A recente captura de Nicolás Maduro e a instabilidade crônica na Argentina e no Brasil não são apenas fatos jornalísticos para a Itália; são alertas demográficos.
Para Roma, a cidadania ius sanguinis na América do Sul tornou-se um desafio migratório que exige controle.
O endurecimento da burocracia, portanto, não é apenas uma medida administrativa, mas uma estratégia de defesa fundamentada em décadas de monitoramento do passaporte como uma “apólice de seguro” em tempos de caos.
O “efeito Corralito”: a lição de 2001
A memória institucional da Itália é longa. O trauma que serve de base para as restrições atuais remonta a dezembro de 2001, na Argentina. Durante o Corralito, o congelamento bancário que devastou a classe média argentina, os consulados italianos foram sitiados por cidadãos que buscavam desesperadamente a “salvação” europeia.
Segundo o historiador Fernando Devoto, referência em movimentos migratórios, o passaporte italiano foi ressignificado naquele momento: deixou de ser um documento de orgulho para se tornar uma “passagem de saída”.
Dados da Fondazione Migrantes, no seu Rapporto Italiani nel Mondo, mostram que as inscrições no AIRE (Anagrafe degli Italiani Residenti all’Estero) na Argentina cresceram exponencialmente nos anos seguintes, criando uma massa de cidadãos que, embora vivessem em Buenos Aires, passariam a ter direitos plenos em solo italiano em caso de migração.
Caracas e a “migração de cidadania”
Se a Argentina ensinou a Roma sobre economia, a Venezuela ensinou sobre geopolítica. Conforme o regime de Nicolás Maduro se fechava e a crise humanitária se agravava, os pedidos de reconhecimento de cidadania em Caracas e Maracaibo dispararam.
Para o Ministério do Interior italiano, o alerta vermelho soou quando a inteligência (DIS) e a diplomacia previram a intervenção que culminaria na queda ou captura de Maduro.
Com cerca de 1,5 milhão de descendentes na Venezuela, dados conservadores, a Itália temeu o “cenário de colapso”: um fluxo migratório súbito de milhares de novos cidadãos italianos com direito imediato a:
- Servizio Sanitario Nazionale (SSN): Atendimento médico universal e gratuito.
- Assistência Social: Auxílios de desemprego e moradia.
- Previdência: Pressão sobre um sistema que já sofre com o envelhecimento da população interna.
A restrição da lei, implementada em maio de 2025, foi o “muro burocrático” erguido estrategicamente meses antes da queda de Maduro. A Itália não queria apenas controlar a migração; ela queria impedir que novos cidadãos fossem fabricados no calor de uma possível guerra civil.
Brasil: o reservatório humano de 30 milhões
O Brasil representa o maior desafio demográfico para a Itália. Com uma estimativa de 30 milhões de descendentes, o país viu um “boom” de ações judiciais conhecidas como “contra a fila” nos últimos anos. A polarização política interna e a volatilidade do Real incentivaram famílias inteiras a buscar a cidadania não para morar na Itália, mas como uma garantia de liberdade de movimento global.
A resposta de Roma foi o “fator Tajani”. O Ministro das Relações Exteriores, Antonio Tajani, alinhado à visão pragmática de Meloni (e sua proximidade ideológica com Donald Trump), implementou filtros que transformaram o processo em uma seleção socioeconômica:
- Taxas de 600 euros: o aumento expressivo por requerente visa tornar a cidadania um investimento proibitivo para as classes menos abastadas.
- Fim da ius sanguinis ilimitada: o debate sobre o limite de gerações ganhou força para estancar o fluxo de descendentes de 3ª e 4ª gerações que não possuem mais vínculos linguísticos ou culturais com a península.
O fim da “cidadania romântica” e o surgimento da seletividade
A era da “cidadania para celebrar raízes” foi substituída pela cidadania como ativo financeiro e político. Hoje, a Itália busca dois perfis específicos:
- O investidor: aquele que possui recursos para comprar imóveis ou abrir empresas na Itália.
- O italiano de consumo: Aquele que vive na América do Sul, mas consome produtos Made in Italy e viaja para a Europa apenas como turista, gerando receita sem onerar o sistema público.
Roma percebeu que o passaporte italiano estava sendo usado para facilitar a migração para os Estados Unidos ou para férias em Miami, sem que o cidadão desse qualquer contrapartida à República Italiana.
O novo paradigma
A previsível instabilidade na América do Sul foi o acelerador de uma mudança que já se desenhava nos corredores de Roma. O passaporte italiano agora é tratado como um recurso escasso e valioso. Para o descendente brasileiro ou argentino, o direito de sangue não é mais absoluto; ele é mediado por uma burocracia custosa e por um governo que prioriza a sustentabilidade do seu próprio território.
A mensagem de Giorgia Meloni e Antonio Tajani é clara: a Itália honra seu passado, mas não pretende hipotecar o seu futuro para compensar as crises políticas do outro lado do oceano.
O contraponto: o “medo matemático” contra a realidade dos fatos
Apesar do discurso alarmista de Roma, há uma crítica contundente sobre a proporcionalidade dessas medidas. Na verdade, o governo italiano “vende” uma versão exagerada contra os sul-americanos.
O argumento ad absurdum: O governo frequentemente evoca o fantasma de 60 a 80 milhões de pedidos simultâneos para justificar restrições severas.
A realidade dos dados: na prática, o fenômeno de migração em massa é minoritário. Dados recentes mostram que, em um período de três anos, foram realizados cerca de 40 mil reconhecimentos, uma cifra ínfima perto dos milhões citados na retórica política.
Barreira natural: a enorme dificuldade de reunir certidões do século 19, os custos advocatícios e a própria falta de interesse em obter a dupla cidadania já servem como um filtro natural. Esse cenário torna o argumento governamental de um colapso iminente mais político do que estatístico.
Um ponto central ignorado pelo discurso oficial é o perfil dos requerentes. Ao contrário do estigma de uma migração de baixo custo, quem busca o reconhecimento da cidadania são, em sua maioria, pessoas com alta formação educacional e estabilidade financeira.
Esses novos cidadãos representam uma elite técnica e intelectual que poderia oferecer grandes contribuições à economia italiana. A falta de políticas de acolhimento e incentivo faz com que a Itália perca a oportunidade de absorver talentos que já possuem o vínculo jurídico e cultural com o país.
Sem canais de integração profissional, o passaporte acaba sendo encarado apenas como uma ferramenta de mobilidade.





























































AMERICO CATTABRIGA
4 de janeiro de 2026 at 20:01
Acertaram em cheio, foi isto mesmo que eles pensaram, e ajudados pelo Trump. Esqueceram dos Ius Barchi, que vêm da África do Norte, e da India muçulmana, que chegam aos montões e são despreparados para o trabalho, não professam a religião católica.
Leo
4 de janeiro de 2026 at 23:39
Melhor os negros do norte da África e os muçulmanos,kkkk.