Uma operação internacional coordenada pela Direção Distrital Antimáfia de Palermo resultou na apreensão de bens, empresas e ativos financeiros avaliados em mais de 200 milhões de euros, cerca de R$ 1,1 bilhão. Três pessoas foram presas nesta quinta-feira (28) na Sicília, acusadas de administrar o patrimônio ilícito acumulado pelo chefe mafioso Matteo Messina Denaro ao longo de décadas de narcotráfico.
A ação foi conduzida pela Guardia di Finanza de Palermo e abrangeu investigações em Andorra, Gibraltar, Ilhas Cayman, Luxemburgo, Suíça, Líbano, Mônaco e Espanha. A operação foi coordenada pelo procurador de Palermo, Maurizio de Lucia, e pelo procurador-adjunto Vito Di Giorgio, com cooperação de autoridades judiciais e policiais de cada um dos países envolvidos.
O homem por trás do esquema
Entre os presos está Giacomo Tamburello, 66 anos, natural de Campobello di Mazara, mesma cidade onde Messina Denaro manteve seu último esconderijo antes de ser capturado. Vendedor de roupas nos anos 1980, ele teria encerrado o comércio em 1985 e passado a justificar depósitos milionários alegando heranças e lucros imobiliários. Segundo os investigadores, o dinheiro era, na verdade, produto do tráfico internacional de drogas.
A decisão judicial afirma que as atividades de Tamburello “sempre foram caracterizadas por uma relação consciente de proximidade funcional com a Cosa Nostra”, em especial com os clãs de Campobello di Mazara e Castelvetrano, berço da organização liderada por Denaro.
Também foram presas sua ex-esposa, Maria Antonina Bruno, e o filho do casal, Luca Tamburello. Formado em finanças e bancos internacionais, Luca trabalhou no Morgan Stanley, em Londres. Os investigadores sustentam que essa experiência foi usada para construir conexões no sistema bancário internacional a serviço do esquema familiar.
A investigação teve início após um banco de Andorra notificar as autoridades sobre movimentações milionárias atribuídas a Maria Antonina Bruno. A partir desse alerta, os investigadores rastrearam uma rede de empresas de fachada e estruturas offshore espalhadas pela Europa.
Delatores e a conexão com o Brasil
Dois colaboradores da Justiça foram decisivos para a operação. Vincenzo Spezia, filho de um ex-chefe mafioso e preso em 2003 após anos foragido na Venezuela, afirmou que os Tamburello administravam negócios na Espanha como cobertura para o tráfico.
“Eles abriram sorveterias na Costa del Sol, mas também traficavam toneladas de haxixe. Ganharam bilhões”, declarou Spezia em depoimento.
O segundo colaborador, Giuseppe Bruno, está preso no Brasil desde 2023. A partir de 2025, ele firmou acordo de cooperação com a Procuradoria Federal do Rio Grande do Norte e revelou o papel da organização na importação de haxixe do Marrocos via Espanha.
Repercussão política
A presidente da Comissão Parlamentar Antimáfia da Itália, Chiara Colosimo, classificou a ação como “um resultado extraordinariamente importante na luta contra o crime organizado mafioso e as redes financeiras alimentadas pelo narcotráfico e pela lavagem internacional de dinheiro”. “Hoje é um grande dia para todos, exceto para os mafiosos”, afirmou em publicação nas redes sociais.
O governador da Sicília, Renato Schifani, descreveu a operação como “um golpe muito sério contra os bens da máfia” e ressaltou que o combate ao crime organizado “não conhece pausas”.
Quem foi Matteo Messina Denaro
Considerado um dos chefes mais poderosos da Cosa Nostra por mais de três décadas, Messina Denaro permaneceu foragido durante 30 anos antes de ser capturado em janeiro de 2023. Morreu em setembro do mesmo ano, na prisão, em decorrência de um câncer.







































