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Cartas da América

‘Talvez lá longe me espere a sorte’: as cartas do italiano que deixou Parma rumo ao Brasil em 1908

Mario Alberto Pelosi partiu da Itália aos 24 anos, escreveu à família durante a viagem e chegou ao Pará cheio de planos. De Belém, deixou uma única carta no acervo. Pouco depois, morreu de febre amarela.

Cartas da América é a série dominical do Italianismo que resgata histórias de italianos que emigraram para o Brasil, por meio de cartas, fotografias e documentos de família que preservam as memórias da imigração italiana.
Cartas da América é a série dominical do Italianismo que resgata histórias de italianos que emigraram para o Brasil, por meio de cartas, fotografias e documentos de família que preservam as memórias da imigração italiana | Foto: Depositphotos

Gênova, 15 de janeiro de 1908. Mario Alberto Pelosi tinha 24 anos, o dinheiro contado e um navio que atrasara por causa do mar agitado. Antes de embarcar rumo ao Brasil, escreveu à mãe, que havia ficado em Parma com os outros filhos. Queria tranquilizá-la. E deixou uma frase que, mais de um século depois, ganha outro significado:

«State allegre; pensate che forse laggiù mi attende la fortuna.»

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“Fiquem alegres; pensem que talvez lá longe me espere a sorte.”

Mario não sabia, mas aquela esperança estava prestes a se transformar numa história de despedida sem volta.

Esta é uma nova história de Cartas da América, a série dominical do Italianismo dedicada à correspondência dos italianos que emigraram para o Brasil.

O menino do orfanato

Mario nasceu em Parma, em 1883. O pai morreu cedo, e a mãe, viúva com quatro filhos, Mario, Ofelia, Nicarete e Bruno, não conseguiu criar todos em casa. Mario, o mais velho, foi colocado num orfanato.

Depois de concluir o ensino elementar, começou a trabalhar em canteiros de obras. Primeiro como operário, depois como assistente técnico, responsável por contas e supervisão. Conquistou a confiança dos patrões.

Pouco depois dos 20 anos, dois acontecimentos abalaram sua vida. Um operário morreu num acidente no canteiro em que trabalhava, e seu noivado com uma jovem da mesma idade chegou ao fim.

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Segundo o relato biográfico preservado pelo Archivio Diaristico Nazionale, essas experiências provavelmente contribuíram para a decisão de emigrar.

Mario estabeleceu contatos com construtoras do Pará e, no início de 1908, deixou Parma rumo a Gênova, acompanhado do amigo Raoul. Seu destino era Belém, no Norte do Brasil.

“Foi como se algo se separasse de mim”

A primeira carta preservada dessa viagem foi escrita em 13 de janeiro, logo depois de sua chegada a Gênova. Mario ainda sentia o peso da despedida.

«Quando non vidi più la vostra casa, quando la silhouette della vostra dimora scomparve da la mia vista fu come qualche cosa che si dividesse da me.»

“Quando deixei de ver a casa de vocês, quando sua silhueta desapareceu da minha vista, foi como se algo se separasse de mim.”

Contou que tentou conter o choro enquanto se afastava da mãe e dos irmãos. Quis gritar a própria dor, mas, segundo escreveu, a voz da necessidade falou mais alto.

Ofelia e Raoul o acompanharam na saída de casa.

Apesar da tristeza, Mario dizia partir tranquilo. Acreditava que o trabalho na América poderia ajudá-lo a melhorar de vida e, um dia, ser útil à família.

A esperança de encontrar a sorte do outro lado do Atlântico já aparecia nessa primeira carta. Dois dias depois, ele a repetiria.

Minutos antes de partir

Em 16 de janeiro, Mario escreveu sua última carta em solo italiano. Confiou-a a Raoul, que voltaria a Parma.

As sirenes do navio já soavam quando ele se despediu mais uma vez.

«Fra poche ore sarò in alo mare, verso l'infinito oceano; verso l'ignoto.»

“Em poucas horas estarei em alto-mar, rumo ao oceano infinito; rumo ao desconhecido.”

Disse que partia sereno e forte, confiante na possibilidade de construir uma vida melhor. Mas logo deixou escapar a saudade de quem se separava da família.

«Ricordatevi sempre del vostro Mario; ora ne sento più che mai il bisogno.»

“Lembrem-se sempre do seu Mario; agora preciso disso mais do que nunca.”

Antes de assinar, pediu que recomendassem ao irmão caçula, Bruno, que se comportasse. Assim que pudesse, mandaria chamá-lo para o Brasil.

No pós-escrito, acrescentou uma orientação prática: as cartas enviadas ao exterior exigiam uma franquia postal de 25 centésimos.

De porto em porto

Mario embarcou no vapor Lusitania, mencionado em sua correspondência com referência à Società Italo-Spagnola.

