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Cartas da América

‘Com o coração apertado como numa morsa’: o diário de um italiano a caminho do Brasil em 1911

Aos 22 anos, Diego Morandi deixou uma pequena cidade da província de Cremona para reencontrar o irmão em Porto Alegre. Durante a viagem, registrou despedidas, saudade, a primeira visão do mar e a chegada ao Brasil.

Página original do diário-carta de Diego Morandi, iniciado em 18 de janeiro de 1911 e dedicado ao primo Renzo Nevi. No manuscrito, ele registra a viagem de Torricella del Pizzo, na província de Cremona, ao Brasil. Foto: Archivio Diaristico Nazionale / I Diari Raccontano.
Página original do diário-carta de Diego Morandi, iniciado em 18 de janeiro de 1911 e dedicado ao primo Renzo Nevi. No manuscrito, ele registra a viagem de Torricella del Pizzo, na província de Cremona, ao Brasil. Foto: Archivio Diaristico Nazionale / I Diari Raccontano.

Torricella del Pizzo, 18 de janeiro de 1911.

Diego Morandi começou a viagem para o Brasil escrevendo.

Bendita Cidadania, analise de cidadania italiana

No alto da primeira página, indicou a quem aquelas palavras eram destinadas:

“A mio cugino Renzo Nevi. Viaggio da Torricella del Pizzo (CR) al Brasile.”

Era um diário-carta dirigido ao primo Renzo, escrito enquanto Diego deixava a Itália e seguia para reencontrar o irmão Paolo, que vivia em Porto Alegre.

A primeira anotação já mostra o peso da partida: “partenza da casa col cuore stretto come in una morsa” (Partida de casa com o coração apertado como numa morsa).

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Diego tinha 22 anos. Saía de Torricella del Pizzo, na província de Cremona, levando duas malas e sem saber exatamente o que encontraria do outro lado do oceano.

‘Uma dor crescente e contínua’

No dia seguinte, seguiu para Gênova. A despedida ainda continuava.

Diego escreveu:

Bendita Cidadania, analise de cidadania italiana

“un dolore crescente e continuo specialmente quando salutavo gli ultimi conoscenti”

“Uma dor crescente e contínua, especialmente quando me despedia dos últimos conhecidos.”

Dentro do trem, tentou se distrair olhando a paisagem. Não conseguiu. Os olhos voltavam para as duas malas que levava consigo.

A viagem já havia começado, mas a Itália ainda estava muito perto.

O mar pela primeira vez

Ao se aproximar de Gênova, Diego viu o mar. A imagem o impressionou profundamente.

Ele escreveu sobre:

“quel mare portatore di gioia e fortuna e causa di tanti mali”

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“Aquele mar portador de alegria e fortuna e causa de tantos males.”

A frase carrega a dúvida de quem emigrava sem garantias. O oceano podia ser o caminho para uma vida melhor. Também podia trazer sofrimento.

Diego ainda não sabia qual das duas possibilidades o esperava.

“Che spettacolo”

No porto de Gênova, encontrou a cena que marcava a grande emigração italiana.

Baús, sacos, trouxas, pacotes, cestos, colchões e almofadas se acumulavam entre os passageiros.

Diego observou tudo e anotou:

“che spettacolo”

“Que espetáculo.”

Vieram os controles médicos, a conferência dos documentos e, enfim, o embarque no vapor Lombardia, que seguiria para a América do Sul.

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Emigrantes a bordo de um vapor no início do século 20. A imagem é ilustrativa da experiência de viagem em terceira classe e não retrata necessariamente o Lombardia, navio usado por Diego Morandi em 1911.
Emigrantes a bordo de um vapor no início do século 20. A imagem é ilustrativa da experiência de viagem em terceira classe e não retrata necessariamente o Lombardia, navio usado por Diego Morandi em 1911.

Uma pequena Itália no convés

Poucos dias depois, o ambiente a bordo já era outro.

Em 26 de janeiro, Diego escreveu:

“Che allegria stamattina!”

“Que alegria esta manhã!”

No convés, passageiros de várias regiões tentavam preencher as horas da travessia.

Havia música, jogos de cartas, conversas e discussões. Calabreses, piemonteses, vênetos, napolitanos e lombardos dividiam o mesmo espaço.

Por alguns momentos, o navio parecia uma pequena Itália flutuando no Atlântico.

“É a Itália que se faz sentir”

À noite, o tom mudava.

Em 27 de janeiro, Diego ficou sozinho junto à amurada e escreveu:

“è l’Italia che si fa sentire”

“É a Itália que se faz sentir.”

A saudade aparecia com mais força quando o movimento do convés diminuía.

Ele pensava nas pessoas que havia deixado e registrou outra frase íntima:

“nessuno a cui possa confidare certi segreti del cuore”

“Ninguém a quem eu possa confiar certos segredos do coração.”

A distância começava a ganhar peso.

A chegada ao Brasil

Em 8 de fevereiro, 21 dias após a partida de Torricella del Pizzo, o Lombardia chegou ao Rio de Janeiro.

Antes de desembarcar, Diego se despediu dos companheiros de viagem:

“Addio cari compagni che forse non rivedrò più!”

“Adeus, queridos companheiros, que talvez nunca mais volte a ver!”

Era uma despedida diferente daquelas da Itália.

Durante semanas, desconhecidos haviam dividido o mesmo navio, o mesmo mar e a mesma incerteza. Agora cada um seguiria seu caminho.

Ao chegar ao Rio de Janeiro, Diego se impressionou com a paisagem.

Descreveu a cidade como:

“una conca meravigliosa di una bellezza naturale indescrivibile”

“Uma bacia maravilhosa, de uma beleza natural indescritível.”

Mas não viu apenas beleza. Registrou também o calor, as ruas, os bondes, os cheiros e aspectos da cidade que o incomodaram.

O Brasil começava a aparecer no diário não como promessa, mas como lugar concreto.

Ainda faltava chegar a Porto Alegre

O Rio era apenas uma etapa. Paolo estava no sul.

Diego seguiu viagem até Porto Alegre, onde o diário termina com o reencontro entre os irmãos.

Segundo o Archivio Diaristico Nazionale, a chegada foi marcada por lágrimas de alegria e pelo abraço entre os dois.

Quase um mês depois de deixar Torricella, Diego finalmente havia chegado.

Diego Morandi permaneceu no país até 1916. Depois retornou à Itália.

A vida seguiria por caminhos muito diferentes daquela primeira travessia. Ele viveu a Primeira Guerra Mundial, enfrentou conflitos políticos e dificuldades pessoais.

Morreu em 1961. O diário escrito aos 22 anos permaneceu.

O fac-símile

O manuscrito de Diego Morandi está preservado no Archivio Diaristico Nazionale, em Pieve Santo Stefano.

Na primeira página ainda é possível ver a caligrafia do próprio emigrante e o título que ele deu ao relato:

“Viaggio da Torricella del Pizzo (CR) al Brasile”

Diego não estava escrevendo para historiadores. Escrevia para o primo.

A viagem não foi reconstruída décadas depois. Foi registrada enquanto acontecia.

Cartas da América

Cartas da América é a série dominical do Italianismo dedicada às cartas, diários e correspondências deixados por italianos que emigraram para o Brasil e outros países das Américas.

Sempre que possível, a série apresenta também o fac-símile do documento original e preserva as palavras usadas por quem viveu a imigração enquanto ela acontecia.

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