São Bernardo, 19 de outubro de 1913.
Amedeo Lucchesi escreveu aos pais que haviam ficado na Itália. Queria dar notícias da família, agradecer os recados recebidos e falar das pessoas conhecidas que circulavam entre os dois lados do Atlântico.
No meio da carta, fez também um convite.
Depois da colheita das castanhas, o pai poderia vir ao Brasil.
Havia, porém, um problema: o medo do mar.
A passagem aparece no manuscrito com a grafia peculiar de Amedeo:
“doppo che avete colto le castagne vienite al Brasile voi caro padre potete vienire e poi sirivolta a sieme e che avete paura del crande luciano perche non cie mica delle ginestre da tacarsi”
A Fondazione Paolo Cresci, que preserva e estuda correspondências de emigrantes italianos, relaciona o trecho ao medo da travessia marítima. A imagem das “ginestre”, as giestas, sugere que no oceano não havia sequer uma planta à qual o pai pudesse se agarrar.
Mais de um século depois, a frase ajuda a revelar a distância que separava quem já havia emigrado daqueles que ainda precisavam decidir se teriam coragem de atravessar o Atlântico.
Esta é uma nova história de Cartas da América, série dominical do Italianismo dedicada às correspondências enviadas por italianos no Brasil aos parentes que ficaram na Itália.
Dois irmãos no Brasil
Amedeo e Cesare Lucchesi nasceram no interior da província de Lucca, na Toscana.
As fontes consultadas divergem sobre o momento exato da partida dos irmãos. Estudos sobre a correspondência dos Lucchesi situam a emigração em 1909, enquanto outra pesquisa histórica registra que eles haviam sido chamados ao Brasil pelo tio Francesco Lucchesi alguns anos antes.
O que os documentos deixam claro é que a família já mantinha uma rede migratória entre a região de Lucca e o estado de São Paulo.
Francesco Lucchesi havia se estabelecido no Brasil e desenvolvido atividades comerciais na região paulista. Amedeo e Cesare também construíram a própria vida no país e acabaram se estabelecendo em São Bernardo.
Pesquisas sobre suas correspondências indicam que permaneceram no Brasil até a morte e não retornaram definitivamente à Itália.
As cartas continuaram fazendo a ligação com quem havia ficado.
“Miei Cari Genitori”
A carta de 19 de outubro de 1913 começa de maneira simples:
“Miei Cari Genitori”
Amedeo conta que havia recebido a correspondência dos pais poucos dias antes e que as notícias sobre a boa saúde da família lhe haviam trazido consolo.
Segue então uma longa sequência de nomes.
Pai, mãe, irmã Maria, Angelina, cunhado, sobrinhos, tios e conhecidos aparecem quase sem pausa.
Essa sucessão de pessoas era comum nas correspondências dos emigrantes. A carta não servia apenas para conversar com o destinatário. Também mantinha vivo o vínculo com parentes, vizinhos e conhecidos deixados para trás.
Amedeo menciona ainda Angelo, que havia trazido notícias da família e queijos enviados pelos pais.
Até a comida atravessava o Atlântico junto com os recados.
Depois das castanhas, o Brasil
É então que aparece uma das passagens mais reveladoras da carta. Amedeo havia sabido por Angelo que o pai poderia viajar depois da colheita das castanhas.
A referência chamou a atenção dos pesquisadores da Fondazione Paolo Cresci.
Mesmo vivendo no Brasil, Amedeo continuava marcando o tempo pelo calendário rural de sua terra de origem. Não dizia simplesmente que o pai deveria embarcar em determinado mês. O momento da partida vinha depois das castanhas.
Na interpretação da Fondazione, o trecho mostra como os ritmos da vida deixada na Itália continuavam presentes na memória do emigrante.

O medo estava no oceano
A segunda parte da frase é ainda mais curiosa.
O pai aparentemente temia a travessia.
No manuscrito aparece a expressão:
“avete paura del crande luciano”
Não é italiano padrão. E não há razão para corrigir o documento.
A Fondazione Cresci interpreta a expressão como uma referência ao medo do oceano e chama atenção para o comentário seguinte: no mar não haveria “ginestre” às quais se agarrar.
Amedeo usava uma imagem da terra para falar do oceano.
Para alguém ligado ao campo e às montanhas da região de origem, a giesta era algo concreto. O mar não oferecia nada parecido.
A frase transforma um medo difícil de descrever em uma imagem cotidiana.
Uma escrita que também conta uma história
O documento chama atenção por outro motivo. Amedeo não escrevia segundo as regras do italiano formal.
Na carta aparecem formas como “doppo”, “vienite”, “cie” e outras construções próximas da oralidade e da maneira como as palavras eram percebidas pelo autor.
Isso também faz parte do documento.
Estudos sobre as cartas dos irmãos Lucchesi mostram uma escrita marcada pela proximidade com a fala e pela experiência do emigrante, que mantinha contato com a língua e a cultura da região de origem enquanto construía uma nova vida no Brasil.
Corrigir essas palavras significaria apagar justamente uma das informações preservadas pela correspondência.

A conversa continuou por anos
A correspondência da família não terminou em 1913.
Há outras cartas preservadas, entre elas uma de Amedeo para a irmã Maria, escrita em São Bernardo em 16 de maio de 1910, além de correspondências posteriores dos irmãos.
Em março de 1920, Cesare escreveu aos pais depois da visita de conterrâneos.
Eles haviam falado sobre pessoas e acontecimentos da terra natal.
Cesare descreveu assim a sensação de ouvi-los:
“senbrava di essere nel paese nativo”
Parecia estar no país natal.
Anos depois da partida, as cartas e os relatos dos conterrâneos continuavam reduzindo, ao menos por alguns instantes, a distância entre o Brasil e a Itália.
O manuscrito sobreviveu
A carta de Amedeo de 1913 foi preservada no acervo da Fondazione Paolo Cresci per la Storia dell’Emigrazione Italiana, em Lucca.
A reprodução permite hoje observar as folhas originais, a caligrafia, as linhas irregulares e uma escrita produzida sem qualquer intenção de se transformar em documento histórico.
Amedeo não escrevia para pesquisadores. Estava respondendo aos pais. Queria dizer que estava bem.
Mandar lembranças a parentes e conhecidos.
Agradecer o queijo.
E convencer o pai de que, depois de colher as castanhas, talvez tivesse chegado a hora de enfrentar o oceano e vir para o Brasil.
Cartas da América
Cartas da América é a série dominical do Italianismo que recupera correspondências enviadas por italianos que emigraram para o Brasil aos familiares que permaneceram na Itália.
Sempre que os arquivos permitirem, o Italianismo publica também o fac-símile do documento original, preservando a grafia utilizada pelos próprios emigrantes.
Newsletter
Últimas do Italianismo
Todo dia, às 18h, um resumo do que aconteceu na Itália direto no seu e-mail.
É gratuito e você cancela quando quiser.
