O Parlamento italiano aprovou nesta quinta-feira (8) uma reforma eleitoral que acaba com a divisão exclusiva da América do Sul nas eleições legislativas. A mudança afeta diretamente os cidadãos italianos residentes no Brasil, que passarão a disputar a representação parlamentar com eleitores de outros continentes.
A reforma, apresentada pelo governo da primeira-ministra Giorgia Meloni, foi aprovada pela Câmara dos Deputados por 227 votos a 164. Como o texto já havia passado pelo Senado, aguarda a sanção do presidente Sergio Mattarella para se tornar lei.
Segundo a agência ANSA, as novas regras deverão valer nas eleições legislativas de 2027.
América do Sul perde colégio eleitoral próprio
Atualmente, os italianos residentes no exterior elegem oito deputados e quatro senadores, distribuídos por quatro divisões geográficas: Europa, América do Sul, América do Norte e Central, e África, Ásia e Oceania.
A América do Sul tem direito a dois deputados e um senador. Essas cadeiras são disputadas exclusivamente por candidatos da região, como mostrou o Italianismo na cobertura das eleições de 2022.
Com a reforma, a Câmara dos Deputados terá apenas duas áreas eleitorais para os residentes no exterior: Europa e demais continentes. No Senado, todos os italianos que vivem fora do país integrarão um único colégio eleitoral mundial.
O número total de parlamentares eleitos no exterior permanecerá inalterado, com oito deputados e quatro senadores.
A principal consequência para os ítalo-brasileiros é o fim das cadeiras reservadas à América do Sul. O direito de voto permanece, mas a escolha dos representantes ocorrerá em áreas geográficas mais amplas.
Italianismo antecipou mudança em julho
A extinção do colégio eleitoral sul-americano já havia sido antecipada pelo Italianismo em reportagem publicada em 13 de julho de 2026, intitulada “Reforma eleitoral na Itália pode redesenhar o voto dos italianos no exterior”.
Na ocasião, o portal mostrou que uma emenda apoiada pelos partidos de centro-direita previa reduzir de quatro para duas as divisões eleitorais da Circoscrizione Estero na Câmara e criar um colégio único mundial para o Senado.
A reportagem também apontou uma questão decisiva para os italianos residentes no Brasil: o futuro do voto de preferência, mecanismo que permite ao eleitor escolher diretamente seu candidato.
Segundo dados apresentados à época pelo deputado Christian Di Sanzo, do Partido Democrático, a América do Sul concentrava cerca de 2,1 milhões de italianos, contra aproximadamente 580 mil na América do Norte e 340 mil na região formada por África, Ásia e Oceania.
O tamanho do eleitorado sul-americano poderia favorecer candidatos da região em uma disputa mais ampla, caso fosse preservado o voto de preferência.
Por outro lado, a adoção de listas bloqueadas, nas quais a ordem dos eleitos é definida previamente pelos partidos, reduziria a possibilidade de escolha individual dos candidatos.
A aprovação da reforma confirma a mudança territorial antecipada pelo Italianismo. A situação do voto de preferência ainda depende da verificação das disposições específicas do texto aprovado.
Mudança já havia provocado críticas
A proposta provocou críticas de parlamentares eleitos pelos italianos residentes no exterior.
Em julho, o Italianismo noticiou a reação do deputado Nicola Carè, do Partido Democrático, que classificou a iniciativa como uma medida de hostilidade contra os italianos que vivem fora do país.
O ex-deputado Luis Roberto Lorenzato, eleito pela América do Sul entre 2018 e 2022, também questionou a possibilidade de eliminação do voto de preferência, conforme a reportagem publicada pelo Italianismo em julho.
Em setembro, o Italianismo voltou ao assunto ao publicar as críticas do deputado Fabio Porta, também do Partido Democrático. Ele alertou que a redução das divisões eleitorais poderia enfraquecer a relação entre representantes e comunidades italianas no exterior.
O argumento dos críticos é que áreas eleitorais muito extensas dificultam a representação de comunidades com necessidades e características diferentes.
Já os defensores da mudança afirmam que o modelo atual ficou desequilibrado após a redução do número de parlamentares italianos, aprovada em referendo em 2020.
Reforma altera também o sistema eleitoral italiano
A mudança no voto dos residentes no exterior faz parte de uma reforma mais ampla do sistema eleitoral da Itália.
O projeto substitui o modelo misto, que combina eleições proporcionais e distritais, por um sistema proporcional com um mecanismo de bonificação para a coalizão que alcançar pelo menos 42% dos votos.
Segundo a ANSA, o mecanismo prevê um bônus de 70 cadeiras na Câmara dos Deputados e 35 no Senado para a coalizão que cumprir os requisitos estabelecidos.
O governo Meloni defende a reforma como instrumento para aumentar a estabilidade política e facilitar a formação de maiorias parlamentares.
Para os italianos residentes no Brasil, a mudança mais relevante é o fim da representação eleitoral territorialmente reservada à América do Sul.
A região continuará participando das eleições italianas, mas seus candidatos passarão a disputar cadeiras em colégios que reúnem eleitores de diferentes continentes.
A reforma ainda depende da sanção presidencial para se tornar lei.
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