Antonio Ghinato deixou a Itália em 1908, quando a mulher, Argia Bellettato, estava grávida. Partiu para o Brasil e passou oito anos sem dar notícias.
Em 15 de agosto de 1916, uma carta enviada de São Paulo rompeu o silêncio.
“Depois de oito longos anos de silêncio, decido saber notícias suas”, escreveu Antonio no início da mensagem.
Na mesma carta, perguntou se Argia aceitaria se mudar para o Brasil e fez um pedido: queria receber uma fotografia do filho que nunca tinha visto.
A correspondência faz parte do acervo da Fondazione Archivio Diaristico Nazionale e integra o projeto Italiani all’estero, I diari raccontano, dedicado a cartas, diários e memórias da emigração italiana.
A história faz parte de Cartas da América, nova série dominical do Italianismo sobre correspondências enviadas por imigrantes italianos que construíram uma vida no Brasil enquanto familiares permaneciam na Itália.
Oito anos sem notícias
Antonio nasceu em Fratta Polesine, na província de Rovigo, em 1882. Filho de uma família de trabalhadores rurais, casou-se com Argia em 1908.
Poucos meses depois, com a mulher grávida, partiu para o Brasil.
Gilberto nasceu após a partida do pai e cresceu na casa dos avós maternos.
Nos oito anos seguintes, não chegaram notícias de Antonio.
Os documentos preservados pelo arquivo italiano não permitem explicar o que aconteceu com ele nesse período. Não se sabe, por exemplo, por que deixou de escrever ou em que condições viveu nos primeiros anos no Brasil.
O que se sabe é que, em agosto de 1916, Antonio reapareceu.
E queria saber se Argia ainda aceitaria encontrá-lo no Brasil.
“Se você quiser vir para cá”
Na carta enviada de São Paulo, Antonio perguntou se a mulher tinha disposição para atravessar o Atlântico.
Falou do “sol tropical” e de uma nova vida no Brasil. O convite vinha oito anos depois de sua partida.
Antonio também pediu notícias do menino. Queria saber seu nome e receber uma fotografia.
Pediu ainda que Argia não ensinasse o filho a odiá-lo.
Ao final, informou o endereço para onde a resposta deveria ser enviada:
Antonio Ghinato
Rua General Flores, 69
São Paulo
A carta original foi escrita em italiano, com grafia e construções que refletem os poucos anos de escolaridade de Antonio. O projeto do Archivio Diaristico Nazionale preserva essas características na transcrição.
O filho carregava o sobrenome da mãe
Gilberto cresceu como Gilberto Bellettato, e não Ghinato.
Segundo a reconstrução do arquivo, o casamento religioso dos pais não havia sido reconhecido no registro civil. Para o Estado italiano, a paternidade de Gilberto não estava formalmente estabelecida.
Por isso, o menino usava o sobrenome da mãe e dos avós maternos, com quem vivia.
Enquanto crescia, perguntava pelo pai que nunca havia conhecido.
A carta de agosto de 1916 finalmente deu a Argia um endereço. Ela respondeu.
A primeira fotografia do filho
Dois meses depois, Antonio escreveu novamente.
A segunda carta conhecida é de 22 de outubro de 1916, também enviada de São Paulo.
Argia havia atendido ao pedido e mandado uma fotografia de Gilberto. Antonio escreveu sobre a alegria de finalmente ver o rosto do filho.
O menino já frequentava a escola. O pai pediu que, na correspondência seguinte, Gilberto escrevesse algumas linhas.
Era o início de uma tentativa de criar por carta um vínculo que não existira durante os primeiros anos da vida do menino.
Mas havia outro obstáculo entre Antonio e a Itália.
A guerra dificultava o retorno
A Europa vivia a Primeira Guerra Mundial, e Antonio não havia atendido à convocação militar italiana.
As cartas mostram que ele temia retornar ao país e ser preso como refratário ou desertor.
Em março de 1919, contou a Argia que havia procurado o consulado para saber quais seriam as consequências de uma eventual volta. Segundo escreveu, havia sido informado de que poderia viajar, mas seria preso ao chegar à Itália.
Enquanto o retorno se tornava cada vez mais difícil, a vida em São Paulo também estava longe de ser simples.
O catálogo do Archivio Diaristico Nazionale descreve trabalho precário e registra ainda os efeitos da gripe espanhola na cidade.
A correspondência continuou de forma irregular. Há cartas de 1917 e uma última mensagem conhecida de março de 1919.
No início, Antonio esperava que Argia e Gilberto fossem ao seu encontro no Brasil. Com o tempo, percebeu que isso não aconteceria.
E então ele desapareceu outra vez
Depois de cerca de três anos de correspondência irregular, Antonio deixou de escrever novamente.
Dessa vez, não houve novas notícias.
As cartas sobreviveram porque permaneceram com a família.
O conjunto preservado pelo Archivio Diaristico Nazionale cobre o período de 1916 a 1945 e possui 303 páginas. Além das correspondências de Antonio, reúne cartas escritas anos depois por Gilberto Bellettato, o filho que o pai conheceu apenas por fotografia.
Mais de um século depois, esses documentos mostram uma dimensão da imigração italiana que listas de passageiros e estatísticas dificilmente conseguem registrar.
De um lado do Atlântico, Antonio em São Paulo. Do outro, Argia e Gilberto em Rovigo. Entre eles, por alguns anos, cartas.
Cartas da América
Cartas da América é a nova série dominical do Italianismo dedicada às correspondências trocadas entre imigrantes italianos que viviam no Brasil e familiares que permaneceram na Itália.
A cada domingo, o Italianismo recupera uma nova história a partir de cartas, documentos e registros de arquivo, com tradução, contexto e informações sobre as pessoas que escreveram e receberam essas mensagens.
No próximo domingo, uma nova carta enviada do Brasil para a Itália.
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Triste. Antônio tinha afeto pelo filho e mulher, buscava algo melhor e bo fim pelo jeito nao teve. O filho cresceu sem saber e conhecer o pai.
Muito bonito esse trabalho de dar “voz” a essas cartas tantos anos depois, e uma forma sensível de reconhecer todo o sacrifício feito pelos imigrantes em busca de uma vida melhor para si e para as gerações que vieram depois.
Gostaria de mais informações sobre este projeto. Eu tenho algumas cartas escritas por parentes que ficaram na Itália para minha bisavó que veio pra São Paulo.