No berço da pizza, restrição ao uso do forno a lenha causa indignação

Se existe um rótulo que Antonio Falcone, médico que se tornou líder cívico, não deseja ver aplicado a ele é o de “prefeito antipizza”.

Mas foi exatamente assim que o prefeito de San Vitaliano, uma cidadezinha na região de Nápoles, se tornou conhecido no final de dezembro, quando, em um esforço para combater a poluição do ar, ele promulgou uma norma que proíbe o uso de fornos a lenha que não contassem com filtros que reduzam a emissão de poluentes tóxicos.

A proibição afetou também as residências equipadas com chaminés, além de empresas como padarias, restaurantes e –o aspecto mais controverso da medida– pizzarias equipadas com fornos a lenha, o orgulho gastronômico de uma área conhecida como terra natal de uma das mais renomadas exportações culinárias italianas. A indignação era inevitável.

“Fomos até comparados à China”, se queixou Pasquale Tufano, do Ristorante La Vigna, irritado por meia dúzia de pizzarias da cidade terem sido colocadas na berlinda e comparados a um país cuja capital, Pequim, lançou seu primeiro alerta vermelho sobre smog tóxico no mês passado.

O prefeito de San Vitaliano foi atacado na mídia social. Houve protestos públicos e apelos por sua renúncia.

“Tornei-me o prefeito antipizza”, lamenta Falcone, acrescentando que agiu no melhor interesse da cidade. “Sou responsável pela saúde dos cidadãos desta comunidade. Tínhamos de começar em algum lugar”.

Na verdade, Falcone é só um entre dezenas de prefeitos italianos que adotaram medidas de emergência no mês passado, depois que uma seca prolongada levou a poluição atmosférica a exceder repetidamente os limites autorizados.

Roma, que vem tentando reduzir as emissões de poluentes por automóveis a fim de limpar a atmosfera, criou um rodízio baseado em finais pares e ímpares das placas dos carros. Milão proibiu a circulação de automóveis por três dias consecutivos, sem muito efeito, e além disso, em companhia de outras cidades, proibiu queimas de fogos na véspera do Ano-Novo.

A Itália é um dos piores países da Europa em termos de qualidade do ar. O norte do país é fortemente industrializado, e as fornalhas industriais não recebem manutenção adequada; os congestionamentos de trânsito não param de crescer, o uso do diesel como combustível é alto e os investimentos de infraestrutura em trens de carga e no transporte coletivo vêm sendo negligenciados há anos, afirmam ambientalistas.

Com a alta nos níveis de poluição no começo do ano, prefeituras começaram a impor limites às emissões de certos poluentes, e o ministério do Meio Ambiente realizou uma conferência de emergência em Roma com representantes das regiões e municípios italianos.

O grupo propôs reduzir a temperatura dos sistemas de aquecimento domiciliares e de escritórios, baixar o limite de velocidade dos automóveis, tirar de circulação os carros mais antigos, encorajar o uso do transporte coletivo e limitar o número de chaminés. Mas nenhuma dessas medidas era compulsória, e na ausência de uma estratégia nacional integrada de combate à poluição –a Itália não tem um plano para isso em vigor, no momento–, a responsabilidade recaiu sobre prefeitos como Falcone.

A norma do governo local deu prazo até 29 de fevereiro para que as pizzarias e outras empresas equipassem os seus fornos com os filtros apropriados. A partir de 1° de março, os fiscais municipais começarão a verificar se a norma está sendo cumprida.

“Estamos lhes dando tempo para que se preparem. É uma questão de civilidade”, disse Tulliano Carpino, que comanda o departamento técnico da cidade.

Que os fiscais venham, declarou Giovanni Arricchiello, proprietário do restaurante Il Cavallino, em tom de desafio. O restaurante dele fica no final de uma longa rua comercial no limite da cidade de San Vitaliano.

Como outros pizzaiolos locais, Arricchiello já tem filtros contra poluição em seus fornos, e por isso a norma não vai afetá-lo.

“Sem eles não se pode conseguir uma licença para operar um restaurante”, ele disse sobre os filtros, mostrando uma pasta que contém uma foto do modelo de alta tecnologia que ele tem em uso, bem como os registros anuais de manutenção do restaurante. A vasta maioria das pizzarias de San Vitaliano diz que já conta com os filtros requeridos.

Excetuados os fornos de pizza, Falcone diz que a principal causa de poluição atmosférica em San Vitaliano continua a ser um mistério. O tráfego é ocasionalmente intenso, mas a cidade, a apenas 25 quilômetros a nordeste de Nápoles, é bem pequena, ele diz, e não abriga grandes fábricas.

Mas San Vitaliano fica ao lado de uma área de conexão rodoviária e é parte da região metropolitana de Nápoles, densamente povoada e conhecida pela incineração ilegal de lixo tóxico por grupos do crime organizado.

Vincenzo Russo, o vereador que cuida de questões ambientais na cidade, afirmou que o carvão barato e tratado quimicamente usado em fornos e caldeiras talvez seja culpado.

Os líderes de San Vitaliano, disse ele, também iniciaram um estudo com a Universidade Frederico 2º, de Nápoles, para determinar –entre outras causas possíveis– que impacto uma usina que converte detritos em energia localizada em Acerra, uma cidade a menos de 20 quilômetros de distância, pode estar causando.

“Mas a mensagem que acabou por ganhar circulação foi a de que temos um prefeito antipizza”, disse Russo.

Quando Falcone convocou uma reunião com representantes das cidades vizinhas para discutir o problema da poluição, só dois funcionários de escalão médio compareceram.

Os moradores locais dizem ter sido colocados na berlinda sem motivo válido, só porque San Vitaliano é a única cidade da área a ter um monitor de qualidade do ar, que entrou em operação cerca de um ano atrás.

“A poluição é problema real em toda a região, mas nós temos o único monitor ativo. Por isso, fomos apanhados no fogo cruzado”, disse Tuffano, cuja pizzaria, La Vigna, está equipada com filtros.

Ele disse que dedicou a maior parte das duas últimas semanas a garantir aos seus clientes que a pizzaria não havia sido fechada.

Tradução de PAULO MIGLIACCI