Siga o Italianismo

Olá, o que deseja procurar?

… Euro Hoje R$ 5,65

Cotidiano

Partido de Salvini se distancia de seus próprios candidatos muçulmanos

A Liga de Salvini se distancia dos próprios candidatos muçulmanos que colocou na lista.

Eleições na Itália expõem tensão entre direita e candidatos de origem imigrante
Eleições na Itália expõem tensão entre direita e candidatos de origem imigrante

Há uma cena que resume bem o momento político da Itália: o partido que fez da hostilidade à imigração sua principal bandeira eleitoral coloca dois candidatos muçulmanos em sua lista, recebe críticas dos próprios eleitores, e então anuncia publicamente que se “distancia” dos candidatos que ele mesmo escolheu.

Isso aconteceu em Vigevano, cidade de 62 mil habitantes no norte da Itália, cercada de fábricas e arrozais, onde 15% da população é composta por estrangeiros, muitos deles egípcios e romenos. O candidato a prefeito pela Liga (ou Lega), o joalheiro Riccardo Ghia, decidiu incluir dois candidatos muçulmanos em sua lista de vereadores com um objetivo declarado: atrair votos das comunidades imigrantes.

Bendita Cidadania, analise de cidadania italiana

A reação da cúpula nacional da Liga foi imediata. O partido anunciou que se “distancia” dos candidatos de Vigevano. Os eleitores de Salvini não gostaram. Os candidatos muçulmanos ficaram no meio do fogo cruzado. E a contradição ficou exposta para quem quisesse ver. A eleição aconteceu neste domingo e segunda-feira (25).

“Nasci aqui. Sempre vivi aqui. Mas ainda sou estrangeira”

Uma das candidatas, Hagar Haggag, 20 anos, ítalo-egípcia, disse ter recebido uma série de insultos e ameaças desde que sua candidatura foi anunciada, atribuindo a reação principalmente ao fato de usar hijab. Mesmo assim, disse nunca ter sentido racismo dentro da seção local do partido e afirmou que se candidatou também para “acabar com o clichê de esquerda de que mulheres muçulmanas são ignorantes.” Ela estuda diplomacia e cogita carreira política, talvez no Egito.

O outro candidato, Ibrahim Hussein, porta-voz do salão de orações da mesquita local, apresentou sua candidatura “em nome de Allah” e escreveu no Facebook que escolheu a Liga porque se vê como “um exemplo real de integração.”

Do lado oposto do espectro político, Sabrine Hamrouni, 23 anos, filha de tunisiano que chegou a Vigevano nos anos 1990 para trabalhar na construção civil, é candidata pela centro-esquerda. Ela resumiu em uma frase o que muitos imigrantes de segunda geração sentem: “Nasci aqui. Sempre vivi aqui. Mas ainda sou estrangeira.”

Publicidade

A contradição que a eleição expõe

O episódio de Vigevano não é um acidente. É um sintoma. A Itália se prepara para eleições nacionais no ano que vem em um país que muda mais rápido do que sua classe política consegue acompanhar. O peso eleitoral das segundas gerações cresce. Os filhos dos imigrantes que construíram o norte industrial italiano estão em idade de votar, e de se candidatar.

O sociólogo Maurizio Ambrosini, da Universidade Statale de Milão, observou que vários partidos de direita estão tentando atrair candidatos de origem imigrante e que “muitos migrantes naturalizados tendem para a direita.” É um fenômeno conhecido em outros países europeus, e que chega agora à Itália.

O problema é que a Liga de Matteo Salvini construiu sua identidade política exatamente sobre a exclusão do outro. Flexibilizar essa identidade para ganhar votos é possível, mas tem um custo. E esse custo apareceu em Vigevano, onde o partido teve que se distanciar publicamente de seus próprios candidatos para não perder o eleitorado que construiu.

Bendita Cidadania, analise de cidadania italiana

Newsletter

Últimas do Italianismo

Todo dia, às 18h, um resumo do que aconteceu na Itália direto no seu e-mail.

Newsletter — Últimas do Italianismo

É gratuito e você cancela quando quiser.

Especiais do Italianismo

Clique para comentar

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Confira também:

Cartas da América

Luigi Franceschi chegou a Minas Gerais com a mulher e cinco filhos, sonhando em juntar dinheiro e voltar à Itália. Dois meses depois, implorava...

Cartas da América

Aos 22 anos, Diego Morandi deixou uma pequena cidade da província de Cremona para reencontrar o irmão em Porto Alegre. Durante a viagem, registrou...

Decreto Tajani

Tribunal leva questionamentos sobre a reforma da cidadania à Corte Constitucional e à Justiça europeia; um dos casos já foi registrado oficialmente na Consulta.

Eleições 2026

André Puccinelli e Vittorio Medioli, ambos nascidos na Itália, foram eleitos deputados estaduais no Brasil nas eleições de 2026.