A epidemia de cólera de 1884 matou milhares de pessoas em Nápoles, sobretudo entre os mais pobres. A resposta do governo italiano foi abrir ruas, instalar redes de esgoto e demolir quarteirões inteiros do centro. As obras buscavam melhorar as condições sanitárias, mas também tiraram moradores de suas casas.
Naqueles anos, a pobreza e a falta de trabalho já levavam muitos napolitanos a procurar uma vida longe dali. Nem mesmo quem tinha uma profissão estava livre das dificuldades.
Luigi Peluso era sapateiro, calzolaio nos registros italianos. Nascido na Via San Biagio dei Librai, no bairro de San Lorenzo, vivia em uma cidade onde até os ofícios tradicionais ofereciam poucas garantias de sustento.
Em 1888, quatro anos depois da epidemia, Luigi se casou em Nápoles. Mais tarde, deixou a cidade. Sua certidão de casamento é um dos documentos que ficaram daquela vida antes da partida.
Uma cidade doente
A cólera encontrou uma cidade onde faltava quase tudo.
Nos bairros de Porto, Mercato, Pendino e Vicaria, entre os mais populosos de Nápoles, a mortalidade geral entre 1878 e 1883 chegava a cerca de 40 mortes por mil habitantes ao ano. Era um índice elevado, mesmo para os padrões da época.
As famílias viviam amontoadas em moradias pequenas, muitas vezes úmidas e sem ventilação. O abastecimento de água era precário, e o esgoto corria perto das casas.
Quando a epidemia chegou, a doença se espalhou rapidamente. Em 31 de agosto de 1884, foram registradas 82 mortes. Nos dias 10 e 11 de setembro, o número chegou a 550, segundo relatos históricos sobre o surto.
O medo tomou conta da cidade. Circularam rumores de que a cólera não era uma doença, mas um plano para eliminar os pobres. A desconfiança em relação às autoridades cresceu justamente nos bairros mais atingidos.
Os bairros que vieram abaixo
Depois da epidemia, o governo decidiu transformar Nápoles.
O primeiro-ministro Agostino Depretis defendeu que era necessário sventrare Napoli, literalmente, “estripar Nápoles”. A expressão resumia a proposta de abrir grandes avenidas no meio dos bairros antigos, derrubando construções consideradas insalubres.
Em 15 de janeiro de 1885, foi aprovada a Lei nº 2892, que estabeleceu as bases do chamado Risanamento. As principais obras começaram em 1889.

Porto, Pendino, Vicaria e Mercato estavam entre as áreas atingidas. Casas foram desapropriadas, ruas desapareceram e famílias tiveram de procurar outro lugar para morar.
O projeto previa melhorias sanitárias, mas não resolveu o problema habitacional dos mais pobres. Os novos edifícios e a valorização dos terrenos tornaram parte das áreas reformadas inacessível para antigos moradores.
A Via San Biagio dei Librai, onde nasceu Luigi Peluso, ficava perto dos bairros transformados pelas obras. A rua sobreviveu, assim como boa parte do traçado antigo do centro histórico.
Luigi já havia se casado quando começaram as grandes demolições. Não há documentos que permitam atribuir sua saída diretamente às obras, mas ele viveu em uma Nápoles que mudava rapidamente.
Quando nem o ofício garantia o pão
A pobreza não atingia apenas os trabalhadores sem profissão.
Sapateiros, alfaiates, carpinteiros e outros artesãos dependiam de uma clientela que também enfrentava dificuldades. Em uma cidade onde tantas famílias mal conseguiam pagar pela alimentação e pela moradia, o trabalho podia ser irregular e insuficiente.
Era nesse mundo que Luigi Peluso exercia seu ofício de sapateiro. Ser calzolaio significava dominar um trabalho manual, aprendido e aperfeiçoado com a prática. Mas ter uma profissão não significava receber um salário fixo nem contar com serviço todos os dias.
A situação era difícil também fora da cidade. No sul da Itália, famílias de agricultores enfrentavam impostos, dívidas e dificuldades para sobreviver da terra. O serviço militar obrigatório retirava jovens do trabalho, enquanto a crise agrária dos anos 1880 reduzia ainda mais as oportunidades.
A emigração cresceu. Entre 1876 e 1915, cerca de 14 milhões de italianos deixaram o país. A Campânia, região de Nápoles, respondeu por aproximadamente 1,48 milhão dessas saídas. Só entre 1901 e 1915, foram cerca de 955 mil.
Muitos partiram para os Estados Unidos, a Argentina e o Brasil.
A passagem para o Brasil
Do outro lado do Atlântico, os fazendeiros de café de São Paulo procuravam trabalhadores.
Em 1886, criaram a Sociedade Promotora de Imigração, que organizava a chegada de famílias estrangeiras, muitas delas com a passagem paga.
A abolição da escravatura, em 1888, acelerou a reorganização do trabalho nas fazendas paulistas e ampliou a procura por imigrantes europeus.
Para uma família italiana sem dinheiro para atravessar o Atlântico, a possibilidade de viajar com a passagem custeada podia fazer a diferença entre ficar e partir.
A propaganda da emigração apresentava o Brasil como um país de oportunidades. A realidade encontrada nas fazendas, porém, nem sempre correspondia às promessas feitas antes do embarque.
A travessia
A viagem não era simples. Os emigrantes passavam semanas no mar, geralmente alojados nos espaços mais baratos dos navios. Na terceira classe, famílias inteiras dividiam ambientes apertados, com pouca ventilação e condições sanitárias deficientes.
As doenças eram uma ameaça constante. Em 1893, o vapor Carlo R., que transportava emigrantes para o Brasil, esteve envolvido em um episódio de cólera documentado pelo médico italiano Luigi Buscalioni.
A doença que havia matado milhares de pessoas em Nápoles continuava fazendo vítimas nas rotas marítimas.
Para quem embarcava, havia poucas garantias. Alguns levavam economias, roupas e documentos. Outros dependiam da passagem subsidiada e da promessa de trabalho do outro lado do oceano.
O que ficou no papel
A Nápoles que Luigi Peluso conheceu já não existe por inteiro.
Parte dos bairros populares desapareceu durante o Risanamento. No lugar das casas antigas surgiram avenidas, edifícios e uma cidade diferente daquela em que milhares de famílias haviam vivido.
A Via San Biagio dei Librai continua lá, atravessando o centro histórico. Mas a vida de quem morou naquela rua no século XIX só pode ser reconstruída aos poucos, por meio de registros civis, documentos de família e arquivos.
A certidão de casamento de Luigi Peluso, de 1888, é uma dessas peças. O documento registra uma parte de sua vida em Nápoles. Não explica por que decidiu emigrar, nem permite saber se a falta de trabalho foi determinante para sua partida.
Luigi tinha um ofício. Era sapateiro, em uma cidade onde até quem sabia trabalhar com as próprias mãos podia ter dificuldade para sobreviver.
Sua certidão ficou em Nápoles. A história do que aconteceu depois precisa ser procurada nos registros da emigração e nos documentos preservados por seus descendentes.

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Excelente reportagem sobre a dificuldade e a miséria na linda Napoli.