Aos 82 anos, Silvio Berlusconi está de volta para “pensar o mundo”

Magnata está de volta e com a mesma humildade de sempre para concorrer cargo no Parlamento Europeu

Aos 82 anos, o ex-primeiro-ministro italiano acha que ‘há falta de um pensamento profundo sobre o mundo’ no Parlamento Europeu, daí que, por ‘sentido de responsabilidade’, tenha decidido candidatar-se a eurodeputado. Condenado por fraude, esteve anos sem se poder concorrer em eleições, agora está de volta, porque também é preciso ‘mudar este Governo’, o de Itália já se vê, que é liderado por ‘gente sem experiência’.

Playboy, crooner de cruzeiros, empresário da televisão, ex-dono de um clube de futebol, político, três vezes primeiro-ministro, condenado a sete anos de prisão por incentivo à prostituição de menores e abuso de autoridade (pena depois reduzida a quatro anos, três deles perdoados por amnistia e um que nem sequer o obrigou a prisão domiciliária) e a outros três anos de prisão por corrupção, Silvio Berlusconi estava impedido de concorrer à cargos públicos. Ao três vezes primeiro-ministro, fundador da Forza Italia, o juiz impôs em 2013 o impedimento de atuar em cargos públicos e a lei sobre corrupção determinou a sua expulsão do Senado nessa altura. Ficou também inelegível durante seis anos.

Agora, Berlusconi está de volta. Com o mesmo sorriso de galã de novela, o mesmo cabelo meticulosamente pintado e penteado, a mesma confiança de quem se acha único e indispensável. No ano passado ainda tentou se eleger com a sua refundada Forza Italia, numa coligação com a Liga, partido de Matteo Salvini, e os Irmãos de Itália que se desfez depois para que Salvini se juntasse ao Movimento 5 Estrelas (M5S) no atual Governo – o partido liderado por Luigi Di Maio recusou qualquer coligação com Berlusconi por causa da sua condenação por corrupção.

O regresso da Forza Italia ao palco eleitoral italiano não foi o esperado por Berlusconi. A coligação não conseguiu superar o M5S e a Forza Italia não conseguiu ser o partido de direita mais votado. Como habitualmente, para alguém que nunca se habituou a mea culpa ao longo da vida, o ex-primeiro-ministro rapidamente explicou o resultado: o fato de estar impedido de assumir a presidência do Governo caso fosse eleito, por causa o impedimento de exercer cargos públicos ainda em vigor. E por motivos externos justificava o mau resultado nas urnas.

Agora, aos 82 anos, Berlusconi está de regresso e com a mesma humildade de sempre para concorrer a um cargo no Parlamento Europeu, porque por enquanto não há eleições na Itália. Quando anunciou a sua entrada na corrida ao Parlamento Europeu, em janeiro, garantiu que avançava para a Europa “por um sentido de responsabilidade”, por causa da “falta de um pensamento profundo sobre o mundo” atualmente em Bruxelas.

O empresário e político que nos fez conhecer o termo bunga bunga, com as suas festas extravagantes que incluíam prostituas menores, fala como se o mundo, a Europa e a Itália estivessem muito pior desde que ele se demitiu da liderança do Governo italiano em 2011.

E isto numa altura em que Karima El Mahrou ou Ruby Roubacorações, a prostituta de 17 anos com quem manteve relações sexuais e denunciou as festas bunga bunga que fizeram Berlusconi cair em desgraça, parece voltar para lhe trazer novas dores de cabeça.

O Ministério Público de Milão abriu nesta semana uma investigação para apurar da veracidade da denúncia do ex-advogado de Ruby, Egidio Verzini, de que Berlusconi teria pago cinco milhões de euros através de bancos no México e na Antigua e Barbuda para comprar o silêncio. Dois milhões de euros para o então namorado da prostituta, Luca Risso, e três milhões para Ruby, transferidos para um banco no Dubai. Verzini – que tinha uma doença terminal e recorreu ao suicídio assistido o ano passado – afirmou que Berlusconi sabia que a prostituta era menor.

Algo que não parece tirar o sono ao ex-primeiro-ministro, cuja autoconfiança é característica intrínseca da sua personalidade, e volta focado na sua carreira política – ainda para mais agora que já não é dono do Milan. E apesar de se lançar na corrida ao Parlamento Europeu, não deixou no anúncio da candidatura de criticar o Governo italiano, verdadeiro alvo de todas as suas movimentações: “Temos de mudar este Governo, que inclui o 5 Estrelas, que é liderado por pessoas que não têm experiência, nem competência”, disse.

“São como os cavalheiros da esquerda comunista de 1994”, disse Berlusconi, se referindo ao adversários que ele derrotou na sua primeira eleição.

Por António Rodrigues/Newsplex