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Sobrenome italiano

Os sobrenomes italianos que hoje têm mais donos no Brasil do que na Itália

Zanella, Grando e Pozzebon estão entre os sobrenomes de origem italiana com mais portadores no Brasil do que na Itália, segundo estimativas internacionais. Entenda como a imigração transformou essa geografia familiar.

Mulheres e crianças de uma comunidade de imigrantes italianos em fotografia histórica. A formação de grandes famílias contribuiu para a expansão de sobrenomes de origem italiana no Brasil | Foto: Reprodução de acervo histórico
Mulheres e crianças de uma comunidade de imigrantes italianos em fotografia histórica. A formação de grandes famílias contribuiu para a expansão de sobrenomes de origem italiana no Brasil | Foto: Reprodução de acervo histórico

Um sobrenome italiano pode ter mais portadores no Brasil do que no país onde surgiu. É o que indicam estimativas sobre Zanella, Grando e Pozzebon, nomes associados à imigração do norte da Itália. No caso de Grando, a diferença chega a quase cinco brasileiros para cada italiano. O fenômeno ajuda a contar uma história iniciada há mais de um século, quando milhares de famílias cruzaram o Atlântico e estabeleceram comunidades que preservaram seus nomes por gerações.

Na Serra Gaúcha, em Santa Catarina e no interior do Espírito Santo, sobrenomes herdados de imigrantes italianos passaram a identificar famílias, estabelecimentos e comunidades. Alguns se multiplicaram tanto no Brasil que superaram, em números absolutos, os portadores registrados na Itália. Isso não significa que esses nomes estejam desaparecendo do país de origem.

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O Vêneto deixou sua assinatura no Brasil

Entre 1876 e 1920, cerca de 1,24 milhão de italianos emigraram para o Brasil. Desse total, aproximadamente 365,7 mil partiram do Vêneto, cerca de 29,4%. Os dados históricos, reproduzidos em estudos sobre a imigração italiana, ajudam a explicar a forte presença de sobrenomes vênetos entre os descendentes brasileiros.

No Rio Grande do Sul, famílias se estabeleceram em núcleos agrícolas e formaram redes de parentesco que atravessaram gerações. A expansão dessas comunidades e a migração interna espalharam determinados nomes muito além dos lugares onde os primeiros colonos desembarcaram.

O que diz Enzo Caffarelli, da Rivista Italiana di Onomastica

O linguista italiano Enzo Caffarelli, fundador e diretor da Rivista Italiana di Onomastica (RIOn), é uma referência na pesquisa sobre nomes de família. Em artigo publicado pela Treccani em 27 de fevereiro de 2023, ele descreve características dos sobrenomes vênetos, como a terminação em consoante e a formação a partir de nomes pessoais, profissões, lugares e apelidos.

Caffarelli relaciona Zanella e outras formas como Zanetti, Zanon e Zanin ao nome Giovanni. Também inclui Sartori e Sartor entre os sobrenomes originados de profissões. Para Casagrande, aponta a possibilidade de referência histórica a uma criança abandonada, interpretação que não pode ser estendida automaticamente a todas as famílias com esse sobrenome.

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O estudo da Treccani explica origens linguísticas, mas não afirma que esses nomes estejam desaparecendo na Itália nem compara diretamente seus portadores com os brasileiros.

Gráfico: em quais países esses sobrenomes são mais numerosos?

As estimativas históricas do Forebears, com referência principalmente a 2014, mostram diferenças expressivas. Em Zanella e Grando, o Brasil lidera; Casagrande está praticamente empatado. Já Sartori e Pozzobon permanecem mais numerosos na Itália. Pozzebon e Pozzobon são grafias distintas e precisam ser consultadas separadamente.

Sobrenomes entre Brasil e ItáliaNúmero estimado de portadores, referência histórica do Forebears (2014)
BrasilItália
Zanella
12.720
3.353
Grando
6.871
1.444
Pozzebon
1.590
295
Casagrande
19.617
19.321
Sartori
19.878
31.706
Pozzobon
874
3.869

Fonte: Forebears. Valores estimados, não equivalentes ao Censo 2022. Barras na mesma escala; maior valor = 31.706. Elaboração: Italianismo.

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Zanella e Grando: uma nova geografia dos nomes de família

O Forebears estima 12.720 portadores de Zanella no Brasil e 3.353 na Itália. No território brasileiro, o Rio Grande do Sul reúne aproximadamente 29% dos registros estimados e Santa Catarina, 26%. Somados, os dois estados representam mais da metade dos portadores brasileiros desse sobrenome.

Para Grando, a diferença é ainda maior: 6.871 no Brasil e 1.444 na Itália. A base indica concentração brasileira no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina e no Paraná. Isso não prova que os nomes sejam mais frequentes especificamente na Serra Gaúcha: para uma comparação municipal, é necessário consultar dados de distribuição por cidade.

Casagrande, Sartori e a diferença entre presença e predominância

Casagrande aparece praticamente empatado, com estimativas de 19.617 no Brasil e 19.321 na Itália. Sartori, por sua vez, é mais numeroso no país de origem: 31.706 portadores italianos diante de 19.878 brasileiros. Em Pozzobon, a vantagem também é italiana, com 3.869 contra 874.

Esses exemplos mostram por que não é correto afirmar que todos os sobrenomes conhecidos nas colônias sejam raros na Itália. A presença marcante de um nome em determinada região brasileira não é a mesma coisa que sua predominância mundial.

Por que tantos sobrenomes se multiplicaram nas colônias?

Famílias que chegaram às áreas de colonização rural estabeleceram novas redes de parentesco. Ao longo das décadas, seus filhos e netos ocuparam outras localidades e levaram os nomes de família a cidades de diferentes estados. O crescimento demográfico e a mobilidade dos descendentes ajudam a explicar como um sobrenome antes concentrado em uma região italiana passou a reunir milhares de portadores no Brasil.

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Isso não implica que a Itália tenha deixado de usar esses nomes. Para afirmar que um sobrenome está desaparecendo do país, seriam necessárias séries históricas comparáveis, capazes de acompanhar sua frequência ao longo do tempo. Uma fotografia da distribuição em determinado ano não demonstra declínio.

Mais que sobrenomes: a memória da imigração

O legado das comunidades de imigração italiana também se manifesta na língua, na culinária e nas tradições familiares. Um exemplo é o talian, desenvolvido no Brasil a partir do contato entre variedades linguísticas de imigrantes, sobretudo vênetas, e o português. Em 2014, o talian recebeu reconhecimento como Referência Cultural Brasileira pelo Iphan.

Enquanto a língua se transformou no contato com o ambiente brasileiro, muitos sobrenomes conservaram grafias reconhecíveis na Itália. Outros passaram por alterações de registro ou de escrita. Por isso, nomes parecidos podem indicar pistas de uma origem comum, mas não comprovam parentesco entre as famílias.

Como saber onde seu sobrenome aparece no Brasil

A plataforma Nomes no Brasil, do IBGE, usa dados do Censo 2022 e permite consultar a frequência de sobrenomes e sua distribuição geográfica. O Forebears reúne estimativas internacionais, embora utilize fontes e períodos diferentes. As duas ferramentas não são metodologicamente equivalentes.

Para investigar a origem de uma família, o caminho mais seguro continua sendo reunir certidões de nascimento, casamento e óbito e identificar o município italiano de procedência dos antepassados. A distribuição do nome é uma pista, não uma prova genealógica.

Mais de um século depois da chegada de tantas famílias, a história dos sobrenomes italianos tem dois lados: a região em que se formaram e as comunidades brasileiras em que seus descendentes se multiplicaram.

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