Para imprensa, referendo na Itália é mais importante que o Brexit

Matteo Renzi, o próximo dano colateral de mais um importante referendo?

País se prepara para ir às urnas dentro de dois meses. Renzi será o próximo efeito colateral?

Poucos antecipavam que uma maioria qualificada da população britânica votasse à favor da saída da União Europeia (Brexit) no referendo de 23 de junho. Mas foi isso que aconteceu, da mesma forma que, para surpresa de muitos, uma maioria de colombianos votou contra o acordo de paz entre o Governo e as FARC há uma semana, no mesmo dia em que menos de 50% dos húngaros apareceu nas urnas para apoiar os planos anti-imigração e anti-acolhimento de refugiados defendidos pelo Governo de Viktor Orbán.

A essas surpresas, apontam vários jornais europeus e norte-americanos, pode juntar-se agora o resultado da votação de 4 de dezembro na Itália, dia em que todos os eleitores do país – e fora dele, incluindo o Brasil – são chamados às urnas para decidir sobre uma proposta de reforma constitucional apresentada pelo primeiro-ministro, Matteo Renzi.

Em tempos depositário de todas as esperanças reformistas após anos de estagnação econômica, Renzi arrisca-se a ser a próxima baixa política de um sufrágio de resultados inesperados e indesejados, numa altura em que as sondagens mostram que enfrenta uma forte oposição ao plebiscito e à seu próprio governo.

Esta semana, o chefe do governo foi a Treviso, cidade do nordeste italiano, defender a complicada alteração à Constituição do país, sublinhando a um auditório lotado que o referendo de dezembro vai ditar o futuro e a rota de Itália ao longo das próximas três décadas. “Se querem que este país mude — não por mim, não por vocês, mas para o bem das nossas crianças — se querem ter um sistema mais simples, apoiem-me, porque eu não consigo fazer isto sozinho”, declarou aos presentes. “Se o referendo não passar, quem quer que seja primeiro-ministro nos próximos 30 anos será um escravo de vetos, chantagens e burocracias”, avisou.

É uma nota de importância extrema que muitos jornais e analistas já tinham atribuído a este referendo durante o verão. Em meados de agosto, o “Wall Street Journal” referia que o referendo constitucional de Itália é “mais importante” para a Europa do que a consulta ao Brexit, dias antes de o “La Repubblica” listar uma série de notícias da imprensa nacional e internacional que colocam a Itália no olho do furacão da crise econômica europeia — sobretudo por causa da inesperada estagnação registada no segundo trimestre deste ano, após uma aparente recuperação da recessão técnica em que o país se encontrava quando Renzi assumiu o poder.

Na mesma altura, o “New York Times” e o “Financial Times” consideraram que o fraco desempenho econômico da Itália eleva a pressão sobre a Europa e o espanhol “El País” referiu que uma derrota de Renzi no referendo constitucional poderá empurrar a União Europeia para uma nova crise de contornos imprevisíveis.

A consulta popular de dezembro centra-se numa complicada reforma à Constituição italiana que prevê a retirada de poderes ao Senado, a câmara alta do parlamento italiano, que Renzi e os seus apoiadores defendem como necessária para tornar o governo do país mais fácil. Os críticos da proposta dizem que esta reforma — já aprovada por uma maioria dos deputados, mas não os suficientes para evitar a votação popular — representa enormes perigos, por deixar nas mãos do Executivo eleito demasiados poderes que até agora pertenciam ao órgão legislativo do Estado.

Se o referendo não passar, quem quer que seja primeiro-ministro nos próximos 30 anos será um escravo de vetos, chantagens e burocracias

Tal como aconteceu com o referendo ao Brexit, a consulta italiana é tida não apenas como um debate sobre a questão colocada, mas sobretudo como um teste à popularidade de Renzi, à economia, ao statu quo e às promessas de mudança política que o primeiro-ministro apresentou em 2014. O “The Guardian” disse nesta sexta-feira, a dois meses da consulta, que “Renzi não antecipava que os eleitores perdessem a esperança nele depositada”, mas foi isso que aconteceu. Desagradados com a lentidão da recuperação econômica e desiludidos com o fraco desempenho do seu líder no processo de resgate de quatro bancos italianos no ano passado, muitos italianos acusam Renzi de favorecer a elite política à custa dos cidadãos comuns, refugiando-se em partidos anti-sistema como o Movimento 5 Estrelas, que em junho alcançou importantes vitórias nas eleições municipais, incluindo em Roma, a capital.

“Ele pensava que a sua personalidade e posição individual seriam elementos que iriam favorecer o ‘sim’ [à reforma constitucional] mas depois percebeu que, na realidade, não só não iam fortalecer o ‘sim’ como talvez servissem para dar força ao ‘não'”, disse Giovanni Orsina, professor de História Contemporânea da Universidade LUISS em Roma, citado pelo jornal britânico. Por causa disso, acrescenta o especialista, Renzi “tem passado os últimos meses tentando despersonalizar o referendo, apesar de saber que não deveria fazê-lo”.

Pesquisas mostram o quão difícil está prever o resultado da votação de dezembro. Um levantamento do “Corriere della Sera” apurou esta semana que 23% do eleitorado apoia a reforma, contra 25% que se lhe opõem e 52% de indecisos ou pesquisados que se recusaram a responder à pergunta. Outra sondagem do instituto EMG apontava há alguns dias que 31% dos italianos são a favor ao ‘sim’, contra 36% a favor do ‘não’ e 33% de indecisos. Mas também aqui, tal como com as consultas no Reino Unido, na Colômbia e na Hungria, as sondagens de intenção de voto podem estar longe da verdade. Verdade que só será revelada no dia da votação.

Por JOANA AZEVEDO VIANA/EXPRESSO