Abóboras de plástico, esqueletos, fantasias e vitrines tomadas por produtos temáticos. A cada outubro, a Itália incorpora mais elementos do Halloween popularizado pelos Estados Unidos, enquanto tradições locais ligadas à memória dos mortos disputam atenção com a festa comercial.
Para intelectuais, religiosos e defensores do patrimônio cultural italiano, a preocupação não está na diversão das crianças, mas na crescente influência de um modelo de celebração impulsionado pelo consumo.
A americanização das tradições
O antropólogo italiano Marino Niola criticou a transformação do Halloween em produto comercial durante entrevista ao jornal La Repubblica.
“Non è più una festa popolare ma un prodotto di consumo.”
“Não é mais uma festa popular, mas um produto de consumo”, em tradução livre.
Niola ressalta que o costume de esculpir abóboras e recordar os mortos já existia em diferentes regiões europeias, inclusive na Itália, antes da popularização do modelo americano.
Publicidade
A resistência também aparece entre religiosos. O padre e antropólogo Guidalberto Bormolini classificou como profundamente prejudicial a maneira como a cultura contemporânea apresenta o mundo dos mortos às crianças, associando-o a monstros, vampiros e zumbis.
Bormolini defende a recuperação de costumes italianos que valorizam a memória dos antepassados, em vez da predominância de imagens de terror e produtos comerciais.
A Itália já tinha suas próprias abóboras
O paradoxo é que várias regiões italianas preservam celebrações semelhantes, anteriores à expansão do Halloween americano.
Em Orsara di Puglia, no sul do país, moradores celebram os Fucacoste e cocce priatorje, uma tradição marcada por fogueiras e abóboras iluminadas na noite de 1º de novembro.
Em comunicado, os organizadores destacaram que a localidade não celebra o Halloween, mas sua própria festa popular, associada à lembrança dos mortos.
Na Sicília, a Festa dei Morti mantém outro costume: crianças recebem doces e presentes simbolicamente deixados por familiares falecidos.
Essas celebrações estão ligadas à religiosidade, à memória familiar e à identidade das comunidades. A preocupação de seus defensores é que sejam ofuscadas por uma festa com maior exposição comercial.
Uma tradição europeia vendida ao estilo americano
Apesar da associação com os Estados Unidos, o Halloween tem raízes europeias. A celebração reúne elementos de antigas tradições celtas e costumes posteriormente levados à América, especialmente por imigrantes irlandeses.
Publicidade
Foi nos Estados Unidos, porém, que ganhou sua dimensão comercial contemporânea, difundida internacionalmente pelo cinema, pela publicidade e pela indústria do entretenimento.
É esse modelo que alimenta as críticas na Itália.
A questão não é impedir uma festa estrangeira, mas preservar manifestações culturais que atravessaram gerações e hoje disputam espaço com um produto globalizado.
Enquanto fantasias e decorações importadas conquistam vitrines, cidades italianas continuam acendendo fogueiras e preparando doces para recordar seus mortos.
O contraste expõe uma disputa que vai além do Halloween: a capacidade de preservar tradições locais diante da força comercial da cultura americana.