A viagem passou por Marselha, Barcelona, Gibraltar e Lisboa. Ao longo do percurso, escreveu à família e também ao amigo Raoul.

Em Marselha, observou os bondes, reclamou da sujeira das ruas e descreveu o que comeu e bebeu. Em Barcelona, visitou o monumento a Cristóvão Colombo, cuja figura aponta em direção à América.

Também manteve anotações de viagem destinadas à família. Nelas, descreveu a saída de Gênova, as luzes da cidade desaparecendo ao longe e a cama dura que encontrou a bordo.

Quando o vapor finalmente deixou o porto, voltou à cabine para chorar.

Na carta de despedida, Mario havia pedido aos familiares que lhe escrevessem para a posta-restante de Lisboa, onde esperava retirar a correspondência.

Foi a partir de Portugal que seguiu viagem no vapor Rio Grande, responsável pela travessia até o Pará.

Foram 14 dias no Atlântico, 12 deles sem avistar terra. Segundo seu relato, houve apenas dois dias de tempestade. Enquanto outros passageiros passavam mal, ele não sofreu enjoo. O problema era a comida.

Feijão, fava, ervilha e grão-de-bico, preparados com bacalhau, apareciam repetidamente nas refeições. Mario contou que ficou tão enjoado da alimentação que passou os últimos quatro dias sem comer, limitando-se a beber cerveja, vendida a 30 centésimos o copo.

“Que mês de julho na Itália, que nada!”

Em 8 de março de 1908, Mario finalmente escreveu de Belém.

Havia chegado 12 dias antes, por volta de 25 de fevereiro. Mas precisou esperar a passagem de um navio para enviar notícias à família. Segundo ele, a correspondência chegava e partia em intervalos de dez a doze dias.

A cidade que encontrou vivia os anos de prosperidade do ciclo da borracha. O comércio do látex impulsionava a economia e transformava a paisagem urbana de Belém, que atraía trabalhadores, comerciantes e investidores.

Mario descreveu uma cidade muito extensa, de casas baixas, e um calor difícil de suportar.

«Qui fa un caldo indiavolato. Altro che mese di luglio in Italia!»

“Aqui faz um calor dos diabos. Que mês de julho na Itália, que nada!”

Mario contou que, por causa do calor intenso, as pessoas andavam pelas ruas apenas de camisa, sem paletó, algo que contrastava com os hábitos de vestuário de sua cidade natal, Parma.

Mas sua preocupação principal continuava sendo tranquilizar a mãe.

Prometeu fazer todo o possível para se estabelecer e ganhar dinheiro. E voltou a falar do irmão mais novo.

Bruno deveria se preparar. Mario pretendia mandá-lo chamar em agosto ou setembro daquele ano.

No fim da carta, pediu notícias da família e prometeu escrever com mais detalhes no próximo vapor.

A carta que não veio

Não há outra carta enviada de Belém entre os documentos disponibilizados pelo arquivo italiano.

O que aconteceu depois é conhecido pelo relato biográfico que acompanha a correspondência.

Pouco tempo após chegar ao Pará, Mario adoeceu de febre amarela e morreu em Belém, sem a presença de familiares. A fonte não informa a data exata da morte.

Anos depois, a família soube de detalhes de seus últimos dias por uma coincidência.

Nicarete, uma das irmãs de Mario, contratou uma empregada que havia vivido durante alguns anos no Pará. A mulher contou que trabalhara num hospital de Belém e que conhecera Mario quando ele estava internado.

O jovem italiano havia lhe pedido um favor: se algum dia voltasse à Itália, deveria procurar sua família e levar-lhe notícias.

Foi essa mulher quem fechou os olhos de Mario após sua morte.

O que sobreviveu

A história de Mario Alberto Pelosi está preservada no projeto Italiani all'estero, I Diari Raccontano, desenvolvido a partir do acervo do Archivio Diaristico Nazionale, de Pieve Santo Stefano, com apoio do Ministério das Relações Exteriores da Itália.

O site reúne sete textos relacionados à sua partida e à viagem de 1908, entre cartas e anotações pessoais.

Neles, aparecem a dor da despedida, a curiosidade diante dos portos europeus, o desconforto da travessia e a esperança de ganhar dinheiro no Brasil.

Apenas um desses registros foi escrito em Belém. É nele que Mario renova a promessa feita antes de deixar a Itália: mandar chamar o irmão Bruno.

A sorte que esperava encontrar tão longe de casa não chegou. Ficaram as cartas.

Cartas da América é a série dominical do Italianismo que recupera histórias de italianos emigrados para o Brasil por meio da correspondência e dos documentos pessoais preservados em arquivos históricos.

Fonte documental: Archivio Diaristico Nazionale, projeto Italiani all'estero, I Diari Raccontano, coleção Mario Alberto Pelosi. Textos de janeiro a março de 1908.

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