Siga o Italianismo

Olá, o que deseja procurar?

… Euro Hoje R$ 6,04

Cartas da América

‘Temos de trabalhar para viver’: a carta de 1885 que revela a luta de uma família italiana no Brasil

Em correspondência enviada à irmã na Lombardia, Pietro Vailati contou sobre a doença da mulher, o nascimento de uma filha e as dificuldades da vida no Brasil. Registros encontrados em Santa Catarina ajudam a reconstruir a trajetória da família.

Composição ilustrativa baseada na carta de Pietro Vailati, escrita no Brasil à irmã na Itália em 1885 | Imagem: IA / Italianismo
Composição ilustrativa baseada na carta de Pietro Vailati, escrita no Brasil à irmã na Itália em 1885 | Imagem: IA / Italianismo

Pietro Vailati sabia que a irmã chorava quando recebia suas cartas. Ela continuava em Izano, na Lombardia, enquanto ele tentava construir uma nova vida no Brasil, para onde havia emigrado com a mulher e quatro filhos em 1876.

Em 16 de março de 1885, quase nove anos depois da partida, Pietro voltou a escrever. Tinha notícias para dar: a mulher, Anna Maria Banfi, estava se recuperando de uma doença após o nascimento de mais uma filha. Angelo, um dos meninos, também havia adoecido, mas já estava bem.

Bendita Cidadania, analise de cidadania italiana

A família crescera, e as preocupações também. Pietro contou que os filhos começavam a ajudá-lo, embora ainda fossem pequenos. O sustento da casa continuava dependendo de muito trabalho.

Em uma passagem, resumiu a situação:

“Mas continuamos obrigados a trabalhar para viver.”

No original, em italiano: “Ma noi siamo sempre padroni di dover lavorare per vivere.”

Publicidade

A frase aparece em meio às notícias familiares, sem qualquer pedido de ajuda. Pietro parecia mais interessado em tranquilizar os parentes do que em falar das próprias dificuldades.

Manuscrito de Pietro Vailati, de 16 de março de 1885
Manuscrito de Pietro Vailati, de 16 de março de 1885

As lágrimas da irmã

Pietro começa a carta agradecendo as notícias recebidas da Itália. Fica satisfeito ao saber que os familiares estão bem e demonstra carinho pela irmã, que lhe havia contado sobre a emoção de receber suas correspondências.

Ela chorava ao ler suas cartas. Pietro responde que se alegra por saber que continua presente nas lembranças da família e nas orações que a irmã faz à Virgem Maria.

Bendita Cidadania, analise de cidadania italiana

O contato dependia dessas mensagens, que atravessavam o Atlântico de navio e podiam levar semanas para chegar. Cada carta era uma oportunidade de saber quem havia nascido, quem estava doente e quem já não estava mais entre os parentes.

Na correspondência de março de 1885, Pietro tinha notícias boas, apesar das preocupações.

Anna estava melhor. Havia dado à luz uma menina poucos dias antes, e o marido manifestava a esperança de que fosse a última criança do casal.

Na pesquisa histórica realizada na Itália, a recém-nascida aparece identificada como Oliva. Uma árvore genealógica disponível no FamilySearch registra uma filha chamada Olivia Catarina, nascida em 1885 e falecida no Brasil em 1953.

O menino Angelo

Outra notícia importante era a recuperação de Angelo. O menino nascera em Izano em 9 de fevereiro de 1876. Tinha poucos meses quando os pais embarcaram para o Brasil, em outubro daquele ano.

Publicidade

Em março de 1885, aos nove anos, já fazia parte da geração de filhos de imigrantes que crescia longe da terra natal dos pais.

Na carta, Pietro informa que Angelo estava completamente recuperado.

O registro desse menino, mencionado em poucas linhas pelo pai, aparece também na documentação brasileira do início do século 20.

De Izano a Santa Catarina

Em 1º de setembro de 1906, Angelo Vailati aparece em um registro de casamento civil de Santa Catarina, identificado como ato nº 85.

O documento informa que ele era filho legítimo de Pietro Vailati e Anna Banfi, natural da Itália, lavrador e cidadão brasileiro.

A filiação corresponde àquela registrada nos documentos de Izano, onde Angelo nasceu em 1876.

Publicidade

Sua noiva era Maria Marangoni, de 25 anos. O casal já tinha dois filhos: Joanna, de aproximadamente dois anos, e Leopoldo, de 13 meses. Ambos foram legitimados pelo casamento civil.

Angelo declarou ter 27 anos, embora o nascimento registrado em Izano indique que tinha 30. A diferença pode decorrer de erro ou idade aproximada informada no registro.

