Copa volta para a Itália a cada 4 anos, mas só para ser polida

Taça foi criada por uma empresa familiar em cidade da região metropolitana de Milão e retorna após o Mundial para reparos

“Quando eu era criança, contava na escola que meu pai fazia a taça da Copa do Mundo. Ninguém acreditava. Agora minha filha fala que a mãe dela faz a taça da Copa do Mundo. Ninguém acredita.” É com bom humor e muita cortesia que Valentina Losa, de 38 anos, recebeu a reportagem do Estado na manhã da última segunda-feira. Na ampla sala do piso superior da empresa GDE Bertoni, fundada por seu bisavô em 1907, estão expostos troféus e medalhas. Nada chama tanto a atenção como a taça da Copa do Mundo, ao centro da mesa.

A taça foi criada pela empresa de sua família, a GDE Bertoni, em substituição à Jules Rimet, quando esta ficou em definitivo com o Brasil após o tricampeonato mundial conquistado no México em 1970 (e, mais tarde, roubada). A empresa é um orgulho de Paderno Dugnano, cidade da região metropolitana de Milão, onde funciona desde 1995.

Na oficina da família de Valentina, sete artesãos produzem medalhas e taças para diversos esportes e campeonatos. Da Liga dos Campeões ao Campeonato Mundial de Beisebol, passando por torneios mundiais de natação, vôlei de praia, futebol feminino e outras modalidades.

A Copa do Mundo Fifa, com seus 5 quilos de ouro 18 quilates e suas duas camadas de malaquita – aquelas faixinhas verdes da base -, num total de 6,17 quilos, retorna para Paderno Dugnano uma vez a cada quatro anos, sempre após o Mundial. “Aqui a polimos, fazemos pequenos reparos e substituímos a malaquita, que sempre se quebra no manuseio”, conta o artesão Pietro Brambilla, de 45 anos, que trabalha ali desde 1998. Seus pais, Luigi e Paola, trabalharam na mesma fábrica por, respectivamente, 40 e 37 anos. Uma vida.

Durante os reparos é também quando se grava o nome da última seleção campeã na base da taça. “Quando a Itália ganhou, em 2006, foi com muita festa que fizemos esse registro”, recorda-se o artesão.

Por segurança, a data exata em que a Copa está em Paderno nunca é revelada. “Tomamos mais cuidado ao entrar e sair da fábrica e eu praticamente durmo aqui dentro”, diz Valentina. A estadia da taça varia conforme a necessidade dos reparos e até mesmo a disponibilidade do material. “Às vezes, a malaquita demora duas semanas para chegar”, exemplifica Brambilla.

A empresa é um orgulho de Paderno Dugnano, cidade da região metropolitana de Milão Paderno Dugnano, Itália. © Paolo Vezzoli

Réplicas

Mas a taça original não é a única oficial. Pelas regras da Fifa, esta completamente de ouro é utilizada apenas na cerimônia de premiação e, depois retorna para a sede da entidade, em Zurique, na Suíça. De modo que os países que venceram a Copa do Mundo após 1970, Alemanha (três vezes, em 1974, 1990 e 2014), Brasil (duas vezes, 1994 e 2002), Itália (duas vezes, 1982 e 2006), Argentina (duas vezes, 1978 e 1986), França (1998) e Espanha (2010) ficam, em definitivo, com uma réplica autorizada, exatamente como a que a reportagem pôde conhecer na última segunda-feira.

De acordo com Brambilla, o modelo é visualmente idêntico ao original. Com uma pequena (e bastante valiosa) diferença: o material. Em vez de ouro 18 quilates, trata-se de uma liga de cobre e zinco, banhada a ouro. Também esta taça, em caso de necessidade de manutenção, retorna para a oficina da GDE Bertoni. “Houve uma vez que estávamos com sete ao mesmo tempo aqui. Foi uma festa”, conta o artesão.

Para o polimento, é preciso muito cuidado para não desgastar a taça. “Trata-se de um trabalho de olhos e cabeça”, afirma Brambilla, mostrando os equipamentos utilizados no processo. Depois de limpa e restaurada, a taça recebe novamente um banho de ouro. Ou melhor: três. “São três demãos, entremeadas por uma limpeza feita com bicarbonato de sódio”, conta.

