Um italiano pode deixar seu país, aprender outro idioma, mudar de continente e se adaptar aos costumes locais. Mas há limites. E, aparentemente, um deles é colocar abacaxi na pizza.
O chef italiano Davide Tamburella levou essa convicção tão a sério que acabou demitido de um restaurante em Brisbane, na Austrália, após se recusar a preparar pizzas com presunto e abacaxi.
Para o restaurante, era um pedido de cliente. Para Tamburella, uma afronta à cultura italiana.
E assim, uma simples fruta tropical acabou no centro de uma disputa trabalhista.
O cliente pediu. O italiano recusou.
Tudo aconteceu no restaurante La Costa, que oferecia uma experiência gastronômica inspirada na Itália.
O problema começou quando um cliente solicitou pizzas com presunto e abacaxi para um evento cujo valor ultrapassava 15 mil dólares australianos.
O chef disse não.
E não era a primeira vez. Segundo os documentos analisados pela Fair Work Commission, órgão australiano responsável por disputas trabalhistas, Tamburella havia recusado a mesma orientação três vezes em quatro anos.
Em uma das ocasiões, chegou a recomendar ao patrão que pesquisasse a importância cultural de não colocar abacaxi na pizza para muitos italianos.
Era um conflito de princípios. De um lado, o empresário queria atender ao cliente. Do outro, o cozinheiro defendia uma tradição gastronômica.
No meio, um abacaxi que ninguém havia convidado para participar da discussão.
A pizza foi parar numa disputa trabalhista
Tamburella acabou demitido em 20 de maio de 2026.
Mas a história não se resumiu ao ingrediente proibido. O restaurante também apontou problemas de comportamento, linguagem inadequada e conflitos durante o expediente.
O chef contestou a demissão, alegando violação da legislação trabalhista australiana.
A disputa chegou à Fair Work Commission, que rejeitou o pedido em decisão divulgada em 3 de novembro.
O motivo, porém, não foi gastronômico.
Tamburella apresentou sua reclamação fora do prazo legal, e a comissão não encontrou circunstâncias excepcionais que justificassem aceitar o atraso.
Assim, não houve uma decisão sobre o mérito das acusações nem sobre a legitimidade da recusa.
A legislação australiana, portanto, continua sem uma posição oficial sobre o destino do abacaxi na pizza.
Para os italianos, talvez seja melhor assim.
Justamente na terra do abacaxi
A história tem um detalhe que torna tudo ainda mais curioso.
O restaurante ficava em Queensland, estado australiano conhecido pela produção de abacaxi.
A região leva a fruta tão a sério que abriga uma atração turística chamada Big Pineapple, uma estrutura de aproximadamente 16 metros de altura em homenagem ao fruto.
Tamburella, portanto, decidiu defender a tradição italiana praticamente no território adversário.
Não faltou coragem. Talvez tenha faltado disposição para negociar o cardápio.
O empresário Elliot Ingram afirmou à imprensa australiana que também não considera a pizza havaiana sua favorita. Mas explicou que a experiência no setor de restaurantes o ensinou a escolher quais batalhas vale a pena enfrentar.
Tamburella aparentemente já havia escolhido a sua.
Perdeu o emprego, mas não a convicção
A demissão trouxe consequências sérias para o chef.
Tamburella estava envolvido em um processo de obtenção de residência permanente na Austrália, que dependia do patrocínio de seu empregador. Com o desligamento, seus planos de imigração foram prejudicados.
O restaurante La Costa, por sua vez, encerrou as atividades em julho, após o fim do contrato de aluguel.
O italiano conseguiu outro emprego em Brisbane, no restaurante Don Gino.
E aqui está o detalhe que provavelmente mais interessa aos defensores da verdadeira pizza italiana: o novo estabelecimento não oferece pizza com abacaxi no cardápio.
No fim, Tamburella mudou de cozinha, mas não precisou mudar de opinião.
Porque um italiano pode viver na Austrália, no Brasil, em Portugal ou em qualquer outro lugar do planeta.
Pode até aceitar que cada país tenha seus costumes.
Mas abacaxi na pizza?
A cidadania italiana pode atravessar oceanos. Certas convicções também.