É segunda-feira. O computador está ligado. O celular, ao lado. Login feito. Senha conferida. A página do Prenot@mi está aberta. Faltam poucos minutos. Atualiza. Nada. Atualiza outra vez.
A página carrega. Volta. Trava. Tenta novamente. Quando finalmente surge a possibilidade de avançar, as vagas podem já ter acabado.
Para milhares de cidadãos italianos atendidos pelo Consulado-Geral da Itália em São Paulo, conseguir um horário para emitir ou renovar o passaporte tornou-se uma disputa semanal.
Em julho de 2025, o próprio consulado mudou o sistema e passou a disponibilizar novas vagas todas as semanas. Às segundas-feiras, para primeiro passaporte. Às terças, para renovação.
No anúncio da mudança, a representação reconheceu que a demanda ainda superava sua capacidade de oferta imediata.
A dificuldade para conseguir horário poderia sugerir uma explicação simples: poucos passaportes sendo emitidos.
Os números mostram o contrário. Em 2025, São Paulo emitiu 39.571 passaportes. A população consular chegou a 390.038 cidadãos italianos.São mais de 108 passaportes para cada dia do calendário, incluindo sábados, domingos e feriados.
Considerados cerca de 250 dias úteis, a média fica próxima de 158 passaportes por dia útil.
Então por que conseguir uma vaga continua tão difícil? A resposta começa pelo tamanho que São Paulo alcançou.
Um consulado do tamanho de uma província italiana
Os 390 mil cidadãos italianos registrados em São Paulo formariam, sozinhos, uma população comparável à de uma província inteira da Itália.
Ravenna ajuda a colocar essa escala em perspectiva.
Quase 40 mil passaportes para uma comunidade de 390 mil italianos
A província italiana tinha 387.205 habitantes em 1º de janeiro de 2025.
Ou seja, apenas 2.833 pessoas separam a população total de Ravenna da população italiana registrada na circunscrição consular de São Paulo.
Há uma diferença importante.
Em Ravenna, 12,17% dos residentes eram estrangeiros.
Isso deixa aproximadamente 340 mil cidadãos italianos.
E quantos passaportes foram emitidos ali em 2025?
Cerca de 13.500.
O número consta do balanço anual da Questura de Ravenna, responsável pela emissão dos documentos na província.
São Paulo emitiu, portanto, quase três vezes o número bruto de passaportes de Ravenna.
A comparação proporcional chama ainda mais atenção.
Em São Paulo, foram aproximadamente 101,5 passaportes para cada mil cidadãos italianos registrados.
Em Ravenna, cerca de 39,7 passaportes para cada mil cidadãos italianos.
São Paulo produziu proporcionalmente cerca de 2,5 vezes mais.
São Paulo emitiu 2,5 vezes mais, proporcionalmente
Isso muda bastante a discussão.
A dificuldade para conseguir vaga existe. Mas os números não sustentam a ideia de que ela seja simplesmente consequência de uma emissão pequena de passaportes.
São Paulo emitiu quase 3 vezes o total de Ravenna
Parma é quase um gêmeo demográfico
Parma oferece uma comparação ainda mais curiosa.
A província tinha 460.351 residentes em 1º de janeiro de 2025.
Desse total, 70.719 eram estrangeiros.
Restavam aproximadamente 389.632 cidadãos italianos.
São Paulo tinha 390.038 cidadãos italianos.
A diferença é de apenas 406 pessoas.
Parma e São Paulo são quase gêmeos demográficos
| Local | Cidadãos italianos |
|---|---|
| São Paulo | 390.038 |
| Parma | 389.632 |
| Diferença | 406 |
Do ponto de vista da população italiana potencialmente atendida, são dois universos quase idênticos.
Não existe, porém, um número oficial fechado que permita comparar perfeitamente os passaportes emitidos por Parma e São Paulo entre janeiro e dezembro de 2025.
Um balanço divulgado em abril de 2025 registrou 31.618 passaportes emitidos entre março de 2024 e março de 2025.
Como o período atravessa dois anos diferentes, seria incorreto apresentá-lo como produção de 2025.
Parma serve, portanto, principalmente para mostrar a dimensão populacional do fenômeno.
São Paulo não administra uma comunidade equivalente à de uma cidade italiana média. Administra algo comparável à população italiana de uma província inteira.
Mas uma Questura não é um consulado
A comparação exige uma ressalva importante. Na Itália, o passaporte é normalmente emitido pelas Questuras, estruturas provinciais da Polizia di Stato.
E uma Questura não é equivalente a um consulado.
Ela atua em segurança pública, imigração, polícia administrativa, investigações, armas, licenças, controle do território e outras áreas. O passaporte é apenas uma de suas atribuições. Da mesma forma, um consulado não cuida apenas de passaportes.