Desde que a taça Jules Rimet foi aposentada, esta é a primeira Copa que a Itália não disputa – das outras duas vezes em que a Azzurra ficou fora do Mundial, em 1930 e 1958, antes, portanto, de 1970. “Estamos tristes, mas pelo menos sabemos que a taça do mundo é nossa”, brinca o artesão Salvatore Iannetti, de 48 anos. “Quanto à nossa seleção, melhor ficar fora do que passarmos vergonha. Precisamos renascer no futebol.”

Fã de Michelangelo, criador não gostava de futebol

A origem da GDE Bertoni remonta ao ano de 1907. Foi na Corso Garibaldi, rua então conhecida por ser reduto de artesãos em Milão, na Lombardia. Ali, Emilio Bertoni começou fazendo pratos decorativos e outros trabalhos com metal. “Era um ateliê pequeno, totalmente artesanal”, conta a atual proprietária, Valentina Losa, bisneta do fundador.

A sede da empresa mudou de Milão para Novate Milanese nos anos 1940. No endereço atual, em Paderno Dugnano, funciona desde 1995.

O crescimento da Bertoni viria com o mundo esportivo. Em 1960, a empresa, então já comandada por Eugenio Losa, genro do fundador, fechou um contrato para fornecer as medalhas dos Jogos Olímpicos de Roma. Dez anos mais tarde, com a Copa do Mundo de 1970, a derrota da Itália para a seleção brasileira, quem diria, representaria uma vitória da empresa italiana.

Isso porque, de acordo com as regras da Fifa, o troféu Jules Rimet ficaria em definitivo com o país que primeiro vencesse três vezes o Mundial, feito este conquistado por Pelé, Tostão, Rivellino e companhia. Assim, a organização futebolística se viu obrigada a escolher outra taça. “Houve um concurso, do qual participaram 53 empresas. Meu pai, Giorgio Losa, levou pessoalmente até a sede da Fifa, na Suíça, o protótipo do troféu, em gesso”, narra Valentina.

O desenho, criado pelo ourives Silvio Gazzaniga, que era funcionário da empresa, desbancou os concorrentes. A partir de então, a GDE Bertoni se tornou referência no mundo esportivo.

Em entrevista publicada pelo jornal El País pouco antes de sua morte, Gazzaniga explicou que seu desenho buscou “representar plasticamente o esforço dos atletas, com harmonia, sobriedade e paz”. “Me inspirei em duas imagens: a esportiva e a do mundo”, contou ele, na época. “Michelangelo dizia que fazer o seu Davi foi fácil porque ele já o tinha visto no mármore e só precisou aparar as sobras. Eu, que certamente, não sou tão talentoso como ele, segui o processo criativo.”

Curioso é que Gazzaniga, mesmo tendo sido o artista por trás da maior premiação do futebol mundial, não gostava do esporte, tampouco tinha time de predileção. O ourives também é autor do troféu da antiga Copa Uefa e dos mundiais de vôlei e de beisebol, entre outros.

Giorgio Losa morreu em 2010, aos 60 anos. Valentina, formada em publicidade e que até então trabalhava em uma empresa de comunicação, se viu na necessidade de assumir o negócio da família. Ela tinha 30 anos. “Não sabia nada. Tive a sorte de ter uma equipe de funcionários de extrema confiança. Nos primeiros três anos, aprendia uma coisa nova todos os dias”, diz.

Gazzaniga ainda atuava como diretor artístico da companhia. “Até 2011, ele ainda desenhava projetos, embora já trabalhasse em casa, por causa da idade avançada”, recorda-se Valentina. Ele costumava dizer que, a cada vez que a taça retornava para as manutenções, era como ver um filho voltando para casa – e ele a recebia com um abraço. O artista morreu em 2016, aos 95 anos. Sua assinatura permanece no troféu que o consagrou.

Edison Veiga, especial para o Estado / Paderno Dugnano