A Natitaliani nasceu para defender os direitos dos italianos no exterior. Agora, menos de dois anos depois de sua criação, pode fechar as portas. A associação convocou uma assembleia para 22 de outubro, quando os sócios terão de discutir uma arrecadação extraordinária de recursos ou a dissolução da entidade.
Mas há quem veja na crise algo além da falta de dinheiro. Um advogado associado à Natitaliani, que preferiu não ser identificado, questiona a maneira como o conselho diretivo toma decisões e reclama que os sócios só são chamados a participar quando o assunto envolve contribuições financeiras.
“Na hora de falar de dinheiro tem que chamar todo mundo. Aí não é que nem um referendo que só a panelinha pode fazer o que eles querem e dane-se a vontade dos outros sócios”, disse ao Italianismo.
Ele se refere à campanha pelo referendo contra as restrições à cidadania italiana, suspensa em setembro após uma coleta de assinaturas que ficou muito distante da meta necessária.
Segundo o advogado, os associados não foram consultados sobre os rumos da iniciativa. Agora, porém, são convocados para decidir se colocam mais dinheiro na associação ou se aceitam discutir seu encerramento.
“Porque quando teve a questão do referendo, ninguém recebeu nada, não recebi nada, enfim. Agora que é pra falar de dinheiro, ou vamos encerrar a associação, aí chama”, criticou.
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Referendo teve baixa adesão
A Natitaliani participou da tentativa de convocar um referendo para derrubar dispositivos da reforma da cidadania italiana aprovada em 2025.
O pedido foi registrado na Corte de Cassação em 16 de setembro de 2026. A proposta pretendia revogar trechos do artigo 3-bis da Lei 91/1992, que restringiu o reconhecimento da cidadania por descendência.
A campanha não conseguiu mobilizar o público esperado.
Em 24 de setembro, o Italianismo mostrou que a coleta havia reunido apenas 1.301 assinaturas nos primeiros cinco dias. Eram necessárias 500 mil.
Quatro dias depois, em 28 de setembro, o presidente da Natitaliani, Daniel Taddone, anunciou a suspensão da mobilização.
A explicação apresentada foi que muitos italianos residentes no exterior enfrentavam dificuldades para acessar o sistema de identidade digital SPID, além de problemas com registros no AIRE e com o codice fiscale.
Taddone afirmou, em comunicado reproduzido pelo Italianismo, que a decisão havia sido tomada em conjunto com o conselho diretivo.
Foi justamente a participação dos demais associados nessas decisões que passou a ser questionada pelo advogado.
E por que não trocar a direção?
A convocação da assembleia, assinada pela presidência em 6 de outubro, coloca a situação financeira no primeiro ponto da pauta. As alternativas apresentadas são arrecadar recursos extraordinários ou dissolver a associação.
Se a decisão for continuar, os sócios deverão discutir o estatuto, a função dos conselheiros, novas contribuições financeiras e um projeto para permitir que os consulados façam diretamente inscrições no AIRE.
Também está prevista uma arrecadação para a realização de um congresso.
O que não aparece na pauta é a possibilidade de substituir o atual conselho diretivo.
O advogado questiona por que a direção apresenta a dissolução como alternativa sem colocar sua própria permanência em discussão.
“É assim, vamos ver se a gente consegue dinheiro, se não conseguir vamos encerrar”, resumiu.
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Na avaliação dele, a associação não precisa necessariamente deixar de existir porque a atual administração enfrenta dificuldades. Os sócios também poderiam discutir uma mudança de comando.
A ausência dessa proposta na convocação não impede, por si só, que os associados busquem uma renovação da direção, desde que sejam observadas as regras do estatuto.
Quem cobra diálogo também precisa ouvir
A crítica chama a atenção pelo histórico da Natitaliani. Em abril de 2025, quando o governo italiano aprovou o decreto que restringiu o reconhecimento da cidadania por descendência, a associação condenou a falta de diálogo com os italianos no exterior.
Na ocasião, conforme noticiou o Italianismo, a entidade criticou a adoção de mudanças profundas na legislação sem ouvir as comunidades diretamente afetadas.
Também organizou uma arrecadação para contratar um advogado constitucionalista e contestar as novas regras.
Em maio daquele ano, a campanha havia arrecadado € 15.568 de uma meta de € 30 mil, segundo reportagem do Italianismo.
Agora, a Natitaliani volta a pedir recursos, desta vez para sua própria continuidade.
O advogado ouvido pela reportagem vê nisso uma incoerência. Para ele, uma associação que cobra participação das instituições italianas deveria aplicar o mesmo princípio nas decisões internas.
A crítica é de um associado e não permite afirmar que exista uma insatisfação generalizada com a direção. Ainda assim, levanta uma questão que não aparece expressamente na convocação: a possibilidade de manter a entidade em funcionamento com outros dirigentes.
O que será decidido em 22 de outubro
A assembleia será realizada em 22 de outubro, às 15h, horário da Itália, em primeira convocação, e às 15h15, em segunda convocação, por videoconferência.
A convocação não apresenta um balanço financeiro nem informa quanto seria necessário arrecadar para evitar a dissolução.
Também não prevê expressamente uma votação sobre a continuidade dos atuais dirigentes.
A decisão de dissolver a associação, caso seja proposta, deverá respeitar as exigências previstas no estatuto.
Por enquanto, o que existe é uma convocação para discutir o futuro da Natitaliani, não uma decisão de encerramento.
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