Em São Paulo estão concentrados serviços relacionados a AIRE, estado civil, cidadania, eleições, procurações, atos notariais, assistência consular e diferentes tipos de documentação.
A circunscrição também ultrapassa os limites do estado de São Paulo. Ela inclui São Paulo, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Rondônia e Acre.
Por isso, comparar uma Questura italiana com um consulado no exterior não permite estabelecer diretamente qual estrutura é mais eficiente.
A comparação serve para outra coisa: mostrar o tamanho excepcional da população atendida em São Paulo.
De menos de 27 mil a quase 40 mil passaportes
A capacidade de emissão do consulado cresceu fortemente nos últimos anos.
Em 2022, foram menos de 27 mil passaportes. Em 2023, o total passou de 33 mil. Em 2024, chegou perto de 40 mil. Em 2025, foram 39.571.
A produção subiu e se manteve perto de 40 mil
A produção aumentou.
Mas a base de cidadãos também cresceu rapidamente.
No fim de 2023, o então cônsul-geral Domenico Fornara falava em uma comunidade de quase 350 mil inscritos e em crescimento próximo de 15% ao ano.
Em 2025, a população consular chegou a 390.038.
Esse é um dos pontos centrais para entender por que uma operação capaz de emitir quase 40 mil passaportes por ano continua convivendo com dificuldade de agendamento.
A conta dos dez anos
Há uma conta simples que ajuda a visualizar a pressão sobre o sistema.
Para adultos, o passaporte italiano normalmente tem validade de dez anos.
Agora imagine, apenas como exercício matemático, que os 390.038 cidadãos registrados em São Paulo renovassem o documento uma vez a cada dez anos.
A demanda média seria de aproximadamente 39.004 passaportes por ano.
Em 2025, o consulado emitiu 39.571.
Produção e demanda teórica estão quase no mesmo nível
É apenas uma aproximação.
Nem todos os cidadãos possuem passaporte. Nem todos renovam o documento assim que vence. Menores de idade têm prazos de validade diferentes. Há períodos de procura maior e menor. Mas o cálculo revela a estreita margem disponível.
A capacidade anual registrada em 2025 já é muito próxima da quantidade que seria necessária, em média, para renovar a cada década os passaportes de uma comunidade de 390 mil pessoas.
Qualquer concentração extraordinária da procura tende, portanto, a pressionar rapidamente o sistema.
Mais cidadãos, a mesma porta de entrada
Há ainda outro componente. Nos últimos anos, dezenas de milhares de novos cidadãos passaram a integrar a base consular.
Somente nos dois anos anteriores a julho de 2025, segundo o próprio consulado, foram mais de 80 mil novos inscritos.
Essa expansão significa mais demanda potencial não apenas por passaportes.
Significa mais registros civis, mais atualizações de cadastro, mais documentação, mais serviços eleitorais, mais assistência consular e mais solicitações administrativas.
O consulado também reconheceu publicamente que enfrentava limitações estruturais ao anunciar o novo sistema semanal de vagas em 2025.
Não há uma série pública completa que permita reconstruir, ano a ano, quantos funcionários estavam lotados na representação e verificar em que proporção o quadro acompanhou o crescimento da população consular.
Por isso, não é possível afirmar que a estrutura de pessoal tenha permanecido congelada.
O que os dados permitem afirmar é outra coisa.
A população atendida cresceu rapidamente e atingiu uma dimensão comparável à de uma província italiana.
O paradoxo de São Paulo
É aí que desaparece a aparente contradição. Sim, conseguir uma vaga para passaporte em São Paulo pode ser extremamente difícil.
E, ao mesmo tempo, sim, o consulado emite muitos passaportes. Quase 40 mil em um único ano. Mais de 100 para cada mil cidadãos registrados.
Proporcionalmente, cerca de duas vezes e meia o índice observado em Ravenna em 2025.
O problema de São Paulo, portanto, não cabe na explicação simplista de que o consulado emite pouco.
A própria representação reconhece que a procura supera a capacidade de oferta imediata.
São Paulo passou a administrar uma comunidade italiana com quase 400 mil pessoas, espalhadas por cinco estados brasileiros e dependente da mesma estrutura consular para uma extensa lista de serviços.
É por isso que duas cenas aparentemente incompatíveis convivem.
De um lado, uma máquina consular produzindo quase 40 mil passaportes por ano.
Do outro, cidadãos diante do Prenot@mi numa tarde de segunda-feira, atualizando a tela e tentando conseguir uma das vagas que acabam de ser liberadas.
O consulado produz muito. O problema é que São Paulo ficou ainda maior.
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Deveria ser feita uma análise, se já não existe da quantidade de italianos por Estado para entender o impacto. E eventualmente passar os demais para Brasília, deixando o Estado de São Paulo apenas para São Paulo. Não faz sentido SP atender Acre, Rondônia, MT e MS.