrimônio cultural italiano, criando circuitos virtuosos de intercâmbio comercial. 

Um outro ponto relevante é que tais dados abrigam, ainda, um ulterior ativo intangível de grande valor estratégico: a memória cultural que perpetua por meio das comunidades de descendentes formadas pela diáspora italiana instalada na América Latina desde o século XIX. 

Somente entre 1870 e 1920, estima-se que cerca de 1,4 milhão de italianos chegaram de navio às costas brasileiras, um número que corresponde a aproximadamente 42% do total de 3,3 milhões de ítalo-descendentes no mundo no referido período. [2]

Esses números falam por si sobre a importância dessa história e a influência dessa comunidade na sociedade brasileira. Trata-se de um tecido sociocultural vivo, que continua a reproduzir valores, práticas de trabalho, línguas e formas de sociabilidade que mantêm a Itália presente no imaginário e na vida cotidiana de milhões de pessoas na América Latina. 

Apesar disso, o governo italiano parece não valorizar plenamente esse ativo, subestimando que as comunidades da diáspora são um importante elo cultural, relacional e econômico da Itália com a região. Tanto é assim, que, nos últimos anos, por meio de decretos, leis e portarias (como o “decreto da vergonha”, Decreto-Lei 36/2025, convertido na Lei 74/2025), a política italiana vem minando e restringindo insistentemente um dos maiores laços dessa herança cultural, a cidadania italiana iuris sanguinis.

O “direito de sangue”, que é um princípio do ordenamento jurídico italiano que determina que a nacionalidade italiana possa ser transmitida pela ascendência, sem limite geracional, independentemente do local de nascimento, passou a ser, para tal comunidade, um símbolo de desrespeito aos seus antepassados. 

Com uma política marcada por contradições, o governo italiano, por um lado, busca promover a coesão cultural transnacional e estimular “parcerias de crescimento mútuo”, fortalecendo na América Latina novos laços econômicos de cooperação. [3]

De outro, impõe regras que restringem direitos dos descendentes daqueles “milhões de italianos que, movidos por esperanças, coragem e engenho”, atravessaram o oceano desde a primeira metade do século XIX em busca de uma vida melhor além-mar. [4]

Reconhecer as comunidades ítalo-latino-americanas como sujeitos ativos da política cultural externa, transformando a memória da migração em um patrimônio vivo de cooperação e pertencimento transnacional é o primeiro passo para criar uma verdadeira diplomacia cultural. Pois, valorizar o papel da Itália na América Latina e no Caribe, não é apenas uma questão de comércio ou energia, mas, acima de tudo, uma questão de reconhecimento de pertencimento identitário e respeito recíproco.

Anita Mattes é doutora pela Université Paris-Saclay, mestre pela Université Panthéon-Sorbonne, professora de Direito Internacional, diretora do Instituto Brasileiro de Direitos Culturais (IBDCult) e especialista em Direitos Culturais, Migratório e Família internacional e advogada do Studio Mattes

Notas:         

[1] https://www.esteri.it/it/sala_stampa/archivionotizie/interviste/2025/10/antonio-tajani-italia-america-latina-y-el-caribe-juntos-por-el-crecimiento-expreso.

Publicidade
⚠️ ITALIANOS NO EXTERIOR
Seu cadastro AIRE pode estar IRREGULAR.
Mudou endereço, casou, se divorciou ou teve filhos e não atualizou o AIRE?
Você pode ter serviços BLOQUEADOS ⚠️
VERIFICAR AGORA

[2] CORTESE, A. Imigração italiano no Brasil, 150 anos. Livro disponível em: https://ambbrasilia.esteri.it/wp-content/uploads/2025/03/150-anos-Imigracao-Italiana_compressed-2.pdf.

[3] https://www.esteri.it/en/sala_stampa/archivionotizie/interviste/2025/10/tajani-italia-america-latina-e-caraibi-insieme-per-la-crescita-folha-de-s-paulo.

[4] https://www.esteri.it/en/sala_stampa/archivionotizie/interviste/2025/10/tajani-italia-america-latina-e-caraibi-insieme-per-la-crescita-folha-de-s-paulo.

Clique para comentar

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Confira também:

Cidadania

Justiça italiana condena os responsáveis pela fraude no exame de idioma do jogador Luis Suárez.

Cidadania

Advogado Marco Mellone afirma que tese do direito desde o nascimento ganhou força no julgamento.

Cidadania

Última instância da Justiça italiana analisa cidadania por sangue e pode impactar descendentes no mundo todo.

Economia

Itália corre risco de recessão em 2026 devido à crise energética e guerra no Irã.