O vice-premiê e ministro das Relações Exteriores da Itália pediu desculpas nesta segunda-feira, 21, após a repercussão de declarações em que comparou uma escolha política à escolha da mulher com quem um homem deveria se casar.
Em um evento em Formello, nos arredores de Roma, Tajani disse que aconselharia o filho a preferir uma mulher “menos vistosa”, porém mais “confiável”, “séria” e capaz de ser uma “boa mãe de família”, em vez de uma mulher mais atraente que, segundo o exemplo apresentado por ele, poderia ter tido vários namorados ou ser mais propensa à infidelidade.
A comparação provocou críticas da oposição italiana. Nesta segunda, em Nova York, onde participa da Assembleia Geral da ONU, Tajani voltou ao microfone, desta vez para tentar fechar a conta aberta pelo microfone anterior.
“Peço desculpas se as pessoas se sentiram ofendidas pelo que eu disse, mas nunca tive a intenção de ofender as mulheres”, afirmou.
Como prova de seu compromisso com os direitos femininos, o ministro lembrou ter escolhido mulheres para representar a Itália como embaixadoras no Irã e no Afeganistão.
No Brasil, elogio num dia e “Miami” no outro
O episódio acontece menos de duas semanas depois da passagem do chanceler pelo Brasil, onde a relação com a enorme comunidade ítalo-brasileira produziu uma sequência particularmente curiosa.
Antes da viagem, o próprio Tajani escreveu que cerca de 32 milhões de brasileiros têm origem italiana e descreveu esse contingente como “um patrimônio extraordinário” de vínculos familiares, culturais e afetivos. Em São Paulo, voltou a exaltar o papel dos italianos no exterior e dos descendentes como ponte com a Itália.
A lua de mel verbal durou pouco.
Questionado no Museu da Imigração sobre a reforma de 2025 que restringiu a transmissão da cidadania italiana por descendência, Tajani descartou qualquer flexibilização e afirmou que a nova legislação serve para “defender a italianidade”.
Então veio Miami.
Segundo o vice-premiê, não seria “um bom sinal” obter o passaporte italiano apenas para viajar ou fazer compras na cidade americana. Tajani também questionou por que pessoas que se consideravam italianas não haviam buscado antes o reconhecimento e perguntou por que a “italianidade foi abandonada por gerações”. Voltou ainda à comparação com promoções de “Black Friday” para falar da busca pela cidadania.
Não é a primeira retratação
O histórico de declarações seguidas de controvérsia não começou em 2026.
Em março de 2019, quando presidia o Parlamento Europeu, Tajani afirmou em uma entrevista que Benito Mussolini havia realizado também “coisas positivas”, citando obras de infraestrutura do período fascista.
A declaração provocou forte reação no Parlamento Europeu. No dia seguinte, Tajani pediu desculpas e afirmou que não pretendia justificar ou minimizar “um regime antidemocrático e totalitário”, reiterando que se considerava antifascista.
Não significa que uma frase isolada defina toda a atuação de um ministro das Relações Exteriores. Mas há um elemento comum documentado: declarações de Tajani têm provocado, em diferentes momentos, repercussões que obrigaram o próprio ministro a voltar a público para explicar, contextualizar ou pedir desculpas.
E, para um chefe da diplomacia, talvez seja justamente esse o detalhe mais irônico: diplomacia costuma ser a arte de escolher as palavras antes que elas precisem ser recolhidas.
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