A documentação mostra que o filho de Pietro havia se estabelecido em Santa Catarina e trabalhava na lavoura.

Segundo uma árvore genealógica do FamilySearch, Angelo morreu em Jaraguá do Sul, em 23 de junho de 1962, aos 86 anos.

As notícias da Itália

Além de falar da mulher e dos filhos, Pietro queria saber como viviam os parentes que haviam ficado na Lombardia.

Perguntou pelo irmão Antonio. Interessava-lhe saber se ele continuava em Izano e se trabalhava em terras próprias ou de outras pessoas.

Também comentou duas mortes na família: a do cunhado Luigi Guerini e a de uma tia chamada Catarina.

As perguntas mostram que Pietro continuava acompanhando os acontecimentos de sua comunidade de origem, mesmo depois de quase uma década no Brasil.

Agradeceu ainda o envio de objetos religiosos que lhe eram queridos.

No final da carta, pediu à irmã que transmitisse aos parentes os beijos enviados por Anna, a quem chamou carinhosamente de Anetta, e os cumprimentos de toda a família.

O retorno à Itália

A correspondência foi preservada no Arquivo Histórico Municipal de Izano e reproduzida no livro Speriamo di farsi una fortuna, publicado em 2011 pelo Centro Ricerca Alfredo Galmozzi, de Crema.

A pesquisa registra que Pietro retornou a Izano em 1892, 16 anos depois de emigrar para o Brasil.

Os filhos, porém, tiveram trajetórias diferentes.

O levantamento histórico informa que um deles morreu no Brasil e que uma das filhas se casou nos Estados Unidos. O casamento de Angelo, registrado em Santa Catarina em 1906, acrescenta outra informação sobre a família que se dividiu entre os dois países.

Os registros genealógicos também apontam o nascimento de outros filhos de Pietro e Anna em território brasileiro, com referências à região de Blumenau.

O sobrenome Vailati nos consulados italianos

O sobrenome Vailati continua presente entre os cidadãos italianos residentes no Brasil.

Um levantamento feito pelo Italianismo nas listas eleitorais italianas de 2025 encontrou 27 cidadãos com esse sobrenome, incluindo registros com sobrenomes compostos, distribuídos por cinco circunscrições consulares.

A maior concentração estava na circunscrição de Curitiba, com dez eleitores, seguida por Porto Alegre, com nove. São Paulo tinha quatro registros, Rio de Janeiro, três, e Recife, um.

Os números se referem às circunscrições consulares, não necessariamente às cidades de residência dos eleitores.

Não é possível afirmar que essas pessoas sejam descendentes diretas de Pietro Vailati e Anna Banfi.

Mas o sobrenome que Pietro escreveu ao assinar sua carta, em março de 1885, continua presente nos registros italianos do Brasil, mais de 140 anos depois.

Cartas da América

Cartas da América é a série dominical do Italianismo dedicada às cartas, diários e correspondências deixados pelos italianos que emigraram para o Brasil e outros países das Américas.

São documentos que preservam experiências pessoais, muitas vezes ausentes dos relatos oficiais sobre a imigração.

Newsletter

Últimas do Italianismo

Todo dia, às 18h, um resumo do que aconteceu na Itália direto no seu e-mail.

Newsletter — Últimas do Italianismo

É gratuito e você cancela quando quiser.

Especiais do Italianismo

1 Comentário

1 Comentário

  1. Joao

    Na carta ele diz:” Continuamos sendo obrigados a trabalhar para viver’’. Bom nao sei como era naquela epoca, se as pessoas precisam trabalhar para viver, mas hoje ainda somos obrigados a trabalhar para viver e sempre tem sido. Mas eu nao posso deixar de ver que os traços dos antigos italianos nao mudou em nada de hoje em dia, eu moro na Italia ja tem 5 anos, e ate hoje todo italiano que conheci é fã de uma preguiça.

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Confira também:

Sobrenome italiano

Quaranta, Sette, Cinque e até Trecento são sobrenomes encontrados na Itália. Estudos da Treccani explicam como números passaram a identificar pessoas e famílias.

Cidadania

Documento oficial revela que Flávio, Eduardo e Carlos Bolsonaro recorreram ao ramo Bonturi, e não à família Bolzonaro, do Vêneto.

Imigração

Levantamento mostra que estrangeiros representam 12,5% da população da região italiana e ocupam 610 mil postos de trabalho. Construção civil também tem forte presença...

Sobrenome italiano

Sobrenomes de famílias italianas sofreram alterações ao longo das gerações no Brasil. Documentos de imigração e registros históricos ajudam a identificar como eram escritos...